terça-feira, 6 de maio de 2014

O gesto bananizado



O futuro chegou e transformou tudo em lata de sopa Campbell’s – até a banana de Daniel Alves

RUTH DE AQUINO
06/05/2014 07h00 - Atualizado em 06/05/2014 08h59

No primeiro dia, foi o gesto genial. Era um domingo. Ao se curvar no campo do estádio espanhol, descascar a banana, comê-la de uma abocanhada e cobrar o escanteio, Daniel Alves assombrou o mundo. Não só o mundo do futebol, esse que chama juiz de “veado” e negro de “macaco”. O baiano Daniel, mestiço de pele escura e olhos claros, assombrou o mundo inteiro extracampo. Vimos e revimos a cena várias vezes. “Foi natural e intuitivo”, disse Daniel, o lateral direito responsável pelo início da virada do Barcelona no jogo contra o Vilarreal. Por isso mesmo, por um gesto mudo, simples, rápido e aparentemente sem raiva, Daniel foi pop, simbólico, político e eficaz.
Só que, hoje, ninguém, nem Daniel Alves, consegue ser original por mais de 15 segundos. Andy Warhol previa, na década de 1960, que no futuro todos seríamos famosos por 15 minutos. Pois o futuro chegou e banalizou os atos geniais, transformando tudo numa lata de sopa de tomate Campbell’s. A banana do Daniel primeiro reapareceu na mão de Neymar, também vítima de episódios de racismo em estádios. Neymar escreveu na rede em defesa do colega e dele próprio: “Tomaaaaa bando de racistas, #somostodosmacacos e daí?”. Uma reação legítima, mas sem a maturidade de Daniel. Natural. Há quase dez anos de estrada de vida entre um e outro.
Imediatamente a banana passou a ser triturada por milhares de “selfies”. O casal Luciano Huck-Angélica lançou uma camiseta #somostodosmacacos. Branco, o casal que jamais correu o risco de ser chamado de macaco apropriou-se do gesto genial, por isso foi bombardeado por ovos e tomates na rede, chamado de oportunista. A presidente Dilma Rousseff, em seu perfil no Twitter, também pegou carona no gesto de Daniel “contra o racismo” e chamou de “ousada” a atitude dele. Depois de ler muitas manifestações, acho que #somostodosbobos, a não ser, claro, quem sente na pele o peso do preconceito.
“Estou há 11 anos na Espanha, e há 11 anos é igual... Tem de rir desses atrasados”, disse Daniel ao sair do gramado no domingo. Depois precisou explicar que não quis generalizar. “Não quis dizer que a Espanha seja racista. Mas sim que há racismo na Espanha, porque sofro isso em campos (de futebol) diferentes. Não foi um caso isolado. Não sou vítima, nem estou abatido. Isso só me fortalece, e continuarei denunciando atitudes racistas.”
Tudo o que se seguiu àquele centésimo de segundo em que Daniel pegou a fruta e a comeu, com a mesma naturalidade do espanhol Rafael Nadal em intervalo técnico de torneios mundiais de tênis, como se fizesse parte do script, tudo o que se seguiu àquele gesto é banal. Os “selfies”, a camiseta do casal 1.000, o tuíte de Dilma, as explicações de Daniel após o jogo, esta coluna. Até a nota oficial do Villareal, dizendo que identificou o torcedor racista e o baniu do estádio El Madrigal “para o resto da vida”. Daniel continuou a evitar as cascas de banana. Disse que o ideal, para conscientizar sobre o racismo, seria fazer o torcedor “pagar o mal com o bem”.
De toda a “bananização” do gesto de Daniel, a mais ironizada foi de Huck e sua mulher. Ele já explicou que não lucra nada com a camiseta. Huck não se emenda e escorrega na fama. Acha que é unanimidade no Brasil, mas ninguém é. Poucos podem ser brilhantes ao agir sem pensar. Em 2009, Huck foi vítima de assalto. Levaram seu Rolex em São Paulo. Contando com uma onda de solidariedade, Huck publicou um artigo no jornal Folha de S.Paulo. Escreveu que, caso morresse com um tiro de 38, deixaria “uma pobre criança órfã e uma jovem viúva”, “uma multidão bastante triste”, “um governador envergonhado” e “um presidente em silêncio”. Sua morte, escreveu Huck, seria “a manchete principal no Jornal Nacional”. Provavelmente verdade.
As banalidades, os plágios e as mentiras proliferaram com o Facebook. Redes sociais são bastante úteis, especialmente em ditaduras, democratizam o acesso à informação, ajudam os solitários a se conectar, mas são excelentes ferramentas para perder amigos. Tornaram-se também palco de intolerância e exibicionismo. O Facebook começa a afugentar muitos, pela quantidade de bobagens e pela perda de tempo de leitura e outros hábitos prazerosos.
De chorar de rir são as traduções automáticas, do português para o inglês, das manifestações na rede. Quando alguém sensato protestou, na semana passada, ao escrever que “pegar carona no gesto do Daniel Alves, uma bela sacada contra o racismo, é dose pra leão”, o Facebook explicou aos gringos : “Hitchhiking in the gesture of Daniel Alves, a beautiful balcony against racism, is dose to Lion”. Imagina na Copa...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt 2013

Do Estadão.com.br:

Em seu discurso de abertura na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato fez uma pesada crítica às desigualdades sociais brasileiras. Entre outras questões, falou do passado escravagista, de violência, da população carcerária e de homofobia. Leia a íntegra do discurso a seguir:

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O escritor Luiz Ruffato  - Divulgação
Divulgação

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dia internacional do Surfe







Ela anda sem destino ao nosso redor, envolta em preto, em sua vestimenta sagrada, seus olhos penetram profundamente e nós desviamos o olhar.

Ela controla a besta amarela e a impulsiona a uma velocidade impressionante. Através da areia, do vento e das pedras, ela se aproxima. Então o silêncio. Então as nuvens. Então a escuridão. 

Nos braços abertos de uma grande montanha reside arte eterna em descanso. Ela nos guia e nós a seguimos. Ela é um raio negro. Suas mãos se juntam e ela nos dá o presente.

