Se alguém dispende o seu valioso tempo lendo essas minhas postagens que de frequente não têm nada, quero lhe desejar, de verdade, um feliz ano-novo. Prometo que tentarei ser mais regular em minhas postagens, por mais banais que às vezes elas possam parecer...
Por ora, vai aqui um texto de um escritor que de banal não tem nada. Ou melhor, ele consegue transformar o que, para nós, é uma banalidade em algo extraordinário.
Essa reflexão abre O Livro do Desassossego.
"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécia animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.
A quem, como eu, assim, vivendo não saber ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino (interrogação). Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se nao tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstração do homem,nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo sutilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.
Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contras as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esfõrço como os débeis do entretenimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com umgrande escrúpulo de erudição sentida.
Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos obrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão de seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objetividade ao prazer subjetivo da leitura.
Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplaçoes estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde.
Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incômodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue à diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam ´cômodas até mim. Sento-me á porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sond da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajentes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não olerem , nem se entreterem, será bem também."
Isto é F.P.
segunda-feira, 9 de março de 2009
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Cartier-Bresson, na minha humilde opinião o maior fotógrafo que esse mundo já conheceu, faria 100 anos neste farto ano de importantes efemérides. Aproveito a ocasião para publicar, agora em veículo de desprezável projeção, um texto saudosista que o fotógrafo Crisiano Mascaro escreveu em reportagem especial para o caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, espécie de revisitação ou ensaios feitos por mais quatros grandes fotógrafos brasileiros da obra de HCB:
Ave Leica!
Cristiano Mascaro especial para a Folha
Não sei como acontece com outros artistas, os pintores com seus pincéis, os escultores com seus cinzéis, os gravadores com suas goivas .
No entanto posso assegurar que nós, fotógrafos, desenvolvemos uma enorme e saudável relação de afeto com nossas câmeras fotográficas.Certamente porque elas estão permanentemente por perto, ao alcance de nossas mãos.
Não podemos nos afastar. Estão sobre a mesa de trabalho, dentro da mochila, na bolsa a tiracolo e quase sempre bem pertinho, colada em nossos rostos ou pendurada no pescoço, roçando no coração.
E, se porventura, for uma Leica, é caso de paixão. Não é para menos.Foram essas câmeras miúdas, que cabem na palma de nossas mãos, que libertaram os fotógrafos pioneiros -Cartier-Bresson, inclusive- da ditadura dos equipamentos enormes, obrigatoriamente apoiados em um pesado tripé.
Daí, descobriram a rua. Podiam caminhar livremente pelas calçadas e fotografar ao mesmo tempo, surgindo assim o que talvez tenha sido uma de suas maiores descobertas: registrar a vida como ela é.
Não somente os grandes acontecimentos, as guerras e as catástrofes naturais, mas sobretudo a vida cotidiana, revelando e tornando grandiosas as miudezas do dia-a-dia.
Hoje, tenho duas câmeras Leica que me acompanham em meus trabalhos, o que me dá uma sensação de segurança, uma certeza de que tudo irá correr bem. Não me desgrudo.Mas sei que em um futuro muito próximo talvez tenha de abandoná-las.
Essa infernal tecnologia digital avança vertiginosamente, os meus filmes estão cada vez mais raros e, dessa forma, já me vi obrigado a comprar um trambolho de 21,5 megapixels. É um horror!Mal desenhado, pesa uma enormidade, tem exatos 22 botões para acessar suas múltiplas funções, a maioria delas dispensáveis, além de uma alavanca de "liga" e "desliga".Sem comentar que me obriga a carregar, quando viajo, uma quantidade inacreditável de cabos, baterias, lap-tops, noves fora seu recurso mais brochante: poder ver, imediatamente, o que acabei de fotografar.
Com minha Leica isso é impossível, felizmente. Dessa forma, não tenho a certeza imediata de nada e, assim, posso me concentrar em meu trabalho como nunca.Sei que a cada disparo não poderei voltar atrás, o que me torna mais seletivo e rigoroso -isto é, mais senhor do que estou fazendo. Opto pela incerteza, na contramão daqueles que jamais trocariam o certo pelo incerto. Mas a fotografia na qual acredito é assim mesmo.
É a expressão de uma atitude dramática, resultado de uma busca onde há mais surpresas do que certezas.Cartier-Bresson, Robert Capa, Eugene-Smith, Thomas Farpas, Pedro Martinelli e tantos outros, todos com suas Leicas na linha de mira, não me deixariam mentir ou exagerar.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Banksy, Um Grafiteiro Político
Na edição do mês passado da Píauí saiu uma reportagem na seção portfólio cujo título era "A Marca do Zorro" . Nela se é tratado, em resumo breve, do trabalho artístico de um talentosíssimo grafiteiro político que vive nos arredores de Bristol, Inglaterra.
Gostei muito do trabalho dele - nunca vi parecido. Verdadeiras obras de protesto, sátira, humor, irreverência e, acima de tudo, de muita inteligência.
O mais interessante é que Banksy é uma figura anônima. Daí o título brincar com a figura do Zorro. Grafitar, todos sabem, é depredação de patrimônio público, invasão de propriedade privada etc.
Como as leis funcionam nos países desenvolvidos, Banksy prefere se esconder - a sofrer punições do Estado . Para preservar seu anonimato, utiliza-se do pseudônimo BANKSY e jamais dá as caras na imprensa. Deu apenas uma entrevista, a um jornalista do Guardian, de Londres.
Seu trabalho pode ser conferido na internet.
Gostei muito do trabalho dele - nunca vi parecido. Verdadeiras obras de protesto, sátira, humor, irreverência e, acima de tudo, de muita inteligência.
