quinta-feira, 21 de maio de 2009

Da morte do CD

Infelizmente, pertenço a uma geração de transição -não só secular, mas também cultural-comportamental-, e isso me preocupa. Lê-se, ouve-se, fala-se em todos os lugares sobre novas mídias ou convergências de mídias. Conceitos como interatividade, web2.0 (por mais abstrato que me pareça ser), software livre... são, inevitavelmente, incorporados ao vocabulário de qualquer um que faz usufruto da Internet.
Me sinto meio deslocado no tempo, porque não sei me dar muito bem com essa ideia inexorável de morte das coisas -não falo de morte de pessoas, porque isto é difícil para todos, naturalmente-, de objetos com os quais você é/era muito apegado e que, querendo ou não, começam a extinguir-se.
A minha geração, por exemplo, que é a de quem nasceu no final de 80, presenciou a morte de uma porção de coisas com que éramos muito apegados. Os desenhos de super-heróis japoneses, como Giraia, Flashman e Jaspion; o walk-man; o BIP (quem efetivamente o usava?); sem dizer as guloseimas, como o biscoitinho de ursinhos fofis.

Para falar da morte de mais um objeto com o qual nos identifica(va)mos muito e que, curiosamente, morre como carrasco de seu antecessor, o LP, publico um texto do grande jornalista e biógrafo Ruy Castro, um cara que tenho muita adimiração pelo que escreve e pelas obras que fez.

Aqui vai um dos capítulos do livro "Tempestade de Ritmos - jazz e música popular no século XX", Companhia das Letras, organizado por Heloisa Seixas, mulher de Ruy. Ele é grande testemunha dessas mortes de que venho falando, por isso ninguém melhor do que ele para falar da morte do CD, já que tem um vasto conhecimento da música do Brasil e do mundo.