Girando. Ondulando. Dançando. Eletric Blue Heaven.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pânico no salão


Contra arrastões em restaurantes e bares, o Governo do Estado de São Paulo anunciou que irá aumentar as patrulhas policiais em dias festivos, uma medida que soa ridícula, pois é óbvio que não haverá assaltos quando as ruas estiverem abarrotadas de gente. Desde o começo do ano até agora, segundo a contagem da Folha, foram 22 os casos de roubos a esses estabelecimentos, todos localizados nos pólos gastronômicos de São Paulo, e 18 desses praticados entre 22h e 1h da madrugada. Os dias com maior incidência são às terças e quartas-feiras.

A mídia prefere inflamar o clima de insegurança provocado por esses arrastões: dá voz exagerada a clientes, vítimas indignadas com o fato de terem seus bens subtraídos de um local em que foram para deleitarem-se ("Sempre achei que aqui fosse seguro. Jamais esperava por isso." E por aí vai...). Os comerciantes, mais racionais, buscam analisar o fato com frieza para não espantarem sua clientela: "Iremos providenciar botões antipânico, instalaremos também câmeras de segurança nas partes interna e externa." Não sem também responsabilizarem a polícia, que vem classificando a onda delituosa como um "modismo" adotado por bandidos que, em geral, são quadrilhas de jovens menores de idade. Segundo a polícia, 14 bandidos de uma mesma quadrilha já foram pegos. Eles moravam no Glicério, bairro violento próximo à Sé e Avenida do Estado.

Discutindo o assunto com meu pai, ele lançou uma questão que até agora não vi ser debatida: será que a ousadia dos bandidos de invadirem estabelecimentos cheios, em regiões nobres da capital, não está ocorrendo porque os mesmos sabem que a população está desarmada?

Sei que a Lei do Desarmamento contribuiu muito para reduzir os índices de criminalidade, principalmente a taxa de homicídios, que era acima de 30 por grupo de 100 mil habitantes em São Paulo dez anos atrás. No entanto, ao desarmar a população, também abriu-se precedente para os criminosos agirem mais confiantes, pois sabem que dificilmente suas vítimas agirão.

Creio que os arrastões em bares e restaurantes têm sido noticiados semanalmente porque as quadrilhas sabem que os comerciantes não possuem porte de arma, tampouco os clientes que ali estão. Preferiram deixar de atuar nos semáforos, individualmente, para, em grupo, invadirem um local com alta concentração de cartões de crédito, dinheiro, celulares, jóias e notebooks.

Nosso país deveria flexibilizar o porte de arma. Oferecer a quem não tenha antecedentes criminais e possua diploma de nível superior, um curso completo de tiro, desde a prática até submeter a pessoa a exames psicoténicos etc.

Antigamente, meu pai me disse, os comerciantes guardavam suas armas em baixo do balcão e ladrão nenhum roubava seu comércio com tanta facilidade como hoje em dia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma revolução tal qual a Leica

A segunda edição da revista Zum (Instituto Moreira Sales) traz neste semestre interessante material de guerra. Tratam-se de fotos do coletivo Basetrack, composto por dois fotógrafos húngaros, uma canadense e mais um inglês, que foi criado em 2010 para, juntos, acompanharem o cotidiano de um grupo de fuzileiros navais norte-americanos no Afeganistão.

O inovador desse projeto é que, no lugar de câmeras profissionais, os quatro viajantes foram munidos apenas com seus Iphones para fazerem o material de guerra. A ideia de acompanharem o dia a dia dos militares americanos somente com smartphones surgiu por conta da carência que as famílias desses vinham sentido.

A aproximação quase que irrestrita ao batalhão durou sete meses e foi acompanhada pelos familiares através das redes sociais. Dessa forma, nasceu um álbum que é um importante registro histórico, ao mesmo tempo em que não deixa de ser intimista e familiar. Coisa bem bacana mesmo (veja fotos mais abaixo).

Mas uma hora, é claro, a invasão de intimidade incomodou o governo norte-americano, e, aí, o coletivo teve que regressar do deserto.

Não é a primeira vez que se usa celular para registrar uma guerra. É cada vez mais recorrente o uso dessa ferramenta, principalmente devido à sua mobilidade, funcionalidade e sua facildade de compartilhamento de fotos. Praça Tahir no Cairo, Wall Street, na captura do ditador líbio Muammar Kadafi. Tal qual a portátil Leica do começo do século passado, os celulares de hoje tornaram-se importantes instrumentos de registro da História.




















Agora, coloco também aqui em baixo a coluna do Luis Fernando Veríssimo publicada hoje no Estadão. Achei que ela tem bastante a ver com o assunto. Pura coincidência.

Como imaginar uma orgia

26 de abril de 2012 | 3h 10
Verissimo - O Estado de S.Paulo
 
A minicâmera e o grampo telefônico ainda podem fazer mais pela moral na política do que toda a fiscalização e todos os mandamentos cristãos juntos. Supõe-se que depois dos escândalos recentemente grampeados as pessoas fiquem mais cautelosas, ou mais reticentes. Corruptos e corruptores continuarão a existir mas não agirão nem falarão mais tão livremente, pelo menos não antes de procurar a câmera e o microfone escondidos. O que deve no mínimo dificultar os negócios.

Os avanços da técnica revolucionaram o registro histórico. Imagine se quando o Kennedy foi assassinado já existissem os gravadores e os celulares que hoje substituem as câmeras fotográficas até no aniversário do cachorro. Em vez daquele precário filme em 8 mm do atentado, estudado e reestudado quadro a quadro na busca de vestígios de uma conspiração, haveriam teipes e fotos de todos os ângulos e com todas as respostas, como a cara, o nome e o CIC dos possíveis conspiradores.

Mas a técnica, ao mesmo tempo que desestimula a falcatrua, comprova a denúncia, desmancha o mistério e enriquece a notícia, pode empobrecer nossa percepção dos fatos. As grandes batalhas e os grandes eventos da era pré-fotográfica foram registrados em quadros épicos em que o artista ordenava a cena em função do efeito, não do fato, ou não exatamente do fato. A Primeira Guerra Mundial não foi mais terrível do que muitas guerras anteriores, só foi a primeira guerra filmada, a primeira com a imagem tremida e sem cor, e por isso parece tão mais feia do que as guerras heroicamente pintadas. A guerra do Vietnã foi a primeira transmitida pela tevê, a primeira em que o sangue respingou no tapete da sala. Por isso deu nojo. Os americanos aprenderam a lição e transformaram sua invasão do Iraque num videogame.