O mais interessante é que Banksy é uma figura anônima. Daí o título brincar com a figura do Zorro. Grafitar, todos sabem, é depredação de patrimônio público, invasão de propriedade privada etc.
Como as leis funcionam nos países desenvolvidos, Banksy prefere se esconder - a sofrer punições do Estado . Para preservar seu anonimato, utiliza-se do pseudônimo BANKSY e jamais dá as caras na imprensa. Deu apenas uma entrevista, a um jornalista do Guardian, de Londres.
Seu trabalho pode ser conferido na internet.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Mensagem à Poesia - Vinícius
Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens;
contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;
contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora;
digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homemResta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
Retirado Da Antologia Poética, de Vinícius de Moraes.
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens;
contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;
contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora;
digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homemResta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
Retirado Da Antologia Poética, de Vinícius de Moraes.
domingo, 3 de agosto de 2008
Letra
Noel Rosa - “Filosofia”
O mundo me condena,
e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
se de sede eu vou morrer
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia
O mundo me condena,
e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
se de sede eu vou morrer
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia
"Meu tempo é hoje. Não vivo no passado, o passado é que vive em mim."
Dei uma sorte danada hoje ao acordar e pegar, no Canal Brasil, bem no começinho, o maravilhoso documentário Meu Tempo é Hoje, sobre a vida do grande sambista Paulinho da Viola.
Fazia tempo que não o via e, por isso, não me recordava de parcerias tão bonitas que ele fizera nesse filme: com a Marisa Monte as versões de Carinhoso e Dança da Solidão são de emocionar. Outras, nem tanto... não sei por quê chamaram a cantora Marina pra cantar com ele. Ela, julgo eu, é uma péssima intérprete; tem uma voz fraca e sem graça; canta músicas que geralmente atraem o público homossexual ou mulheres desiludidas com homens... além de passar longe do mundo do samba.
Outra coisa de que não me recordava era que Zé Ketti, no começo de sua carreira, foi feirante. Vendia peixe mas sempre deixava sua barraca nas mãos de alguém para poder ir beber e fazer samba. O seu pequeno empreendimento acabou nao durando muito tempo.
Fazia tempo que não o via e, por isso, não me recordava de parcerias tão bonitas que ele fizera nesse filme: com a Marisa Monte as versões de Carinhoso e Dança da Solidão são de emocionar. Outras, nem tanto... não sei por quê chamaram a cantora Marina pra cantar com ele. Ela, julgo eu, é uma péssima intérprete; tem uma voz fraca e sem graça; canta músicas que geralmente atraem o público homossexual ou mulheres desiludidas com homens... além de passar longe do mundo do samba.
Outra coisa de que não me recordava era que Zé Ketti, no começo de sua carreira, foi feirante. Vendia peixe mas sempre deixava sua barraca nas mãos de alguém para poder ir beber e fazer samba. O seu pequeno empreendimento acabou nao durando muito tempo.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Do significado
O PORQUÊ DO NOME
feérico., segundo o "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa", [ Do fr. féerique.] Adj. Gal. 1. Que pertence ao mundo das fadas, ou é próprio de fadas; mágico, maravilhoso, deslumbrante: iluminação feérica. Coloquei o significado da palavra apenas para formalizar. Deixo claro que não tenho nenhum tipo de inclinação, curiosidade ou seja lá o que for com o "mundo das fadas". Achei essa palavra interessante porque estou lendo um livro sobre história da arte, cujo autor é o monstro Ernst Fischer, e cujo título é "A Necessidade da Arte", no qual é citado, no capítulo "arte e capitalismo", um tal de NOVALIS. Este cara foi um dos principais nomes do romantismo alemão pós-revolução burguesa. Vai uma aspa dele: "O mundo precisa ser romantizado. Dêsse modo, o significado original é redescoberto ... pela doação de uma elevada importância àquilo que é comum, de uma aparência misteriosa ao que é corriqueiro, a dignidade do desconhecido ao que é familiar, os traços do infinito ao que é finito... O fato de que não nos possamos ver em um mundo feérico [eis aqui] é devido apenas à fraqueza dos nossos órgãos físicos e à deficiência da nossa percepção". Acredito ter passado, atravéz das palavras de Novalis, uma noção do significado e de minhas pretensões neste blog.
feérico., segundo o "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa", [ Do fr. féerique.] Adj. Gal. 1. Que pertence ao mundo das fadas, ou é próprio de fadas; mágico, maravilhoso, deslumbrante: iluminação feérica. Coloquei o significado da palavra apenas para formalizar. Deixo claro que não tenho nenhum tipo de inclinação, curiosidade ou seja lá o que for com o "mundo das fadas". Achei essa palavra interessante porque estou lendo um livro sobre história da arte, cujo autor é o monstro Ernst Fischer, e cujo título é "A Necessidade da Arte", no qual é citado, no capítulo "arte e capitalismo", um tal de NOVALIS. Este cara foi um dos principais nomes do romantismo alemão pós-revolução burguesa. Vai uma aspa dele: "O mundo precisa ser romantizado. Dêsse modo, o significado original é redescoberto ... pela doação de uma elevada importância àquilo que é comum, de uma aparência misteriosa ao que é corriqueiro, a dignidade do desconhecido ao que é familiar, os traços do infinito ao que é finito... O fato de que não nos possamos ver em um mundo feérico [eis aqui] é devido apenas à fraqueza dos nossos órgãos físicos e à deficiência da nossa percepção". Acredito ter passado, atravéz das palavras de Novalis, uma noção do significado e de minhas pretensões neste blog.
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