A música que surge do nada


Você se distraiu e o CD sumiu – já reparou? Aconteceu o que se previa desde fins do século passado (e só dizer isto já impregna a cena com um certo aroma de remédio de barata): o desaparecimento do último suporte material para se ouvir música. O disco, não importa em qual formato, estava condenado a desaparecer, sendo substituído pelos sons que viriam do espaço – também não importando onde este estivesse e, como diria o Woody Allen, até que horas ficasse aberto. Pois as previsões se confirmaram. A música hoje se espreme em aparelhinhos menores que uma caixa de fósforos, os quais tendem a diminuir ainda mais para caber, quem sabe, num ponto grampeado ao lóbulo, ou talvez num piercing espetado ao tímpano. A idéia é a de que, em breve, o ato de ouvir música dispense qualquer objeto físico – inclusive as orelhas.Isso significa que, em apenas cem anos, o som gravado terá passado do suporte mecânico mais grosseiro para o incorpóreo quase absoluto – das chapas primitivas, tocadas em gramofones do tamanho dos antigos orelhões, para a música que hoje surge de qualquer lugar. Portanto, preencha com livros ou com vasos de cerâmica marajoara as lindas estantes novas com que você presenteou sua coleção de CDs. Para acomodar sua futura e imensa discoteca virtual, um espaço vazio no meio do nada será suficiente. E, se você pensa que passaremos incólumes por isto, engana-se. Esta revolução não afeta apenas as gravadoras, os fabricantes de CDs e a indústria do plástico (usado para fabricar as caixinhas e aqueles infernais invólucros). Afeta também as gráficas, os designers de capas, os fotógrafos, os ilustradores, os autores dos textos dos encartes, as lojas de discos e, por fim, mas não menos importante, o próprio consumidor de música. Este, subitamente órfão de um objeto que contivesse o disco, já está se perguntando: Para onde foi o prazer visual que sempre se ligou ao ato de ouvir música?Bem, para ser justo, devo dizer que esse prazer visual não nasceu com a música, mas foi algo que se incorporou a ela na medida que a indústria do som gravado se desenvolveu. Do rolo mecânico de fins do século XIX ao disco de dez ou doze polegadas, feito de goma-laca e cera de carnaúba, e rodando a 78 r.p.m., o salto foi rápido – cerca de dez anos. Mas, a partir daí, esse objeto reinou sobre nós por quase cinqüenta anos, até 1948. E seu apelo visual era pobre. O disco vinha dentro de um envelope de papel pardo, trazendo as insígnias do fabricante, as quais podiam estar cercadas de todo o rococó possível, mas só isto. Um buraco no meio do envelope permitia ler o selo colado no disco com as informações básicas: o nome da canção, do compositor e do intérprete, e o logotipo da gravadora. Cada face comportava de três a cinco minutos de música, o que era suficiente para a música popular, e, por isso, esse disco vinha num envelope individual. Já uma sinfonia, que era mais longa, obrigava a que vários discos fossem gravados em série e acomodados num álbum, mas este também não trazia nenhum apelo gráfico – suas capas, de couro ou papelão marrom ou verde-escuro, serviam apenas para dar as informações essenciais. As coisas só começaram a mudar quando, em 1939, um artista gráfico americano chamado Alan Steinweiss descobriu que as capas dos álbuns podiam comportar grafismos variados, como letras e desenhos coloridos, para torná-las mais atraentes e visíveis nas lojas.Em 1948, uma nova técnica de gravação em microssulco fez com que os álbuns de 78s fossem compactados num único disco fabricado com vinilite, rodando a 33 r.p.m. e contendo de quinze a vinte minutos de música por face. Por rodar mais devagar e conter mais tempo de música, esse disco foi chamado de long playing – longa duração. Mas, no começo, apenas sua criadora, a gravadora Columbia (a mesma, aliás, que introduzira os desenhos e grafismos nas capas dos álbuns de 78s), podia usar essa marca. O mesmo quanto à abreviatura com que, na intimidade, os long playings passaram a ser chamados – LPs. E supunha-se também que esses novos discos de microssulco fossem inquebráveis, daí a orgulhosa classificação que eles traziam na contracapa: unbreakable microgroove. Na verdade, não eram tão inquebráveis assim – se caíssem de quina, costumavam quebrar –, e o comprador ainda corria o risco de destroncar a língua ao tentar pronunciar a expressão em inglês.Os LPs vinham no tamanho de dez polegadas (25 cm de diâmetro), para os discos de música popular, e de doze polegadas (33 cm), para os de música clássica. Mas, rapidamente, essa divisão acabou, e os dois formatos, aplicados a todo tipo de música, conviveram até 1954, quando o 12 polegadas se impôs e o formato menor foi abandonado. (No Brasil, que foi o terceiro país do mundo a adotar o LP, em 1951, atrás apenas dos Estados Unidos e da França, os LPs de dez polegadas só foram tirados de linha em 1958.) E, depois desse longo intróito, chegamos ao ponto que nos interessa: o LP de doze polegadas, finalmente estabelecido como um veículo