Até surgir a possibilidade de ser tecnicamente denunciado, o político corrupto podia contar com a condescendência do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia sempre a suspeita de que não era bem assim. Sua culpa - até se ouvir sua voz gravada combinando a divisão dos milhões, ou ver sua imagem forrando os sapatos com dinheiro - era sempre uma conjetura. Imaginávamos o que acontecia nos bastidores do poder corrupto mas era um pouco como imaginar uma orgia romana, ou visualizar uma orgia romana através da imaginação de um artista. Agora não. Com a banalização do grampo telefônico e da minicâmera escondida, temos o que faltava no quadro. Temos todos os sórdidos detalhes e a orgia às claras. Temos o que enoja.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Adeus, gênio

"Todos os pensadores internacionais batidos no liquidificador não dariam meio copo do Millôr."
Ruy Castro, no velório realizado no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju, na zona portuária do Rio, esta quinta (29).


"Viver é desenhar sem borracha"
Millôr Fernandes
1924-2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Despertar


A coisa mais engraçada dos contos de fadas é que nos esquecemos deles rapidamente.

E aí crescemos, compramos coisas, construimos barreiras.

Vendemos nossa inocência e esquecemos dos nossos sonhos.

Nós esquecemos de quem nós somos em detrimento de ser o que não somos.

E vamos continuar acreditando nessas ditas verdades, até esquecermos como viver. Ou até abrirmos nossos olhos, e acordar.

Trailer do filme Intentio, de Löic Wirth.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Cásper: o movimento está apenas começando

da FOLHA.COM



19/03/2012-20h35

Professor da Cásper Líbero recusa convite para reassumir cargo

EVANDRO SPINELLI
DE SÃO PAULO



O professor Edson Flosi, demitido no início do mês pela Faculdade Cásper Líbero, disse nesta segunda-feira que não aceita a proposta da faculdade de retomar seu antigo cargo e afirma que a luta dos estudantes deve continuar.Após protestos, Cásper Líbero convida professor a reassumir postoA demissão gerou uma crise na instituição. Com isso, a Cásper Líbero voltou atrás e convidou Flosi a retomar suas funções.Na semana passada, houve protesto dos alunos e, em solidariedade a Flosi, o também professor Caio Túlio Costa pediu demissão.Em nota, Flosi afirmou que sua demissão foi uma injustiça, mas que a manifestação dos estudantes tem relação com a qualidade de ensino e outros problemas da instituição, não apenas com sua demissão.Segundo ele, "qualquer manobra para esvaziar o movimento dos estudantes deve ser repudiada energicamente".Veja a íntegra da nota oficial de Flosi."Tomei conhecimento pela Imprensa do convite da Fundação Cásper Líbero e da Faculdade Cásper Líbero para reeassumir minhas funções naquela instituição de ensino, onde lecionei por 16 anos, até ser demitido em meio a grave doença que me acometeu. Minha resposta: não volto, não posso e não devo voltar.Não volto porque a manifestação estudantil não acontece apenas pela minha volta ou pela volta do Prof. Caio Túlio Costa, que se demitiu solidário à injustiça que sofri. Não volto porque a manifestação estudantil, conduzida pelo Centro Acadêmico Vladimir Herzog, tem o objetivo maior de lutar por melhores condições de ensino na Faculdade Cásper Líbero.Comigo e o Prof. Caio Túlio dentro ou fora da Faculdade, a luta dos estudantes deve continuar até que a Mantenedora e a Faculdade se dignem a atender suas reivindicações, principalmente a transparência entre a receita das mensalidades pagas pelos alunos e outras taxas, e o valor investido no ensino. Além da solidariedade que me emprestou, a falta de estrutura na Faculdade, que reflete no ensino deficiente, foi a bandeira levantada pelo Prof. Caio Túlio na sua carta de demissão.Os estudantes devem continuar lutando até conquistarem o que lhes é de direito. Agradeço comovido a manifestação estudantil que também acontece a meu favor e a favor do Prof. Caio Túlio. Mas o objetivo maior dessa juventude que paga mais de mil reais por mês para estudar deve ser perseguido até o fim. Qualquer manobra para esvaziar o movimento dos estudantes deve ser repudiada energicamente. A luta continua. Todo poder aos estudantes."

domingo, 18 de março de 2012

(A)Fundação Cásper Líbero


A Fundação Cásper Líbero, da qual receberei meu diploma de jornalista (hope so), demitiu na semana passada um de seus mais antigos professores, o jornalista e advogado criminalista Edson Flosi, que nos últimos dois anos estava de licença para iniciar sua luta contra um câncer terminal. Em solidarieade ao colega, o professor titular de Ética jornalística, Caio Túlio Costa, resolveu se demitir, em caráter irrevogável.

É triste ver a primeira e mais antiga faculdade de jornalismo do país, formando profissionais da área desde 1948, numa situação dessas. Duas perdas irreparáveis para o quadro da faculdade e para a formação do que lá estão.

Quando me chegou a notícia, quinta passada (15) fiquei paralisado, custei a acreditar. "Como?", indaguei, se dois dias atrás lá estava a diretora da Faculdade, Teresa Vitali, bem atrás de mim, na modesa fila para pegar uma dedicatória do mestre, que lançava seu livro "Por trás da notícia", na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista?

Como ela teve tamanha frieza e cinismo para ir ao encontro do professor em um dia tão especial - para ele - comprar seu livro, permanecer na fila e felicitá-lo? No dia seguinte nos chegou a notícia.

Embora Flosi não estivesse mais dando suas aulas de Legislação e Práticas Jurídicas (tive a sorte de pertencer à sua última turma, de 2009, e fiz questão de dizer isso a ele na livraria), prestava o serviço de assessor da diretoria, comparecendo regularmente na faculdade.

Publico também a íntegra da entrevista que o Centro Acadêmico da faculdade fez com ele, no sábado. Ela é muito reveladora e vai exigir trabalho dos alunos para que a Fundação seja mais transparente com o dinheiro que recebe e administra.



Na manhã de sábado (17) o professor Edson Flosi falou pela primeira vez com o Centro Acadêmico Vladimir Herzog (CAVH). Representando o CAVH, a estudante de jornalismo e diretora pedagógica da Gestão Comunica, Melina Sternberg, conversou por quase uma hora com o professor que foi demitido da Faculdade Cásper Líbero há quase duas semanas.


CAVH – Professor, bom dia. Gostaríamos de esclarecer algumas dúvidas que ficaram após a reunião com a Diretoria da Cásper ontem, sexta-feira. Agora que o senhor foi demitido, como fica a situação do seu plano de saúde? Segundo a Diretoria, ele vai se manter normalmente...
Edson Flosi – Isso é mentira. O plano de saúde que eu tinha pela faculdade era muito valioso pra mim, porque o plano cobria as sessões de quimioterapia. Eu pagava R$ 250 por mês e a Fundação pagava mais uma parte. Esse plano era empresarial. Quando eu fui demitido, no dia 5 de março, o meu plano da Faculdade fechou. Existe uma Lei Federal que permite que eu faça a migração do plano para o plano de saúde individual. Fazendo isso, eu tenho que pagar a mais. A partir desse mês eu estou pagando R$ 750 reais, pra ter os mesmos direitos. Isso é uma Lei Federal, não é favor da Faculdade. A única coisa que a faculdade fez foi encaminhar meus papéis pra seguradora.

CAVH – Como foi o seu afastamento da sala de aula?
EF – Eu trabalhei 16 anos lá. Nos últimos dois, de 2010 e 2011 eu fiquei muito doente. Eu tive que me afastar das aulas da graduação, oito por semana. Com mais quatro aulas de TCC, então eram doze aulas no total. Então fiquei só com as quatro horas do TCC, às segundas-feiras. Como eu não tinha um orientando específico, então eu dava uma orientação geral para os grupos que necessitavam. Em 2012 a situação podia perdurar, mas eu não fui convidado – não pelos alunos, mas pelos professores que fazem a distribuição dos alunos pro TCC. Primeiro parte dos alunos escolher o professor, segundo, há professores que organizam os grupos porque tem professores que já orientam muitos TCCs. Podiam ter feito isso comigo, mas não fizeram. Eu poderia continuar vinculado a coordenadoria dando aulas de TCC, não tinha nenhuma dificuldade em fazer isso. Quando eu parei de dar aula na graduação eu tava doente, eu fiquei só com as aulas de TCC e como assessor. Fui simplesmente demitido. Eles não me deram as aulas, como eu ia lecionar?

CAVH – Como era seu trabalho como assessor da Diretoria?
EF – Eu já era assessor da diretoria desde 2004. Como assessor eu fui o presidente da comissão de reforma do Regimento Interno, que foi debatido com alunos, professores e em 7 reuniões do Conselho Técnico Administrativo [CTA] que eu coordenei. O processo durou 5 anos até ser aprovado no MEC. Além desse trabalho do regimento, eu dei a forma jurídica ao Plano de Desenvolvimento Institucional. Foi um trabalho de um ano. Eu também era o responsável pelos pedidos de abono de falta. Eu não me limitava a deferir ou indeferir o pedido do aluno. Eu ligava pra casa do aluno, falava com os pais e ajudava. Eu resolvia caso por caso amparando e protegendo o aluno. Eu também sempre fui, nos últimos dez anos, o presidente da comissão eleitoral de todas as eleições da faculdade, dos corpos docente e discente. Ganhando como assessor eu estava praticamente pagando pra trabalhar. Mesmo assim eu não pedi demissão porque tinham outros fatores que me permitiam continuar, como o Seguro de Vida, o plano de saúde, que eu pagava menos, etc.

CAVH- O senhor poderia ter optado por uma licença?
EF – Na Faculdade é que eu poderia, como qualquer professor, tirar uma licença por dois anos, prevista no Regimento Interno e nos convênios com o Sindicato dos Professores, que renovam todo ano. Eu poderia pedir a licença e ir pro INSS pedir uma parte do salário, mas eu não posso, porque eu sou aposentado como jornalista. Eu continuaria professor da faculdade só que sem receber nada,porque a licença não é remunerada. Ninguém me ofereceu nenhuma licença – e se tivessem me oferecido eu teria recusado. Por que eu pediria licença? Eu tava cumprindo minhas obrigações todas.

CAVH – Qual foi o motivo da sua demissão? Como o senhor recebeu essa notícia?
EF – Não deram nenhum motivo pra demissão. Não tentaram nenhum acordo, nada. É um direito da empresa me demitir. Câncer não gera estabilidade, tá no direito dela. Eles pagaram todos os direitos trabalhistas – isso por causa da lei, não é favor nenhum. Eu nem sabia que eu ia ser demitido. Eles vão pagar o aviso prévio, como também a semestralidade, as férias, tudo. O que me magoou não foi a demissão, porque a empresa tá no direito dela. O que magoou foi o tratamento tão repugnante a um professor que trabalhou por 16 anos. De repente eles chegam e falam que eu tô despedido. A maneira que eu fui tratado me magoou muito. Quanto à demissão, aí não: demissão é demissão, todo mundo é demitido e acabou.

CAVH - Você acredita que a Diretoria teria podido, digamos, lutar mais pelo senhor em relação à Mantenedora?
EF – Olha, eu vou responder esta pergunta de outro forma: a Diretoria, ela deveria, até pra salvar-se, ela deveria lutar mais por muitas coisas na Faculdade. Uma delas é minha demissão, mas outra é melhoria de ensino, é melhoria das salas de aula, é ampliação de salas de aula e de número de professores pra ter menos alunos em algumas salas de aula... É ar condicionado, é uma área de lazer que esta Faculdade não tem.

CAVH – O senhor acredita que o seu caso é um gancho para esses outros pontos – levantados inclusive na carta de demissão do Caio Túlio?
EF – Isso que você falou é muito importante. Eu quero que o meu caso se transforme num gancho, no incio da causa pra novas conquistas na faculdade. A faculdade tem 2500 alunos e arrecada milhões por mês. Vai tudo pra mantenedora, a faculdade não fica com nada. A Faculdade isolada, mas ela tem por trás uma Fundação, que não pode ter lucros. Vocês tem que participar de todas as reuniões de verba, vocês precisam receber planilhas contábeis todo mês, descobrir onde está o ralo por onde esse dinheiro vai embora. Vocês tem que falar, brigar, mas não por mim, nem pelo Caio Túlio. Vocês tem que brigar pelos interesses de vocês, pelo ensino, pensando no futuro e, principalmente pra manter lá em cima o nome da Cásper Líbero, que sempre foi uma faculdade de renome, uma das melhores que tem no brasil e que agora tá descampando... Que é isso!Eu queria que esse movimento continuasse pra lutar pelos outros problemas. Os estudantes tinham que esquecer o Flosi, esquecer o Caio Túlio e lutar por mais participação.