perfeito para o design aplicado à música. É só pensarmos nos seus invólucros – as capas.Um LP simples era composto de um único disco, ensanduichado num envelope de cartolina, composto de uma capa e de uma contracapa, esta geralmente reservada para a lista das músicas ou para uma breve biografia do artista. Durante muitos anos foi assim, e éramos felizes com tal arranjo. Mas, em certo momento, os LPs começaram a publicar as letras das músicas e a exigir capas duplas ou triplas – as possibilidades gráficas também se multiplicaram, com fotos que se abriam em gloriosos spreads. E quando os LPs propriamente ditos duplicaram ou triplicaram dentro das capas, qual foi a solução? Acomodá-los em caixas, permitindo que o material gráfico também se expandisse num alentado encarte, cheio de fotos e textos. E não ficou nisso. Vários outros formatos revolucionários foram experimentados, como as capas de plástico costurado (adotadas apenas no Brasil, pela antiga Odeon, de 1958 a 1970) ou as de papelão muito grosso, quase indestrutíveis, inventadas nos Estados Unidos pela gravadora Command e usadas no Brasil com exclusividade pela Musidisc.E o projeto visual propriamente dito das capas? Não há fã de jazz ou de música popular que desconheça nomes de artistas gráficos como David Stone Martin, capista do produtor Norman Granz na gravadora Verve, ou do independente Burt Goldblatt, autor de algumas das capas mais loucas e bem achadas de discos de Carmen McRae ou de Stephen Sondheim. No Brasil, também tivemos grandes artistas do gênero, nenhum deles maior do que Cesar Villela, mais famoso hoje pelas inconfundíveis capas do selo Elenco, de Aloysio de Oliveira, entre 1962 e 1965 – objeto de não sei quantos estudos e teses universitárias nos últimos anos. Mas outros capistas, como Paulo Brèves, Paez Torres, Joselito e Eddie Moyna, tinham igualmente um trabalho de nível internacional.Tudo isso aconteceu nos anos 50 e 60, as maiores décadas na história do LP em matéria de artes gráficas. Nos últimos tempos, o universo das capas tem sido reconhecido como uma categoria à parte entre essas artes e rendido uma quantidade de livros espetaculares – quase todos no próprio formato quadrado dos LPs, de 33x33cm, o único a fazer justiça à grandeza e beleza das capas. É quase um gênero em si. Pois, depois de babarmos com tantos livros do gênero produzidos nos Estados Unidos e na Europa, finalmente, em 2005, tivemos o nosso, o monumental Bossa Nova, organizado por Caetano Augusto Rodrigues e Charles Gavin e editado pela Petrobrás – pena que numa edição fora do comércio.Por que a arte do LP se tornou de repente uma coisa tão nobre? Porque, desde meados dos anos 80, o LP foi ferido de morte e, logo depois, transformado em defunto pela instauração do CD. E, como sempre, quando um veículo é alijado do mercado, é hora de conferir-lhe status de “arte”. Na verdade, foi preciso que os CDs, lançados pela holandesa Philips por volta de 1985, dominassem esmagadoramente o mercado para que se começasse a enxergar todas as qualidades dos LPs. Comparados a estes, os CDs eram mesquinhos nas suas dimensões de 12x14cm – insignificantes para se expor dignamente uma fotografia e exigindo óculos ou lupa para que se lessem os textos. E os primeiros a sofrer com essa mesquinhez foram os LPs cujas capas foram apenas reduzidas, em vez de adaptadas para o novo formato: sua arte original sofreu para continuar visível e os textos de contracapa ficaram impossíveis de ler. E, para completar, a palavra LP foi banida do vocabulário. Por causa do CD, que era feito de metal, o LP passou a ser chamado de “vinil” – e é assim que, hoje, até os veteranos que se julgam esclarecidos passaram a se referir a ele. Mas chamar um LP de vinil é tão bobo quanto chamar um CD de metal.Como era de se esperar, o CD só precisou de alguns anos depois de implantado para também se adaptar a um design mais criativo. Surgiram os estojos de CDs duplos e triplos, permitindo encartes numa grande folha única, com doze, dezesseis ou quantas dobras se quisesse; criaram-se os estojos em formato de caixa de sabonete, com amplos encartes verticais; vieram as caixas em formato de LP, contendo quatro ou mais CDs e um generoso encarte de 33x33cm; e várias outras soluções que permitiam expandir a parte gráfica e torná-la menos mixuruca. Para não falar no formato digipack, que praticamente eliminou o plástico e possibilitou aquelas edições charmosas, tipo caderninho, que, no Brasil, a Biscoito Fino adotou como norma.Pois, enfim, exatamente quando estávamos começando a nos entusiasmar e a explorar todas as possibilidades gráficas do CD, eis que, agora, ele também pode ser considerado tão peça de museu quanto uma vitrola de corda. No Japão, há garotos de quinze anos que, se um CD lhes cair às mãos, não saberão para o que serve. E isso não demorará a acontecer entre nós.É como se a música devesse vir de um planeta impessoal, etéreo, feito só de sons, sem textos nem figuras – sem nada que denote a mão, a razão ou o coração do homem.