CAVH – Através de que órgãos os estudantes poderiam ter mais atuação e cobrar a transparência?
EF – O Conselho Técnico Administrativo é o coração da Faculdade. Por cima dele só tem a Congregação, que só se reúne duas vezes por ano - o que não adianta nada. O corpo discente tem só 8 representantes na Congregação, e a Congregação tem 120 votos dos professores. 120 contra 8 não adianta nada! Nas reuniões do CTA tem 15 professores. São 15 votos contra um [do representante discente]. Isso é tapar o sol com a peneira! O corpo discente só terá participação efetiva participará se lutar por uma cogestão, por mais representantes nas decisões da Faculdade.

CAVH - Qual a relação da Fundação com o Ministério Público?
EF – O Ministério Público é o curador da Faculdade, eu sei que é. Vocês precisam pedir esclarecimentos : que fiscalização que ele tá exercendo nas contas da Faculdade? O Sérgio Felipe [Superintendente Geral da Fundação, Sérgio Felipe dos Santos] tem que prestar conta para vocês, a Mantenedora, de tudo que ele gasta, de tudo que ele faz.

CAVH – Como se dá a relação da Faculdade com a Mantenedora?
EF – A Mantenedora, pelo próprio Regimento Interno, não tem nada a ver com a Faculdade, com o ensino, com a parte pedagógica, nada, nada. Ela só tem a ver com dinheiro. Quando a Faculdade precisa fazer despesas, ela pede pra Mantenedora, a Mantenedora libera a verba. Faculdade arrecada tanto, manda tudo pra Mantenedora. Mas este dinheiro tem que voltar. E está voltando? Mentira! Claro que não. Vamos por quatro alunos, que um é pouco, para participar da cogestão, representando o Centro Acadêmico e participando das despesas e das receitas; aprovando as despesas e as receitas da Faculdade. Eles vão levar a sério isso porque aluno é jovem e jovem não se corrompe.

CAVH – Sabemos que houve uma redução do pagamento de horas/aula do TCC e que os professores não foram pagos em janeiro. Esse é um caso de interferência da Mantenedora?
EF – TCC é aula como qualquer outra aula. O professor deu aula de TCC o ano todo de 2011. Ele chega em janeiro, ele não tá faltando às aulas, ele tá em recesso. Recesso é previsto em lei. Você não pode mudar o ordenado do professor em recesso. Eles cortaram as aulas de TCC de janeiro e fevereiro. Cortaram por quê? Pra fazer economia, porque a Mantenedora quer ficar com o dinheiro.

CAVH – E esse é mais um caso em que a Faculdade poderia ter lutado pelos professores, não?
EF – Além de agredidos, [os professores] se sentiram prejudicados, porque foram receber o ordenado e tinham menos dinheiro. A Diretoria foi lutar por isso pra impedir esta agressão? Foi nada. Nada. Tem outros professores que eu não to autorizado a falar o nome, mas é de conhecimento amplo da Faculdade, que foram demitidos por questões medíocres, mentirosas. E também a Diretoria não lutou por nada, defendeu ninguém. Ela é uma Diretoria omissa.

CAVH – O que senhor gostaria de dizer algo aos alunos?
EF – Gostaria que você levasse todos estes esclarecimentos. Levanta também a cogestão.

CAVH - Professor, em nome da gestão Comunica e do Centro Vladimir Herzog, afirmo que nós estamos totalmente solidários ao senhor e que a gente se coloca à sua disposição como o seu canal para continuar conversando com os alunos – porque a gente acredita que isso é essencial. A gente vai ouvir as suas palavras e levá-las em frente como a dedicação que o senhor deu pra Faculdade todos esses anos e que, com certeza, a gente vai fazer acontecer. Se é um pedido do senhor, a gente vai levar pra frente.
EF – Ouvir isso, um velho de setenta e dois anos, de uma estudante não seja minha aluna... Muito obrigado mesmo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Livre arbítrio



A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a venda de cigarros com aditivos que dão sabor artificial à droga, sob o argumento de que, com a medida, jovens adolescentes diminuam seu interesse pelo primeito trago e, assim, não venha a se viciarem.

"Ótimo", vibram os pais que sofrem para educar seus pentelhos que não lhes dão ouvidos. Isso é um raciocínio pequeno demais se projetarmos o que está em jogo uma medida como essa. Não está em discussão a hipótese de menos pessoas virem a se tornar dependentes químicos, mas sim o fato concreto de que quem pensa em fumar - ou mesmo quem já fuma - não terá mais na prateleira da banca ou da tabacaria a opção de escolher o fumo que menos lhe pega a garganta.

Aos poucos, o Governo vai restringido nossa possilidade de escolhas com argumento de que está preservando nossa saúde, nosso bem estar etc. Às vezes, porra, preciso errar no sal para saber o que é uma insossa; exagerar na bebida, para sofrer e me arrepender com a ressaca do dia seguinte; permanecer horas em pé em uma fila, para valorizar o repouso. Proibir o que está aí para ser experimentado é nos privar de nos conhecermos e sabermos o que nos agrada ou não.

Não me esqueço da sauna de Sampoern que era as matinês de quando tinha 15 anos de idade. Os primeiros tragos foram, não nego, em cigarros mentolados. Mas há algum fumante que acha essa merda de marca boa? "O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas", escreveu Luiz Felipe Pondé hoje.

Um governo que age assim, é como um pai que impede que seu filho conheça as belezas e as tristezas do mundo, tapando-lhe os olhos, ouvidos e nariz.

Espaço vazio

Enquanto Ruy Castro não se recupera do tombo que levou devido a uma perda súbita de consciência, sua coluna não vem sendo publicada.
A última que escreveu é esta aqui em baixo, de 20 de fevereiro de 2012. Já faz quase um mês.


Ruy Castro

Mais jovens do que somos

RIO DE JANEIRO - Nas fotos, eles estão sempre de terno escuro, pérola na gravata e competente chapéu. Alguns usam sobretudo, capa de chuva ou guarda-pó, donde concluo que fazia mais frio, chovia e ventava no Brasil do passado. Pelo menos, sobre os escritores.

São belas fotos. Numa delas, José Lins do Rego, Otavio Tarquínio de Souza, Paulo Prado, José Américo de Almeida e Gilberto Freyre parecem a ponto de tomar um navio para a Europa. Em outra, Guimarães Rosa, de paletó riscado e gravata borboleta, afaga seu gato. E, ainda em outra, os rapazes de 1922, alguns com suspeitos colarinhos parnasianos, posam pimpões para o futuro -sentado no chão, sem comprometer o vinco da calça, o galhofeiro Oswald.

Enquanto Hemingway ia direto da caçada, cheirando a elefante, para uma festa de gala, nossos escritores ainda viviam engomados. O primeiro a se deixar fotografar de calção, descalço e camisa aberta ao peito talvez tenha sido Jorge Amado. Em seguida, Vinicius de Moraes começaria sua transição do terno cinza para a camisa de malha preta, existencialista, e mocassins sem meias. E, pouco depois, Fernando Sabino diria que os escritores estavam perdendo a aura -por acaso, isso coincidia com a sua adesão às mangas curtas.

Não sei se pelas becas, mas todos aqueles homens pareciam mais velhos do que eram. Pense bem:Graciliano Ramos morreu com 60 anos; Rosa, 59; Zé Lins, 56; Clarice Lispector, 56; Olavo Bilac, 53; José de Alencar, 48; João do Rio, 39. Como construíram obras tão grandes em vidas tão curtas?

Daí penso nos colegas com quem cruzo no Leblon -bronzeados, de chinelo, bermudas, camiseta do Pernalonga, iPods à orelha-, todos parecendo mais jovens do que realmente somos. E me pergunto se esse à vontade quase indecente se refletirá em obras que atravessem décadas ou séculos, como as dos antigos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Reunião de pauta do Jornal Meia Hora RJ

Tatuar ou não tatuar, eis a questão




Opinião10/03/2012 10h49
Artigo: As tatuagens, por J. J. Camargo
Colunista do Caderno Vida, de Zero Hora, comenta a moda da tatuagem na atualidade


A tentativa de mudar o aspecto original é milenar, seja por modismo ou inconformidade com a própria figura. E isso desde tempos remotos, quando gerações primitivas praticavam verdadeiras automutilações para lograrem uma imagem que era tão mais festejada quanto mais bizarra e chocante.

A moda da tatuagem atingiu na atualidade tons de obrigatoriedade, como se o não tatuado fosse um ser inferior, sem noção da importância de fazer parte dessa tribo de gosto, no mínimo, duvidoso.

Algumas mulheres, lindas e solenes como devem ser as lindas, batem o ponto com uma florzinha discreta na nuca, só visível quando, cheias de charme, enrolam os cabelos sob a aparente alegação, sempre falsa, de calor no pescoço.

Outras implantam um coraçãozinho colorido na virilha, onde só será visto por quem tenha tanta intimidade que ajude a remover o biquíni.

Até aqui, é pelo menos tolerável. Mais do que isso: é discutível. A propósito, qualquer tatuagem no dorso do pé parece sujeira.

Logo depois desfilam os ingênuos e os imprudentes, que tatuam declarações definitivas ao amor, esse sentimento marcado pela efemeridade. Como manter o entusiasmo sexual do Raul se logo acima do cóccix há uma jura de amor pelo Duda?

E a fé precisa ser assumida com frases nas costas? Desculpe, mas aquela espalda maravilhosamente linda que estava no elevador não merecia o “E livrai-nos de todo o mal. Amém!” Essa devoção estaria bem guardada em algum escaninho secreto da alma.

Claro que todos têm o inviolável direito de dar o destino que lhes agradar a sua própria aparência. Até os que praticam a aberração de tatuar o corpo inteiro, que dá aquele aspecto grotesco e repulsivo, e que desafiam os psiquiatras de plantão a tratar uma falência tão absoluta da autoestima. Não saberia como ajudá-los, e, assim, me limito a assistir, sem compreender.

O que é certo é que todo o tatuado ignora uma verdade absoluta e irrevogável: ele vai envelhecer!

Pensei nisso observando na fila de um banco. Um velho hippie que provavelmente na flor da juventude, lá pelos anos 70, tatuou um jaguar nas costas e uma declaração de amor no peito. Triste ver o bichano acocorado pelo enrugamento da pele. E quando ele se virou, me dei conta que a sua musa vai ter que se contentar com uma mensagem cifrada. Várias letras sumiram nas pregas da velhice. Tomara que a amada ainda seja a mesma – e que tenha boa memória.

ZERO HORA

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Rubem Grilo, xilogravurista



Breve biográfica de Grilo:

Rubem Campos Grilo nasceu em Pouso Alegre, Minas Gerais, em 1946. Antes de completar 18 anos de idade, ele se transferiu para o Rio de Janeiro. Em 1969, ele se formou em agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

No ano seguinte, foi para Volta Redonda e freqüenta, por um curto período, o curso de xilogravura, com José Altino, na Escolinha de Arte do Brasil. Em 1971, mudou para o Rio de Janeiro e durante dois meses cursou a Escola de Belas Artes.

Na Biblioteca Nacional, Grilo conheceu a obra dos gravadores Lívio Abramo, Marcelo Grassmann e Oswaldo Goeldi.

Em 1972, freqüentou, com intervalos, o ateliê de xilogravura da Escola de Belas Artes, orientado por Adir Botelho, o ateliê de Iberê Camargo, no qual aprendeu as técnicas de gravura em metal, e participou do curso de litografia com Antônio Grosso, na EAV/Parque Lage.

Em 1971, realizou as primeiras xilogravuras e a partir de 1973, ilustrou os jornais "Opinião", "Movimento", "Jornal do Brasil" e "Pasquim", entre outros.

No início dos anos 80, ele trabalhou para a Folha de S.Paulo e ilustrou os fascículos da coleção Retrato do Brasil. Em 1985, lançou o livro "Grilo: Xilogravuras".

Em 1990, recebeu o segundo prêmio da Xylon Internacional, Suíça. Em 1999, atuou como curador geral da mostra Rio Gravura.

sábado, 8 de outubro de 2011

Edson Garcia Flosi: repórter destemido


Vou falar sobre uma categoria que anda em crise nos últimos tempos: o repórter policial. Era esse o ofício diário de Edson Garcia Flosi - meu professor de Legislação e Práticas Judiciárias no 3º ano do curso de jornalismo da Cásper Líbero, em 2009. Flosi já estava com problemas de saúde e precisou se tratar. Tirou licença e parou de lecionar. Minha turma foi a última dele.