terça-feira, 19 de maio de 2009

resenha/"Gran Torino"

Gênero: Drama
Tempo: 117 min.
Lançamento: 20 de Mar, 2009
Classificação: 14 anos
Distribuidora: Warner Bros.
Estrelando: Clint Eastwood, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch, Cory Hardrict, Dreama Walker, Brian Haley.
Direção: Clint Eastwood
Produzido por: Clint Eastwood, Bill Gerber, Robert Lorenz
Orçamento estimado: US$35.000.000



Em “Gran Torino”, um Clint Eastwood sútil:ao criticar a família, o preconceito e a segregação de raças nos Estados Unidos

O filme, que estreou aqui no Brasil na terceira sexta de março deste ano, trata da vida de Walt Kowalski (Clint Eastwood), um ex-combatente da Guerra da Coréia (50-53) e funcionário aposentando de uma montadora de carros de Detroit, que acaba de ficar viúvo. Rabugento, ranzinza, mau-humorado são algumas das qualificações desse homem, que agora vive só - apenas com a companhia de sua cadela labradora -, em sua pequena casa em um bairro que sofre processo de “desamericanização”.

A morte de sua mulher faz com que o padre da região, Padre Janovich (Christopher Carley), se aproxime de Walt para convencê-lo a se confessar - o último desejo de sua mulher. Walt, sempre ríspido e arrogante, trata muito mal o padre, mas este não desiste tão fácil, tentando, em pequenas conversas sobre o que é vida e o que é a morte, descobrir os pecados do viúvo. Como se não bastasse esse tormento na vida do ex-montador de carros, ao seu lado mora uma família inteira de imigrantes refugiados do Laos. Esses seus vizinhos não lhe dão sossego: falam alto; discutem o tempo todo em língua desconhecida; vivem em uma tremenda bagunça; e, o pior, invadem a sua propriedade, pisando no seu tão bem cuidado gramado.
Na falta de companhia, aceita a amizade da garota da família, em certa discussão por causa da invasão de seu bem cuidado gramado, e vai percebendo que é muito mais parecido com essa família que vive ao seu lado do que com a sua própria, que mal o visita; e quando o faz, tem a cara de pau de perguntar quais bens irão receber do velho. Uma gangue que quer aliciar o bondoso Tao, irmão da garota, faz Walt ser considerado um herói para a família ao expulsá-los de lá com seu rifle, outrora companheiro de guerra. A partir daí o filme concentra-se nesse dilema: da gangue tentar pegar Tao, e Walt tentar protegê-lo porque sabe que ele é um bom rapaz. Assim vai até o desfecho, surpreendente, épico, por sinal.

Reflexão
Clint, como diretor, nunca produz filmes gratuitamente, apenas para o bel-prazer do público; há sempre algum pensamento, algum valor que ele quer nos passar por trás das criações de seus roteiros. Desta vez , o experiente diretor chama atenção para a estrutura da sociedade norte-americana, que está em tempo de rever seus conceitos, tanto os referentes à sua tradição familiar – que, como se viu no filme, não dá os merecidos cuidados aos mais velhos -, como também a dificuldade de saber lidar com os estrangeiros – principalmente mexicanos,caribenhos,orientais -, que não são poucos no país e não podem ser ignorados.

É ao mesmo tempo engraçado e bonito ver Walt ensinando Tao a ser aquele modelo de homem americano, seja na busca por emprego em uma construção, seja na barbearia ou nas investidas com uma garota. Clint protagonizou um anti-herói (ou um herói decadente, pessimista) para abrir as feridas da sociedade estado-unidense.




Aprovado.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Poesia

Drummond já em fim de vida.


Este poema foi retirado do Sentimento do Mundo, livro que, na verdade, contém três livros: Alguma poesia de 30 e a qual pertence o poema extraído; Brejo das Almas de 34; e, por último, Sentimento do Mundo de 40.

O poema é dedicado a Cyro dos Anjos, um sutil e lírico romancista também da geração de 30, que escreveu O amanuense* Belmiro, em 37.

*Amanuense: Funcionário público de condição modesta.

Ei-lo:
O sobrevivente

C. Drummond de Andrade

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
Um sábio declarou a "O Jornal" que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.
Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)
VIVA O DRUMMOND!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Enfim o primeiro post do ano

Se alguém dispende o seu valioso tempo lendo essas minhas postagens que de frequente não têm nada, quero lhe desejar, de verdade, um feliz ano-novo. Prometo que tentarei ser mais regular em minhas postagens, por mais banais que às vezes elas possam parecer...

Por ora, vai aqui um texto de um escritor que de banal não tem nada. Ou melhor, ele consegue transformar o que, para nós, é uma banalidade em algo extraordinário.

Essa reflexão abre O Livro do Desassossego.

"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécia animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.
A quem, como eu, assim, vivendo não saber ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino (interrogação). Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se nao tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstração do homem,nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo sutilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.
Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contras as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esfõrço como os débeis do entretenimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com umgrande escrúpulo de erudição sentida.
Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos obrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão de seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objetividade ao prazer subjetivo da leitura.
Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplaçoes estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde.
Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incômodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue à diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam ´cômodas até mim. Sento-me á porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sond da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajentes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não olerem , nem se entreterem, será bem também."

Isto é F.P.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008



Cartier-Bresson, na minha humilde opinião o maior fotógrafo que esse mundo já conheceu, faria 100 anos neste farto ano de importantes efemérides. Aproveito a ocasião para publicar, agora em veículo de desprezável projeção, um texto saudosista que o fotógrafo Crisiano Mascaro escreveu em reportagem especial para o caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, espécie de revisitação ou ensaios feitos por mais quatros grandes fotógrafos brasileiros da obra de HCB:




Ave Leica!


Cristiano Mascaro especial para a Folha


Não sei como acontece com outros artistas, os pintores com seus pincéis, os escultores com seus cinzéis, os gravadores com suas goivas .

No entanto posso assegurar que nós, fotógrafos, desenvolvemos uma enorme e saudável relação de afeto com nossas câmeras fotográficas.Certamente porque elas estão permanentemente por perto, ao alcance de nossas mãos.

Não podemos nos afastar. Estão sobre a mesa de trabalho, dentro da mochila, na bolsa a tiracolo e quase sempre bem pertinho, colada em nossos rostos ou pendurada no pescoço, roçando no coração.

E, se porventura, for uma Leica, é caso de paixão. Não é para menos.Foram essas câmeras miúdas, que cabem na palma de nossas mãos, que libertaram os fotógrafos pioneiros -Cartier-Bresson, inclusive- da ditadura dos equipamentos enormes, obrigatoriamente apoiados em um pesado tripé.

Daí, descobriram a rua. Podiam caminhar livremente pelas calçadas e fotografar ao mesmo tempo, surgindo assim o que talvez tenha sido uma de suas maiores descobertas: registrar a vida como ela é.

Não somente os grandes acontecimentos, as guerras e as catástrofes naturais, mas sobretudo a vida cotidiana, revelando e tornando grandiosas as miudezas do dia-a-dia.

Hoje, tenho duas câmeras Leica que me acompanham em meus trabalhos, o que me dá uma sensação de segurança, uma certeza de que tudo irá correr bem. Não me desgrudo.Mas sei que em um futuro muito próximo talvez tenha de abandoná-las.

Essa infernal tecnologia digital avança vertiginosamente, os meus filmes estão cada vez mais raros e, dessa forma, já me vi obrigado a comprar um trambolho de 21,5 megapixels. É um horror!Mal desenhado, pesa uma enormidade, tem exatos 22 botões para acessar suas múltiplas funções, a maioria delas dispensáveis, além de uma alavanca de "liga" e "desliga".Sem comentar que me obriga a carregar, quando viajo, uma quantidade inacreditável de cabos, baterias, lap-tops, noves fora seu recurso mais brochante: poder ver, imediatamente, o que acabei de fotografar.

Com minha Leica isso é impossível, felizmente. Dessa forma, não tenho a certeza imediata de nada e, assim, posso me concentrar em meu trabalho como nunca.Sei que a cada disparo não poderei voltar atrás, o que me torna mais seletivo e rigoroso -isto é, mais senhor do que estou fazendo. Opto pela incerteza, na contramão daqueles que jamais trocariam o certo pelo incerto. Mas a fotografia na qual acredito é assim mesmo.

É a expressão de uma atitude dramática, resultado de uma busca onde há mais surpresas do que certezas.Cartier-Bresson, Robert Capa, Eugene-Smith, Thomas Farpas, Pedro Martinelli e tantos outros, todos com suas Leicas na linha de mira, não me deixariam mentir ou exagerar.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008


Após os roubos que os soldados norte-americanos cometeram no Iraque.




Depois dos primeiros escândalos financeiros em Wall Street.
Como sou ainda um boçal em matéria de Blogs, não consegui postar as fotos junto com o post anterior... Faço-o (ou pelo menos tento) agora.

Banksy, Um Grafiteiro Político

Na edição do mês passado da Píauí saiu uma reportagem na seção portfólio cujo título era "A Marca do Zorro" . Nela se é tratado, em resumo breve, do trabalho artístico de um talentosíssimo grafiteiro político que vive nos arredores de Bristol, Inglaterra.

Gostei muito do trabalho dele - nunca vi parecido. Verdadeiras obras de protesto, sátira, humor, irreverência e, acima de tudo, de muita inteligência.

O mais interessante é que Banksy é uma figura anônima. Daí o título brincar com a figura do Zorro. Grafitar, todos sabem, é depredação de patrimônio público, invasão de propriedade privada etc.

Como as leis funcionam nos países desenvolvidos, Banksy prefere se esconder - a sofrer punições do Estado . Para preservar seu anonimato, utiliza-se do pseudônimo BANKSY e jamais dá as caras na imprensa. Deu apenas uma entrevista, a um jornalista do Guardian, de Londres.

Seu trabalho pode ser conferido na internet.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mensagem à Poesia - Vinícius

Não posso

Não é possível

Digam-lhe que é totalmente impossível

Agora não pode ser

É impossível

Não posso.

Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar

Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.

Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo

E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo

A saudade de seus homens;

contem-lhe que há um vácuo

Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;

contem-lhe

Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida

Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos

Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.

Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou

Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere

Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.

Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus

Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem

Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens

E não é o momento de parar agora;

digam-lhe, no entanto

Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento

Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada

A terrível participação, e que possivelmente

Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias

Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

Se ela não compreender, oh procurem convencê-la

Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe

Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me

Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado

Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento

Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado

Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada

Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há

Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem

Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia

Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande

Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações

Há fantasmas que me visitam de noite

E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza

No amanhã

Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite

Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso

Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora

Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde

De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável

Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale

Por um momento, que não me chame

Porque não posso ir

Não posso ir

Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração

Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa

Envergonhá-la.

A minha ausência.É também um sortilégio

Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la

Num mundo em paz.

Minha paixão de homemResta comigo; minha solidão resta comigo; minha

Loucura resta comigo.

Talvez eu deva

Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais

O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr

Livre e nua nas praias e nos céus

E nas ruas da minha insônia.

Digam-lhe que é esse

O meu martírio; que às vezes

Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas

Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva

Mas que eu devo resistir, que é preciso...

Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência

Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática

Num amor cheio de renúncia.

Oh, peçam a ela

Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo

A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante

A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa

Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho

A quem foi dado se perder de amor pelo direito

De todos terem um pequena casa, um jardim de frente

E uma menininha de vermelho; e se perdendo

Ser-lhe doce perder-se...

Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível

Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame

Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora

É mais forte do que eu, não posso ir

Não é possível

Me é totalmente impossível

Não pode ser não

É impossível

Não posso.



Retirado Da Antologia Poética, de Vinícius de Moraes.

domingo, 10 de agosto de 2008

São Jerónimo em oração - Jerónimo Bosch, pintor pré-surrealista

domingo, 3 de agosto de 2008


Letra

Noel Rosa - “Filosofia”

O mundo me condena,
e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
se de sede eu vou morrer
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

"Meu tempo é hoje. Não vivo no passado, o passado é que vive em mim."

Dei uma sorte danada hoje ao acordar e pegar, no Canal Brasil, bem no começinho, o maravilhoso documentário Meu Tempo é Hoje, sobre a vida do grande sambista Paulinho da Viola.

Fazia tempo que não o via e, por isso, não me recordava de parcerias tão bonitas que ele fizera nesse filme: com a Marisa Monte as versões de Carinhoso e Dança da Solidão são de emocionar. Outras, nem tanto... não sei por quê chamaram a cantora Marina pra cantar com ele. Ela, julgo eu, é uma péssima intérprete; tem uma voz fraca e sem graça; canta músicas que geralmente atraem o público homossexual ou mulheres desiludidas com homens... além de passar longe do mundo do samba.

Outra coisa de que não me recordava era que Zé Ketti, no começo de sua carreira, foi feirante. Vendia peixe mas sempre deixava sua barraca nas mãos de alguém para poder ir beber e fazer samba. O seu pequeno empreendimento acabou nao durando muito tempo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Do significado

O PORQUÊ DO NOME
feérico., segundo o "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa", [ Do fr. féerique.] Adj. Gal. 1. Que pertence ao mundo das fadas, ou é próprio de fadas; mágico, maravilhoso, deslumbrante: iluminação feérica. Coloquei o significado da palavra apenas para formalizar. Deixo claro que não tenho nenhum tipo de inclinação, curiosidade ou seja lá o que for com o "mundo das fadas". Achei essa palavra interessante porque estou lendo um livro sobre história da arte, cujo autor é o monstro Ernst Fischer, e cujo título é "A Necessidade da Arte", no qual é citado, no capítulo "arte e capitalismo", um tal de NOVALIS. Este cara foi um dos principais nomes do romantismo alemão pós-revolução burguesa. Vai uma aspa dele: "O mundo precisa ser romantizado. Dêsse modo, o significado original é redescoberto ... pela doação de uma elevada importância àquilo que é comum, de uma aparência misteriosa ao que é corriqueiro, a dignidade do desconhecido ao que é familiar, os traços do infinito ao que é finito... O fato de que não nos possamos ver em um mundo feérico [eis aqui] é devido apenas à fraqueza dos nossos órgãos físicos e à deficiência da nossa percepção". Acredito ter passado, atravéz das palavras de Novalis, uma noção do significado e de minhas pretensões neste blog.