Hoje em dia são raros os repórteres que se dedicam exclusivamente à cobertura de assuntos criminais. Em São Paulo, creio que só há uma meia-dúzia de (bons) repórteres de jornal. Os veículos não têm mais dado atenção especial a esse tipo de assunto, de maneira que "qualquer repórter" ou "todo repórter" pode cobrir esse assunto.

Atualmente, um repórter dessa área recebe do pauteiro variados assuntos, que vão da agenda do Kassab à chuva que inundou o piscinão do Grajaú (inventei isso: não sei se existe um piscinão naquele bairro), passando, claro, pelos crimes da cidade. Eu, particularmente, acho isso errado. Antigamente, coisa de 15 anos pra trás, os jornais possuíam repórteres policiais fixos, ou seja: profissionais que eram destacados para acompanhar somente a cobertura criminal. Consequência: as histórias eram muito mais bem apuradas e contadas muito melhor. Você se prende na no texto de antigamente, percebe o estilo de contar de cada um. Sei que subjetividade no fazer jornalístico é tema de muita discórdia, mas acredito que pode haver estilo em cada texto, na maneira de narrar etc., desde que se preze pela imparcialidade dos fatos.

Edson Flosi era "o preferido de Cláudio Abramo (nas coberturas policiais), diretor de redação da Folha de S.Paulo nos idos de 70. Flosi se destacou por cobrir as operações policiais do delegado Sérgio Paranhos Fleury, diretor do Deic, acusado, dentre outros processos, de comandar o Esquadrão da Morte, responsável por centenas de execuções pelo estado de São Paulo.

Flosi também publicou reportagens na Folha que denunciaram graves irregularidades no IML de Guarulhos, denunciou haver premiações, dentro do Deic, dadas aos "bons" torturadores. Por conta dessa série de reportagens, seu filho, Edson Costa Flosi, contando 14 anos em 78, apanhou de dois homens quando saía da casa de uma colega na Avenida Brigadeiro Luis Antonio em direção a um ponto de ônibus.

O menino levou socos no estômago e tapas na cara, além de um empurrão que lhe fez cair e ralar os joelhos. A justificativa dada pela dupla que o abordou foi que "está apanhando pelas reportagens do seu pai". Dias antes, o garoto revelou que já havia atendido a telefonemas intimidatórios ("Cuidado quando andar na rua", "Você vai pagar pelas reportagens do seu pai") e que notara a presença de um mesmo carro o seguindo algumas vezes.

O sindicato dos jornalistas do estado de São Paulo emitiu nota no dia seguinte ao episódio denunciando e protestando contra a agressão sofrida, e registrando que entendiam o fato como parte de um esquema montado para atemorizar o repórter da Folha.

Mas Flosi não se intimidou: "Esse episódio veio apenas para temperar e dar mais força para as minhas denúncias", disse à época ao jornal.

Para encerrar o post, deixo o link de uma reportagem feita pela revista Joyce Pascowitch com o mestre, na oportunidade dele estar completando 70 anos e lançando o seu livro "Por trás da notícia", relato de sua experiência nas ruas como repórter policial.

http://revistajoycepascowitch.uol.com.br/Default.aspx?pID=1&eID=68&lP=52&rP=53&lT=page

terça-feira, 13 de setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Movimento - Uma reportagem

Acabo de chegar do lançamento do livro Jornal Movimento - Uma reportagem, organizado pelo veterano jornalista Carlos Azevedo, editado pela Editora Manifesto.

O lançamento, em São Paulo, foi feito na livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos. Por volta das 19 horas começaram a chegar as primeiras pessoas. Eu cheguei um pouco mais cedo. Como a mesa e o banner do livro estavam montados bem ao lado da cafeteria e não havia ninguém por ali, resolvi tomar um expresso. Ao pedir, notei a presença de Azevedo - estava sentado em uma mesa atrás da bancada da cafeteria, mantendo conversa com mais umas três pessoas. Após fazer meu pedido, dei uma rápida olhada para ele e para seus acompanhantes. Não os reconheci. Ele também me fitou e acho que se lembrou de mim.

Depois do café, peguei o novo livro do Fernando Morais, Os úlitmos soldados da Guerra Fria, que estava exposto ali por perto. Sentei e li um capítulo todo, que escolhi a partir do índice. Ele falava sobre o escritor Gabriel Garcia Marquez ter sido uma espécie de pombo-correio de Fidel Castro, numa mensagem a ser enviada ao então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Fernando Morais retratou bem o episódio, naquele clima de guerra fria etc., mas confesso que achei a coisa meio monótona. Não sei se este novo livro dele vai fazer tanto sucesso quanto os outros.

Vamos ao que interessa. Como já esperado, me senti meio fora do ar ali no lançamento. Uma porção de gente mais velha que eu (mais velha que meus pais até) se encontrando, se abraçando, trocando palavras de afeto, de saudades. Deu para perceber que foram companheiros de uma mesma causa na época da circulação do jornal. Enquanto isso, uma pequena fila ia-se formando em frente à mesa para que Azevedo assinasse o livro de cada um. Decidi me dirigir ao fim dela. Enquanto esperava, mais pessoas se cumprimentavam. Um homem de camisa quadriculada retirou do bolso uma carterinha, que, olhando bem, vi que era de vendedor do Movimento. Ele, o jornal, perdurou muito às custas de estudantes que o vendiam por onde circulavam. Era um jornal de propriedade coletiva, possuiu mais de 400 acionistas, dos quais mais de 100 eram jornalistas. Portanto, no fundo, na intimidade, todos eram um pouquinho donos do Movimento.

Olhei para aquela cena. Meus olhos se arregalaram, sorri para o ex-vendedor com intenção de passar admiração. Mas não fiz mais nada. (Depois, já no carro, prester a ir embora, pensei na possibilidade de tê-lo entrevistado para meu livro. Me arrependi de não ter feito uma pergunta do tipo: "O quê você achava das capas do Elifas Andreato?" Se respondesse legal, comentando e tal, seria um testemunho interessante a acrescentar no trabalho. Pena. Vacilei.)

Chega minha vez. Dei a mão ao Azevedo e perguntei se se lembrava de mim. (chego à conclusão, agora, de que não se deve abordar as pessoas dessa maneira: além de ser meio pretensioso da sua parte você querer que ela lembre de você, é também constrangedor para a pessoa sela não vier a se lembrar) Ele forçou um pouco a memória e disse "Thiago Crepaldi". Vibrei e logo complementei lembrando-o da entrevista que fiz com ele no mês passado. Ele brincou se eu já havia conseguido falar com o Elifas. Disse que ainda não, mas que estava torrando a paciência da secretária dele quase toda a semana. Ele falou que realmente o Elifas não está dos mais acessíveis, principalmente por conta do problema com o álcoolismo, que o fez ficar recluso em sua casa no interior. "Talvez ele venha", esperançou-me. Agradeci a assinatura e sai.

Durante mais ou menos uns 15 minutos, fiquei ali meio de lado de tudo aquilo, sentado, observando as rodas formadas, tentando pescar alguma conversa ou reconhecer um ou outro que talvez pudesse entrevistar. Só pude notar o Raimundo (criador e editor-chefe do jornal), porque era muito assediado, e Duarte Pereira (responsável pelos editoriais do Movimento, os Ensaios Populares), que é bem falante e amigável com todos.

Subimos as escadas, ao auditório. Lá houve uma pequena homenagem a algumas pessoas que tiveram participação importante dentro do jornal. Dentre elas, as mulheres de Perceu Abramo (in memorian) e Sérgio Motta (in memorian), que, não sei direito, receberam um livreto. Duarte Pacheco foi chamado para falar e só deu os créditos a Raimundo. "Estou aqui para dizer que se tem uma pessoa aqui que merece destaque é o Raimundo. Mas ele não quis se destacar pois é o organizador do evento, por favor, palmas pra ele", pediu.

Audálio Dantas foi chamado para falar. Como sempre, Audálio, muito tranquilo e educado, cumprimentou a todos e deu um abraço forte em Raimundo. Deu para perceber que se consideram muito. Ele disse que o sindicato dos jornalistas, o qual presidiu, deu especial atenção ao jornal, que foi extremamente perseguido pelo regime de repressão. "Passamos semanas em que me encontrava com Raimundo e ele estava desolado. O jornal voltava mutilado, às vezes com só 20% do material enviado aprovado. E tinhamos que dar um jeito, fazer o jornal mesmo assim. Não é, Raimundo?", lembrou Audálio.

Audálio perguntou se Azevedo não queria falar algo. Ele brincou: "Eu não. Já escrevi o livro, poxa. Estou oco". Todos riram, eu inclusive; estava logo atrás dele, na segunda fileira. Audálio ainda perguntou se havia alguém conhecido na plateia. Raimundo disse que o correspondente de Movimento em Paris estava. A plateia se olhou, ele procurou, mas Azevedo avisou que já devia ter partido. Afinal, correspondente é assim mesmo... "E o Chico Buarque está aí? Fernando Henrique Cardoso?", perguntou Audálio. Raimundo respondeu: "Ele (Fernando Henrique) gostaria muito de estar aqui, mas está no exterior. Até chegou a me perguntar se não poderia adiar o evento para que ele viesse, mas só conseguimos alugar este espaço nesta data", explicou, lamentando.

Bernardo Kucinski chegou neste momento. Raimundo anuncia sua chegada e o convida a falar. Ele se negou, timidamente. Kucinski trabalhou no Em Tempo, Opinião e Movimento. Foi o correspondente de Londres. Escreveu uma tese de doutorado pela ECA-USP, em 1990, sobre quase todos os veículos da imprensa alternativa brasileira, fundamental para qualquer pesquisador do assunto.

A coisa no auditório acabou assim. Todos foram saindo do local para tomar uma taça de vinho, no andar de baixo, novamente. Desci as escadas, tirei algumas fotos, pensei em tentar alguma entrevista mas hesitei de novo, não sabia mesmo quem poderia abordar. O garçom começou a passar com a bandeja. Percebi que não deveria aceitar um copo. Aquilo não era para mim. Era um momento do qual eu não fazia parte. Do qual eu deveria apenas ficar à margem, observando o mais discretamente possível.

Enquanto me ocorria este pensamento, Kucinski passou ao meu lado animado perguntado "onde se comprava este livro?". Eu olhei pra ele e disse, apontando: Estavam vendendo naquela bancada, mas a moça que estava ali deve ter dado uma saída. Ele confirmou com a cabeça e se virou.

Dei mais uma olhada para aqueles velhos jornalistas reunidos e sai. Não sei se fiz certo ou errado em não ter abordado ninguém para meu trabalho. Talvez devesse ter sido um pouco cara-de-pau, menos tímido, mais REPÓRTER, um sujeito obstinado atrás do que precisa. Não sei...

Não vi ali jovens da mesma idade que eu. Talvez só uma ou outra pessoa. Mas desconfio que fossem parentes. Acho tudo uma pena. Jornais como esse, e como tantos outros tantos da Imprensa Alternativa deveriam ter mais atenção das escolas de jornalismo, de estudantes. Da imprensa também. Não havia uma emissora de TV por lá, pequena que fosse. Nem rádio, portal, nada. Só velhos jornalistas da esquerda, "companheiros de luta", se reencontrando após anos, relembrando um passado cujo objetivo comum era fazer a Revolução e que hoje estão soltos nesse Brasilzão incerto esperando que jovens jornalistas os substituiam à altura.




































sábado, 10 de setembro de 2011

Pesadelo

(Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Quando um muro separa, uma ponte une
Se a vingança encara, o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua, ela um dia é nossa

Olha o muro, olha o poste
Olha o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí...

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente...olha eu de novo
Pertubando a paz, exigindo o troco
Vamos por aí, eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí...

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo-horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sequestro do embaixador dos EUA no Brasil

Com o recrudescimento do regime, a ALN e o MR-8 (Movimento Revolucinário 8 de Outubro) arquitetam o sequestro, em setembro de 1969, do embaixador norte-americano Charles Elbrick. Em troca, exigiram a libertação de presos políticos. Quinze deles foram soltos e se dirigiram para o México.



Após conseguirem êxito, as duas organizações escrevem juntas uma carta-aberta "Ao povo brasileiro", comunicando o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick: