quarta-feira, 13 de abril de 2016

A crise política brasileira na capa do Times



O jornal americano "The New York Times", um dos mais prestigiados do mundo, trouxe como destaque em sua capa de segunda-feira (4/4) uma reportagem que busca explicar os elos entre a corrupção e a atual crise política brasileira.

Grande parte da capa do diário é ocupada por chamadas para a matéria sobre o Brasil. A presidente Dilma Rousseff é a maior imagem da primeira página do jornal, que também traz fotos do ex-presidente Lula, do senador Delcídio do Amaral, do juiz Sergio Moro e de um protesto contra o governo.

O destaque para a reportagem sobre a crise brasileira é maior do que o dado, por exemplo, a matéria sobre a indicação de um juiz à Suprema Corte americana ou a uma reportagem sobre a campanha do presidenciável Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata.

Reprodução da capa do NYT

Abaixo a íntegra da reportagem do jornalista Simon Romero, correspondente do "New York Times" no Brasil, sobre a crise política no país. A tradução peca em algumas passagens.

*
O senador de cabelos grisalhos, da fronteira oeste brasileira, estava de pijama quando agentes da polícia federal bateram à porta de sua suíte no Royal Tulip, hotel futurista que serve de bastião a boa parte da elite política brasileira. Eram 6h.

Os agentes estavam armados de uma gravação secreta que lembrava a trama de um thriller de Hollywood. O senador, Delcídio do Amaral, havia sido apanhado detalhando um plano elaborado para que um executivo petroleiro apanhado em um escândalo de corrupção cada vez mais amplo escapasse do país em um avião privado.

Amaral, 61, até sua detenção em Brasília naquela manhã do final de novembro era o mais poderoso líder do governo no Senado. Ele rapidamente buscou um acordo de delação premiada, mas os procuradores o deixaram apodrecendo na prisão por semanas, aceitando um acordo apenas depois que o senador caído em desgraça ofereceu uma sucessão de revelações chocantes que traíram seus antigos camaradas e carregaram o governo da presidente Dilma Rousseff para ainda mais perto do colapso.

"Senti que tinha batido em um muro depois de uma perseguição em alta velocidade", disse Amaral em fevereiro. "Eu errei, e por isso compreendi que precisava uma chance de corrigir os meus erros. É preciso ser pragmático".
Buscando voltar Amaral definitivamente contra Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT) do qual os dois são membros, os investigadores brincaram com a possibilidade de dar à operação o nome "Catilina", em referência ao patrício renegado cujas conspirações abalaram o senado da República Romana no século 1 AC.

Os relatos de Amaral sobre subornos colossais, negócios de bastidores e manobras desesperadas de acobertamento - montados com base em entrevistas, vazamentos de escutas telefônicas e documentos judiciais - oferecem um raro vislumbre de como um partido de esquerda que subiu ao poder prometendo eliminar a corrupção de uma elite política privilegiada terminou por abraçar as políticas de seus predecessores. O depoimento dele acelerou a crise política brasileira, na qual líderes temerosos manobram para tomar o poder, gravando secretamente as conversas uns dos outros e se preparando para o dia em que eles também poderão se ver na posição de alvo de uma operação policial realizada na madrugada.

Mesmo o juiz que inicialmente era elogiado por perseguir destemidamente os poderosos agora foi acusado de violar a lei ao divulgar publicamente provas relacionadas à investigação.

O tumulto começou dois anos atrás, quando procuradores descobriram um esquema dentro da estatal de petróleo Petrobras: empreiteiras teriam pago quase US$ 3 bilhões em propinas a executivos, que por sua vez canalizaram dinheiro para campanhas dos partidos que integravam a coalizão governista brasileira. 

Quase 40 políticos, magnatas dos negócios e cambistas do mercado negro foram aprisionados desde então, e a expectativa é de que a lista cresça, com os procuradores investigando suspeitos que incluem os presidentes das duas casas do Congresso.

Os estudiosos afirmam que o escândalo de corrupção está entre os mais graves nos países em desenvolvimento, comparando-o a um terremoto que atingiu a elite privilegiada do país. Ele veio na companhia de desafios econômicos esmagadores, quando a queda no preço das commodities fez com que o desemprego disparasse para os 9,5% ante 6,8% um ano antes. Só em 2015, o Brasil perdeu 1,5 milhão de postos de trabalho, uma virada ante os 7,6% de crescimento registrados pelo país em 2010.

A dupla ameaça de um colapso político e econômico devastou as ambições mundiais da maior nação latino-americana no pior momento possível. O Brasil está ao mesmo tempo enfrentando uma epidemia de defeitos congênitos ligados ao vírus zika, transmitido por mosquitos, e se preparando para sediar a olimpíada deste ano.

Que o coração do escândalo seja a Petrobras, fundada em 1953 e cercada por uma mítica aura nacionalista, só serviu para multiplicar os efeitos. A empresa é a peça central de uma teia de empresas de energia e bancos estatais que servem de base à economia brasileira, projetando poder por todo o país e no exterior. Também financiou uma série de programas de arte, entre os quais uma orquestra sinfônica, grupos de dança moderna e exposições de pintura, atividades que a companhia cortou profundamente, da mesma forma que cortou seu quadro de funcionários.

Os brasileiros muitas vezes brincam sobre as raízes profundas da corrupção no país, afirmando que ela remonta à chegada do navegador português Pedro Álvares Cabral, em 1500, trazendo presentes como estratégia para reivindicar terras habitadas por povos indígenas. Há um quarto de século, o então presidente Fernando Collor de Mello foi forçado a renunciar devido a um escândalo de tráfico de influência, lapso que parece quase amador em comparação ao que vem acontecendo agora.

Foi quando Amaral começou a demolir o governo que ele antes apoiava lealmente que muitos brasileiros começaram a perceber até que ponto as trapaças se haviam generalizado.

Ele testemunhou que Luiz Inácio Lula da Silva, antigo presidente e fundador do PT, havia orquestrado a compra do silêncio de um empresário condenado por operar um esquema de compra de votos.

Amaral também afirmou que o vice-presidente Michel Temer, que estava manobrando pelo impeachment de Rousseff, esteve envolvido em uma operação ilegal de compra de álcool. Outro alvo de suas denúncias foi Aécio Neves, o líder oposicionista derrotado por pouco na eleição de 2014, revelando que a família dele tinha uma conta secreta em um banco do Liechtenstein. (Neves disse que sua mãe havia aberto a conta para pagar pela educação dos netos.)

Antes das revelações de Amaral, Rousseff havia em geral conseguido se manter acima das disputas, em parte ao se vangloriar de reforçar a independência do Judiciário ao permitir que os procuradores agissem contra acusados de suborno dentro de seu partido. Mas o senador afirmou que a presidente o havia instruído a sabotar a investigação sobre a Petrobras ao persuadir um importante juiz a solicitar a libertação de magnatas da construção acusados de corrupção.

Tanto Rousseff quanto Lula afirmam que Amaral está mentindo. Em termos mais amplos, Rousseff declarou em entrevista recente que não sabia da corrupção na Petrobras, apesar de ter servido como presidente do conselho da empresa de 2003 até 2010, quando foi eleita presidente, um período em que a corrupção avançou muito na companhia. Ela também insiste em que suas campanhas eleitorais não receberam financiamentos ilegais.

Amaral, atacado por líderes de todo o espectro político como fabulista, sorri durante suas entrevistas como o gato de "Alice no País das Maravilhas". Orador talentoso, ele entremeia seus relatos com ditados do Pantanal, a vasta região alagadiça em que sua família opera fazendas de pecuária. Buscando maneiras de explicar o vórtice político, ele chegou em dado momento a recitar um verso de uma velha canção brasileira.
"Estou só fazendo minha parte para ajudar a república", disse o senador.

ATOR ILUDE SENADOR
Em retrospecto, disse Amaral, ele reconhece que jamais deveria ter confiado em Bernardo Cerveró, um jovem ator tentando fazer carreira no Rio de Janeiro.
O senador, que foi diretor de gás e energia na Petrobras em 2000 e 2001, disse ter aceitado uma reunião com Cerveró, 34, em novembro por conta de sua amizade com o pai do ator, Nestor, sentenciado a prisão por acusações de corrupção relacionadas ao seu trabalho na Petrobras. O jovem Cerveró, ator de um grupo experimental de teatro, gravou clandestinamente em seu celular a conversa dele com o senador, no Royal Tulip, hotel em formato de ferradura no qual o senador vive em Brasília, bem perto do palácio presidencial.

Amaral garantiu a Cerveró que persuadiria os juízes da mais alta corte brasileira a libertar seu velho amigo, concedendo-lhe prisão domiciliar. Depois explicou como organizaria arranjos para pagar US$ 1 milhão à família de Cerveró, mais uma mesada de cerca de US$ 13 mil, o que, suspeitam os procuradores, tinha por objetivo levar a família a não denunciar as transações do senador com a Petrobras.

E Amaral explicou como ajudaria Nestor Cerveró a fugir para a Espanha, incluindo detalhes como a desativação de seu sistema eletrônico de vigilância. O ator sugeriu uma fuga de barco, mas o senador afirmou que o preferível seria uma fuga por avião, acrescentando que "a melhor maneira de ele sair é pelo Paraguai".
Isso bastou para acusações de obstrução da Justiça contra Amaral e André Esteves, o banqueiro bilionário que, segundo o senador, financiaria a jornada.

Antes de sua detenção, Amaral era conhecido em Brasília como astuto operador de bastidores, aproveitando sua longa experiência no negócio petroleiro.
Ele estudou em um colégio jesuíta e depois se formou em engenharia, e trabalhou na Holanda, para a gigante do petróleo Royal Dutch Shell, no começo dos anos 90. De volta ao Brasil, ele galgou a burocracia do setor de energia, controlado pelo Estado.

Foi quando estava trabalhando no Ministério da Energia, em 1993, que ele conheceu Rousseff, então uma obscura funcionária encarregada da política de energia do governo do Rio Grande do Sul.

"Conheci Dilma em uma briga", ele disse, recordando seus primeiros encontros com Rousseff, que estava buscando renegociar a dívida de uma empresa de eletricidade pública junto às autoridades federais. "Ela foi extremamente agressiva. Sempre foi".

Amaral entrou para o PT em 2001, e conquistou cadeira no Senado no ano seguinte, quando Lula disputou com sucesso a presidência.

À medida que o Brasil enriquecia com a descoberta de campos de petróleo a grande profundidade subaquática, Amaral também se beneficiava.

Alguns colegas de Amaral no PT ainda se arrepiam ao recordar a festa de 15 anos que o senador e a mulher organizaram em 2011 para sua filha. Comparando o evento, realizado na cidade de Campo Grande, região oeste, aos bailes organizados pela nobreza europeias, colunistas sociais relataram encantados todos os toques de luxo: 240 garrafas de champanha Veuve Clicquot, e um vestido feito com cristais Givenchy para a aniversariante.

PÂNICO NO PT
Em dezembro, enquanto o senador estava preso, seu velho amigo na Petrobras, Nestor Cerveró, revelou a investigadores que Amaral havia embolsado uma propina de US$ 10 milhões em 2001, na compra de turbinas companhia francesa de energia Alstom. Amaral negou essa e todas as demais acusações de que enriqueceu ilegalmente, declarando que "não sou um homem corrupto".

Amaral foi o primeiro senador em exercício de seu mandato a ser preso desde o restabelecimento da democracia no Brasil, nos anos 80, e sua detenção causou pânico e indignação no PT, que Lula e outros líderes sindicais fundaram nos anos 80 para resistir à ditadura militar brasileira.

A disposição do senador de atraiçoar seus colegas tornou uma coisa inevitável: que mais gravações clandestinas viessem a enriquecer a saga do impasse político brasileiro.

Pouco depois da detenção dele no Royal Tulip, o ministro da Educação Aloizio Mercadante, um dos principais assessores de Rousseff, contatou Eduardo Marzagão, um confidente de Amaral, oferecendo ajuda para cobrir as despesas legais da família.

"Olha, Marzagão, é só me dizer como posso ajudar", disse Mercadante. "Estou aqui para isso, para ajudar".

Ele não estava ciente, claro, de que Marzagão estava gravando o telefonema. Os procuradores agora têm Mercadante na mira.

O JUIZ E LULA
Há mais de um ano, Sérgio Moro, um juiz federal ativista no sul do Brasil, vem comandando o inquérito sobre a Petrobras. Ele aproveitou novas leis de combate à corrupção que permitem que acusados reduzam suas sentenças de prisão em troca de informações, ajudando os procuradores a deter poderoso após poderoso.
O labiríntico inquérito terminou por levar a Lula. Estava claro que o ex-presidente havia desfrutado de conexões com os magnatas que comandam as empreiteiras e lhe pagaram dezenas de milhões de dólares por palestras.

Os procuradores em seguida descobriram que empreiteiras haviam pago por renovar um sítio perto de São Paulo e um apartamento à beira mar na cidade do Guarujá, duas propriedades que eles afirmam estar sob o controle do ex-presidente. (Lula nega ser o proprietário de qualquer das duas.)

No sítio, agentes da polícia encontraram uma caneta com o escudo do Corinthians, o time de futebol pelo qual Lula torce em São Paulo, com a inscrição "ao ilustre presidente Lula". A adega tem garrafas de vinho dedicadas a ele. Atracados em um cais no lago, há pedalinhos que portam o nome de seus netos, Pedro e Arthur.

Quando os investigadores apertaram o cerco, Lula foi se alarmando cada vez mais, de acordo com escutas de telefonemas obtidas como parte do inquérito. Ele criticou o Supremo Tribunal Federal, usou expressões chulas para descrever os presidentes das duas casas do Congresso e apelou aos seus colegas do PT para que pressionassem os procuradores.

"Por que não conseguimos intimidá-los?", o ex-presidente perguntou a um deputado. Instruindo-o sobre como irritar um investigador, Lula disse: "Ele precisa ir dormir sabendo que no dia seguinte terá 10 congressistas o incomodando em casa, em seu gabinete, e que ele terá de enfrentar um processo no Supremo Tribunal Federal".

Com o aumento da pressão, a denúncia de 255 páginas feita por Amaral como parte de seu acordo de colaboração vazou para a mídia no começo de marco, causando negação furiosa e manobras desesperadas. Rousseff apontou Lula, seu predecessor e patrono, como chefe de sua Casa Civil, o que lhe conferiria amplas proteções legais.

Por algumas horas, em 16 de março, o plano parecia ter funcionando.

O GAME OF THRONES BRASILEIRO
No mesmo dia, Moro divulgou gravações dos telefonemas de Lula a Rousseff e outros políticos. Os telefonemas mostravam o ex-presidente tentando salvar sua narrativa heroica ao lado de uma líder que tentava evitar um processo de impeachment comparado por ela a um golpe em câmera lenta.

Os juízes do Supremo Tribunal Federal suspenderam a indicação de Lula. Mas Moro, o juiz de fala mansa que comanda o inquérito, também encara recriminações, por revelar conversas da líder da nação sem autorização do mais alto tribunal brasileiro, o que conduziu a acusações de que seu inquérito, antes admirado, se havia tornado uma caça às bruxas partidária.

Com o progresso do caso, mais aliados estão abandonando Rousseff, com o objetivo de conquistar poder para eles mesmos. Eles dizem que ela deve ser alvo de impeachment por violar as leis fiscais e usar dinheiro de bancos estatais para cobrir rombos no orçamento.

Liderados por Temer, cujo comportamento enigmático leva rivais a compará-lo a um mordomo em um filme de terror, os centristas que formavam a âncora da coalizão de Rousseff a abandonaram na semana passado.

No Congresso, legisladores acusados de imensa corrupção pessoal estão acelerando o processo de impeachment da presidente, que não se viu maculada por imputações de enriquecimento pessoal ilícito.

Amaral, cujo mandato o Comitê de Ética do Senado está tentando cassar, não está assistindo ao espetáculo das arquibancadas. Em 13 de março, ele saiu em sua moto Harley-Davidson e se uniu a centenas de milhares de manifestantes contra o governo em São Paulo. Mas não tirou o capacete, por medo de como a multidão poderia reagir.

Tradução de PAULO MIGLIACCI 

O muro da nossa cisão

Muro do impeachment, muro da vergonha, muro do golpe... Este é o muro que está dividindo o país no momento. Domingo (17), dia em que o plenário da Câmara vota o impeachment, haverá mais gente no lado vermelho ou amarelo?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

STF: comportamentos ambíguos e contraditórios

Com regras discutíveis, Supremo Tribunal Federal ganha projeção



RESUMO O Supremo Tribunal Federal ganhou projeção com o julgamento do mensalão. Oscilando entre ser protagonista ou coadjuvante na crise, o STF assume comportamentos ambíguos e contraditórios. A ausência de regras e mecanismos de contrapeso favorece decisões individuais que valem como se fossem da corte.
*
"Eu acho que a decisão do ministro Teori Zavascki foi uma decisão tecnicamente correta, juridicamente adequada aos padrões legais. O ministro Teori é um grande jurista."

Em tom solene e buscando mostrar a imparcialidade esperada de um ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello comenta a decisão do colega para a câmera. Zavascki havia decidido, não mais que dois dias antes, que as investigações sobre Lula deveriam subir para o STF. Ocorre que o ministro está olhando para uma câmera de celular. Vestindo uma polo Lacoste bordô. Em um shopping.

A cena, além de insólita, ilustra muito bem que existem dois papéis possíveis para o Supremo. O papel oficial, necessário. E o que os próprios ministros querem e conseguem desempenhar, em parte influenciados por determinadas expectativas da população.

Dias depois da entrevista, Celso de Mello se reuniu aos demais dez ministros e ministras para confirmar a decisão de Zavascki. Se adiantar para a imprensa o voto que irá proferir em um caso, um ministro do Supremo, como qualquer juiz brasileiro, viola a Lei Orgânica da Magistratura. Mas Celso de Mello não afirmou categoricamente que iria referendar a decisão. Adotou tom neutro, limitou-se a elogios protocolares. O ministro fez um esforço calculado para não buscar protagonismo.
Pedro Ladeira - 12.nov.2015/Folhapress
BRASILIA, DF, BRASIL, 12-11-2015, 15h00: Sessão plenária do STF, sob a presidência do ministro Ricardo Lewandowski. O STF deve discutir uma ação da OAB que questiona a possibilidade de doações ocultas de pessoas físicas permitidas pela minirreforma eleitoral. O relator da matéria é o ministro Teori Zavascki. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
O ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki

É isso que o Supremo quer com sua atuação durante a crise: consagrar-se coadjuvante. "Nesse Fla-Flu o Supremo não tem lado", lembra o ministro Luís Roberto Barroso. Foi dele o voto condutor que definiu em dezembro as regras para o rito de impeachment –mas sem entrar no mérito. Querendo ou não, o tribunal mudou radicalmente a velocidade e as chances do impeachment. Quão coadjuvante e técnico em seus julgamentos o Supremo consegue se manter, ainda que tente?

Compare-se o tribunal que o Supremo quer ser com o aquele que os brasileiros querem que seja. Esse Supremo reservado e judicioso não é o que pede a população. Ela não quer mais um Judiciário passivo. Uns querem que o tribunal seja enérgico no combate à corrupção. Outros querem que ele seja enérgico no combate a um golpe. Todos querem que os ministros arregacem as mangas.

Comportem-se como líderes, talvez. Como humanos, no mínimo. E não como sacerdotes de manto preto.

Quando a audiência é a classe média, nada humaniza mais que ser filmado por um smartphone, trajando uma polo em um shopping. Ou na saída de um restaurante, em traje de passeio, como o ministro Dias Toffoli ao garantir que impeachment não é golpe.

Gilmar Mendes acusou a ilegalidade da nomeação de Lula como ministro –no julgamento sobre o rito do impeachment. Atendeu os anseios da população por liderança ou os seus próprios? O certo é que adiantou ilegalmente o voto que seria provocado a manifestar depois. Outros ministros, como Rosa Weber e Edson Fachin, não fazem questão de ficar em evidência.

A atitude importa. Em uma democracia a salvação máxima não pode vir do Judiciário. O papel que a população ontem atribuiu a Joaquim Barbosa e hoje delega a Moro não é saudável.

Mas há uma diferença entre ser colocado no pedestal e galgar seu caminho até ele. O juiz paranaense não concede entrevistas quase diariamente, como Marco Aurélio e Mendes. Não fala sobre aspectos concretos de futuras decisões suas à imprensa, como fazem eles.

MENSALÃO
No conjunto, o Supremo só foi descoberto pelos brasileiros com o julgamento do mensalão. Coincidiu com uma mudança no relacionamento com políticos. Desde então, os ministros sabem que condenar um ex-ministro da Casa Civil, ordenar a prisão preventiva de um senador ou abrir processo criminal contra o presidente da Câmara dos Deputados não cria instabilidade institucional. Isso é bom. Mas é preciso considerar que essas escolhas nem sempre são feitas de forma visível e transparente para os brasileiros.

O "timing" das decisões do plenário é um elemento decisivo e pouco conhecido pela sociedade. O Supremo pode decidir uma liminar em 20 horas (ADI 4.698) ou em 18 anos (ADI 1.229). Não há qualquer regra sobre isso. Não há nenhum mecanismo de freio ou contrapeso. Atualmente, o tribunal pode escolher se irá decidir o pedido de afastamento de Eduardo Cunha na semana que vem ou no final do ano.

Uma análise mais detalhada revela um tribunal que tem os meios e a vontade de protagonismo, mas que, ao mesmo tempo, tenta permanecer discreto. Diz que não tem lado no Fla-Flu, mas apressa-se em avaliar o mérito de uma das acusações centrais contra a presidente. Faz questão de afirmar que impeachment não é golpe, mesmo sem ser acionado formalmente.

Em parte, essa é a crise de identidade entre o tribunal da tese e o da prática. Mas há outro fator que colabora para tal crise. Existem comportamentos deliberadamente diferentes de ministros diferentes. Uma fragmentação.

Dados do projeto Supremo em Números mostram que, entre 2009 e 2013, 98% das decisões de mérito e liminares foram individuais. Assim foram as decisões monocráticas de Gilmar Mendes e Teori Zavascki sobre a questão do foro competente para julgar Lula. Separadas por quatro dias e aparentemente conflitantes. Ambas garantindo que, por algum tempo, a posição pessoal do ministro se torne a posição oficial do Supremo. A de Zavascki foi confirmada. Quando será a de Gilmar?

O que poderia fazer o presidente da corte, o ministro Ricardo Lewandowski? Nada. Cada ministro dispõe de um conjunto de prerrogativas que lhe permite fazer todo o Supremo pender ora para o holofote, ora para a sombra.

Zavascki e Mendes, autores de liminares possivelmente conflitantes sobre onde Lula deve ser julgado, podem levá-las ao juízo de seus colegas quando bem entenderem. Segurar o processo e não permitir que colegiado avalie se mantém ou derruba a decisão liminar é um tipo de veto. Permite ao ministro escolher, sozinho, entre um Lula articulador em um governo com novas chances e um Lula sem carteira assinada em um governo ainda mais desmoralizado.

O poder de veto individual pode ser exercido também por meio dos pedidos de vista, como meu colega Diego Werneck e eu explicamos em artigo naFolha em abril do ano passado. Mendes usou um pedido de vista para suspender por mais de um ano o julgamento sobre financiamento de campanhas eleitorais, do qual sequer era relator.

Há outros exemplos de vetos individuais. Em setembro de 2014 o ministro Luiz Fux decidiu sozinho que os 16 mil juízes brasileiros devem receber R$ 4.377 reais mensais de auxílio-moradia. Nunca levou sua liminar para avaliação dos colegas.

Até agora, Fux custou R$ 1,25 bilhão aos cofres públicos. Nenhum deputado ou senador é capaz de impactar o orçamento unilateralmente nessa magnitude.
Com esse tipo de poder, é difícil dizer que um ministro do Supremo seja coadjuvante na política nacional. Nenhum ministro irá confirmar a existência e uso desse poder, é claro. Isso não seria compatível com a imagem oficial do Supremo.

Há outro exemplo de prerrogativa pouco conhecida, porém de grande utilidade. Os ministros comparecem às sessões de julgamento quando querem.
Pesquisa do Supremo em Números mostra que, entre 1992 e 2013, grande quantidade de ministros faltou a 15% ou mais das sessões. Um ficou perto de 30%.

O plenário só estava completo em uma de cada seis sessões de julgamento. A normalidade das faltas permite grandes coincidências. Gilmar Mendes não poderia levar ao plenário sua liminar sobre Lula na semana passada por estar em um evento acadêmico em Portugal. Qualquer ministro pode evitar uma sessão de julgamento que o coloque numa situação delicada.

Esse é o Supremo que chancela decisões da Lava Jato. Que decidiu e decidirá novamente sobre o rito do impeachment. Que atualmente avalia, inclusive, nomeações de ministros do governo federal. Um grupo de juízes que por vezes vota unido, mas que utiliza poderes peculiares para administrar escolhas individuais e gerenciar seus respectivos custos políticos. Um tribunal que perde cada vez mais seu pudor institucional.

Mais do que em outras épocas, hoje o STF sabe e faz a hora, não espera acontecer.


IVAR HARTMANN, 31, doutorando em direito constitucional na UERJ, é professor da Fundação Getúlio Vargas no Rio. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Ferreira Gular escreve sobre a crise política






03/04/2016  02h00





O poeta expõe seu ponto de vista sobre a conjuntura do país. Concordo do meio para o fim do texto. O grande desafio para o Brasil é fazer seu povo virar cidadão, e não dar direitos sociais de mãos beijadas.

E o sonho acabou



Acredito que a maneira que temos para sair da situação crítica em que nos encontramos é tentarmos entender o que ocorreu no país e o conduziu ao impasse.

Certamente, cada analista político tem sua própria compreensão do problema em que haverá, sem dúvida, alguma verdade, mas que, a meu ver, nem sempre pode explicar certos aspectos dos governos petistas que estão no poder há mais de 12 anos.

Em meus comentários, tenho buscado caracterizar esse governos como populistas, a exemplo do que ocorreu na Argentina, na Venezuela, na Bolívia e no Equador.

Se é certo que, em cada um desses países, o populismo se manifestou de maneira particular, em todos eles pôs em prática um tipo de governo que se apresenta como defensor dos pobres contra os ricos, embora, na prática, não seja bem isso, como constatamos no Brasil.

Esse novo populismo –ao contrário do que se impôs nos anos 1930, 40, 50 (por aí)– é um arremedo do regime marxista, mesmo porque surgiu como consequência do fim daqueles regimes no mundo inteiro.
Como o populismo latino-americano não nasceu de uma revolução e, sim, da disputa eleitoral, não pode impor a ditadura de um só partido mas, mesmo assim, pretende manter-se para sempre no poder.

Hugo Chávez, com seu socialismo bolivariano, mudou a Constituição da Venezuela para reeleger-se indefinidamente; o mesmo fez Evo Morales. Lula tentou um terceiro mandato mas não o conseguiu. O jeito foi eleger a Dilma, pensando em voltar quatro anos depois.

A intenção de permanecer indefinidamente no poder explica por que, em seu primeiro mandato, Lula evitou aliar-se ao PMDB, ao qual teria que ceder ministérios e altos cargos da máquina estatal. Em vez disso, aliou-se aos pequenos partidos, os quais, em vez de ministérios, comprou com dinheiro público –o mensalão.

Desgastado com esse escândalo –do qual escapou entregando a cabeça de seus principais militantes– Lula teve de aliar-se, no segundo mandato, ao PMDB, e lhe fazer as concessões conhecidas, algumas das quais reveladas pela Operação Lava Jato. Mas o projeto de poder de Lula não se limitou à compra de deputados e à barganha de cargos públicos.

Conforme têm mostrado as investigações realizadas, criou-se dentro da Petrobras uma aliança do governo com altos funcionários da empresa e dirigentes de empreiteiras para saqueá-la através de concorrências manipuladas e contratações fajutas, que geravam alta somas em propinas. Parte desse dinheiro era passada ao partido do governo e seus aliados.

Como se vê, a figura do líder operário Luiz Inácio Lula da Silva, que ganhou a confiança de certa intelectualidade de esquerda, na verdade juntou-se aos capitalistas que dizia combater, formando uma aliança criminosa que sonhava saquear o patrimônio público por décadas e décadas.

Como parte desse projeto, Lula e Dilma usaram recursos do Estado para os programas assistencialistas que lhes garantissem a reeleição permanente.
Com esse propósito, estimularam o consumismo, emprestando dinheiro do tesouro nacional a empresas produtoras de veículos, de geladeira, televisão, máquinas de lavar, enfim, de bens de consumo, para que os vendessem a preços acessíveis e a longo prazo aos consumidor de poucos recursos.

Ou seja, nós, contribuintes, financiávamos a política populista para que Lula se mantivesse no poder, como o pai dos pobres.

O que pretendo demonstrar com esses fatos é que o desempenho de Lula não foi apenas resultado de sua personalidade carismática. Na verdade, se atentamos para os fatos citados, é inevitável concluir que seu desempenho obedece a um projeto político que visava manter-se no poder indefinidamente. Ele só se esqueceu de que a economia tem leis que, desobedecidas, levam ao desastre. E o desastre chegou.

Agora, com o desembarque do PMDB do governo e a previsível aprovação do impeachment, a aventura lulopetista parece estar com os dias contados. 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Sobre os vice-presidentes de nossa história

Legalmente, rompimento não muda status de vice; relembre casos

Ueslei Marcelino-16.dez.2015/Reuters
Brazil's President Dilma Rousseff (R) and Vice President Michel Temer listen to Brazil's national anthem before an annual lunch with general officers in Brasilia, Brazil, December 16, 2015. REUTERS/Ueslei Marcelino ORG XMIT: BSB113
O vice-presidente, Michel Temer, e a presidente Dilma Rousseff, em Brasília


Do ponto de vista legal, um desacordo entre o presidente e seu vice não altera as prerrogativas que cada um deles adquiriu em razão da eleição: ambos continuam ocupando seus cargos, mesmo que passem a militar em campos políticos opostos.

O vice de Prudente de Morais (1894-1898), Manuel Vitorino, rompeu abertamente com o presidente. Quando este se licenciou do cargo em razão de uma enfermidade, Vitorino trocou o ministério, comprou uma nova sede para o governo federal (o Palácio do Catete), arrendou estradas de ferro.

Só que Prudente se restabeleceu e, quatro meses depois, reassumiu a Presidência. Mesmo rompidos, cada um continuou no cargo até o fim do mandato.

Existe, porém, uma grande diferença entre Manuel Vitorino e Michel Temer: o respaldo eleitoral. Até o regime militar (1964-1985), os vice-presidentes eram eleitos separadamente pela população. Em 1955, o vice João Goulart recebeu mais votos que o presidente Juscelino Kubitschek. Na época, os vices dispunham também de mais atribuições –as Constituições de 1891 e 1946 estipulavam que também exerciam a presidência do Senado.

Quando presidente e vice eram eleitos separadamente, a possibilidade de divergência entre eles era, em tese, maior. Getúlio Vargas nunca confiou em Café Filho, e Jânio Quadros tampouco tinha afinidade com João Goulart.
A partir de 1966, porém, presidente e vice passaram a ser eleitos em chapa única –e esse procedimento foi mantido nas eleições diretas a partir de 1989. Na prática, o eleitor vota no candidato a presidente e, ao mesmo tempo, elege um substituto legal.

O mesmo ocorre com os vice-governadores, os vice-prefeitos e os suplentes dos senadores. Os "votos" que eles receberam se destinavam, a rigor, ao cabeça da chapa. Mas nem por isso eles se sentem obrigados a apoiar o titular em todas as ocasiões.

Em 1984, Aureliano Chaves rompeu com João Figueiredo (1979-1985) e se alinhou à oposição, e em 1992 Itamar Franco se distanciou de Fernando Collor (1990-1992). Fernando Henrique e Lula ainda puderam contar com vices extremamente fiéis –Marco Maciel e José Alencar, respectivamente. Dilma não teve a mesma sorte. 

Lembranças de 'Mani Pulite'



*Retirado da coluna do Contador Calligaris. Folha, quinta-feira, 31/3/16.


No começo dos anos 1990, na Itália, um grupo de magistrados milaneses (o mais popular foi Antonio di Pietro) tentou acabar com os esquemas de corrupção (antigos e tradicionais) que ligavam empresários, financistas e políticos.
Esse sistema viciado enchia os bolsos dos políticos (pessoas físicas) e financiava os partidos com comissões que as empresas pagavam para ganhar contratos públicos.

Anos antes, Sandro Pertini, presidente da República (honesto), declarara que um político deveria sempre ter as mãos limpas ("le mani pulite"). A expressão ficou e voltou em 1992, para batizar a "operação" dos magistrados milaneses.
Naquela década, eu vivia entre o Brasil e os EUA, mas visitava regularmente meus pais e meu irmão em Milão —por isso mesmo, minhas impressões daqueles anos são sobretudo o reflexo dos anseios e dos medos de meus familiares, que estavam lá, na Itália.

Já nos anos 1980 e antes (pela podridão do "milagre italiano", que reconstruiu o país depois da Segunda Guerra Mundial), havia uma tremenda desconfiança dos italianos diante da política tradicional.

Salvavam-se só os comunistas. Mas isso talvez fosse uma ilusão de óptica produzida pela minha própria história de militância. Ou pelo fato de que os comunistas ficaram quase sempre longe do poder executivo nacional.

O fato é que, para o italiano médio, qualquer governo roubava e roubaria. Os brasileiros não pensariam (não pensam) muito diferente: o grito "Roma ladra" poderia facilmente ser traduzido, ainda hoje, como "Brasília ladra".

A partir de "Mani Pulite", em 1992, ganharam espaço um movimento antimáfia e anticorrupção (fato curioso: ele se chamava "La Rete", a rede), e um movimento de direita do qual Bolsonaro, Feliciano e companhia gostariam (a Liga Norte).
De qualquer forma, a opinião pública estava, forte e unida, com o Ministério Público e com os juízes.

Pipocavam escritas nos muros de Milão: "Di Pietro, não volte atrás! Não perdoe!". De uma, em particular, me lembro bem —a que eu li estava num muro de tijolos, talvez na parte externa da Universidade de Milão: "Di Pietro, facci sognare" (Di Pietro, faça a gente sonhar).

Era isso mesmo, os italianos sabiam que aquilo seria, ao menos em parte, um sonho.

Os inimigos naturais de "Mani Pulite" se oporiam de todas as maneiras possíveis. De 1992 a 1996, políticos tradicionais e empresários desonestos lutaram para sujar os magistrados milaneses —foi sem muito efeito. No meio de 1992, os juízes Giovanni Falcone e Paulo Borsellino foram assassinados pela Máfia (a relação entre a Máfia e a classe política era o pano de fundo sombrio da corrupção).
Mesmo assim, aos poucos, na Itália, o jeito de fazer política mudou para sempre. Sumiram os partidos que tinham se tornado instituições fisiológicas. Imagine o que isso poderia significar hoje no Brasil.

A política italiana de hoje (a própria figura do primeiro-ministro Renzi) seria impensável sem "Mani Pulite". E ela é infinitamente melhor do que ela era no passado.

Há quem diga, aqui no Brasil, que o resultado de "Mani Pulite" foi Berlusconi. Isso é historicamente falso: ao contrário, Berlusconi se instalou no poder por uma década a partir de 2001, justamente quando os italianos se cansaram de "Mani Pulite".

Porque, de fato, eles se cansaram. De quê? Do fedor da lama? Do clima paranoico? Será que o mesmo cansaço nos espreita?

Não sei, mas o fato é que, em geral, quando a corrupção é o sistema de governo, é porque ela é também a forma dominante da vida social, pública e privada.
Você dá R$ 20 a um colega para que ele faça seu dever de casa. Isso é possível porque os políticos, lá em cima, são corruptos? Ou é o contrário: os políticos, lá em cima, se permitem ser corruptos porque sabem que a corrupção é a regra aqui em baixo, na nossa vida cotidiana?

O cidadão médio vive de pequenas corrupções: venda e compra de pontos na carteira, notas fiscais não emitidas, colas numa prova, pequenas sonegações e fraudes...

Ele pede transparência e honestidade até se dar conta de que muitas de suas ações são filhas da mesma confusão que ele denuncia no político: uma incapacidade de distinguir os interesses públicos dos interesses privados.

Não basta que uma boa faxina seja pelas calçadas e pelas praças; ela precisa acontecer em casa. Isso seria uma verdadeira mudança cultural...

Vou continuar sobre público e privado. 

domingo, 27 de março de 2016

Jornalista do nada

Com a internet e a facilidade de acesso a novas tecnologias, qualquer cidadão pode ser um jornalista em potencial. Basta estar com um smartphone (celular inteligente) para a mágica acontecer. Cada vez mais pessoas presenciam acontecimentos relevantes e os registram, seja com fotos ou por meio de vídeos. Programas e noticiários de TV perceberam esse rico material e têm fomentado cada vez mais a sua utilização. É o jornalismo colaborativo. Em um momento em que as redações estão cada vez mais enxutas de jornalistas "formados", é a saída para a crise, dizem os gestores.

Aí está o exemplo mais recente. Uma ativista, identificada apenas como Ana Claudia, reconheceu por acaso o ministro do STF Celso de Mello passeando em um shopping e o abordou. O ministro topou ser filmado e respondeu as suas perguntas. Bingo! O que é isso senão uma entrevista? Estar no lugar certa, na hora certa e ter em mente as perguntas certas. Ana Claudia preencheu todos esses requisitos e a entrevista repercutiu tanto nas redes sociais, num primeiro momento, como nos principais veículos de informação.

Todos, agora, são jornalistas em potencial. Abaixo, a notícia da Folha:

Ministro do Supremo diz que corrupção tomou conta do governo

Em vídeo na internet, Celso de Mello afirma que impeachment não e golpe






segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sexo nas cortes e pensões nebulosas para amantes e filhos: FHC, Lula, Collor, Renan...




Publicado por Luiz Flávio Gomes no Jusbrasil.

Introdução
Se já é difícil ter ciência das estrepolias que os donos do poder fazem em pé ou sentados, imaginem saber o que eles fazem deitados, debaixo dos lençóis[1], usando (indevidamente, claro) o dinheiro público (a soma de todos esses desvios cleptocratas, seguramente, gera danos sociais incomensuráveis).
Quando o gozo é deles (dos donos do poder) e a conta (sobretudo das pensões nebulosas) vai para nossos bolsos (de forma direta ou indireta), o assunto privado passa a ser de interesse público. Desnuda-se o manto da privacidade. Daí a série de artigos que segue (envolvendo FHC, Renan, Lula, Collor etc.).
FHC, depois das confissões de sua ex-amante Mirian Dutra[2] (nos anos 80/90), perguntou: “Por que discutir como se fosse pública uma questão privada”?
A questão deixa de ser privada quando há provas ou fundadas suspeitas de envolvimento do dinheiro público (no seu caso, uma concessionária das lojas duty freee dos aeroportos brasileiros, que fez um contrato fictício de emprego com a ex-amante de FHC, para complementar seus rendimentos).
Todo gozo alheio (gozo dos donos do poder) que tangencia os bolsos dos contribuintes passa a ser um gozo nacional, submetido à necessária transparência que a vida republicana exige (pouco importando o partido ou a ideologia do dono do poder – o povo tem direito de saber tudo sobre corrupção, independentemente da coloração partidária ou ideológica do corrupto).
Capítulo I – Renan Calheiros e Mendes Júnior
Renan Calheiros é um emblemático político do jeito antigo que deveria ser abolido do Brasil, que se tornou o paraíso da cleptocracia não por acaso: aqui o Estado é dominado e governado por agentes públicos e privados que fazem da corrupção endêmica e das pilhagens sistêmicas uma das fontes de acumulação indevida e impune de riqueza.
O medonho escândalo de 2007 do senador com a Mendes Júnior – que o levou a renunciar à presidência do Senado para salvar seu mandato – não teve resposta judicial até hoje. Seu processo foi tirado da pauta do STF (em fev/16). A presunção de impunidade dos barões ladrões, no seu caso, continua com todo vigor.
“Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado.
Ninguém respeita a constituição.
Mas todos acreditam no futuro da nação.
Que país é esse?” (Legião Urbana, composição de Renato Russo, 1987).
O senador Renan teve uma filha extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso. Até aqui, o lado privado da questão. A empreiteira Mendes Júnior, por interpostas pessoas, pagava à jornalista, em dinheiro corrente, o valor de uma pensão mensal da filha. Isso era feito em virtude das emendas que o senador fazia aprovar em benefício da empreiteira. O gozo do senador virou assunto público.
Em um país que é o paraíso da cleptocracia a regra é clara: faça filhos e mande a conta para todos. Tudo se tolera, até mesmo o pagamento de pensão de filho alheio com o dinheiro público. Mas isso não constitui motivo suficiente para sensibilizar o STF, a ponto de receber a denúncia contra o senador, excluindo-o da vida pública.
O ex-Procurador-Geral da República (Roberto Gurgel) só ofereceu denúncia contra Renan em 2013 (seis anos depois dos fatos), precisamente quando o senador foi reeleito para a presidência do Senado (como se ficha limpa fosse). Que país é esse?
A denúncia está no STF há mais de 1.100 dias. Imputam-se os crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. Mais do que corrupção endêmica (pública e notória), um país somente se transforma em paraíso da cleptocracia quando todas as instituições (políticas, econômicas, jurídicas e sociais) fracassam em suas funções (destacando-se aí as instituições jurídicas assim parte da sociedade civil, tolerante com a desfaçatez dos agentes públicos).
Sexo, poder e dinheiro
Sexo, poder e dinheiro, como objetos (inconscientes ou conscientes) do desejo, marcam o affaire Renan Calheiros-Mônica Veloso. O objeto do desejo, psicanaliticamente, é revelado pelo exibicionismo ou pelo voyeurismo. O par complementar do exibicionismo é o voyeurismo. Mônica pousou nua. Com ou sem publicidade, o nu gera enorme excitação.
O psicanalista Renato Mezan, na época dos fatos, explicou: “ao nos entregarmos ao deleite de a olhar, colocamo-nos na mesma posição daqueles com quem ela teve relações. Ora, Mônica Veloso certamente teve outros namorados, mas é com o senador Calheiros que se identifica quem compra a “Playboy” ou acessa o site da revista” (Folha de S. Paulo de 14.10.07, Mais, p. 4).
Todos gostaríamos, diz o psicanalista, “de poder exibir impunemente aquela postura arrogante do senador alagoano, de poder pisotear impunemente as regras do convívio civilizado e de impor nossa vontade aos outros com truculência. Ao comer com os olhos a mulher que foi dele, usufruímos por um instante dos prazeres que ele desfrutou” (Renato Mezan). O articulista conclui: “no nosso inconsciente não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói”. Muitas vezes, o herói sem caráter macunaímico.
Mas o brasileiro concorda que alguém eleito para cargo público possa usá-lo como se fosse propriedade particular, em benefício próprio [inclusive da própria libido]? 10% estão de acordo com isso (Alberto Carlos Almeida, A cabeça do brasileiro, São Paulo: Record, 2007, p. 20 e 30). Outro enorme percentual tolera isso (do contrário o senador não teria ficado impune até hoje).
Por meio da corrupção, é frequente a trilogia sexo, poder e dinheiro protagonizar engendrados triângulos amorosos: o dono do poder (no caso, um senador) satisfez seu objeto do desejo (sexo), a empreiteira Mendes Júnior também alcançou o seu (dinheiro conquistado por emendas parlamentares) e a jornalista queria um espaço no mundo das celebridades, como escreveu Eliane Robert Morais, na Folha de S. Paulo de 14.10.07, Mais, p. 5).
Os que podem (os donos do poder) conquistam seus objetos de desejo fraudulentamente (corrupção, fraude em licitações, superfaturamentos, dinheiro em paraísos fiscais, lavagem de dinheiro etc.). Os que não podem (os que não são os donos do poder), o fazem violentamente. Os consumidores platônicos, sem meios para consumir licitamente, se obrigam a algum tipo de ilegalidade (quando querem se apoderar de algum objeto de desejo).
Os que podem e mandam (os donos do poder) contam com a prerrogativa de abusar e transgredir (impunemente) as regras da civilização e da moralidade. As contas dos seus objetos de desejo, muitas vezes, são pagas pela população. A ilegalidade dos donos do poder (Foucault) acontece normalmente por meio da fraude. Os despossuídos, que são os chamados “sujeitos monetários sem dinheiro” (sujeitos que vivem sem salário, emprego etc., consoante Roberto Schwarz), alcançam a mesma ilegalidade mais comumente por outro caminho: pela violência.
Cada um usa a linguagem, os recursos e meios que conhece. A isso Roberto Schwartz deu o nome de “desigualdade social degradada”: os donos do poder cleptocratas assim como seus súditos criminosos se merecem mutuamente; nem existe a pureza popular, nem a elite nunca abandonou suas roubalheiras, que constituem uma das formas de se menosprezar os miseráveis. Não existe, portanto, nem a decantada pureza proletária nem tampouco a benevolência inculpável na opulência.
De um lado, “trabalhadores desmoralizados pelo desemprego e rendidos ao imaginário burguês; de outro, uma burguesia ressentida e lamentável, invejosa de suas congêneres do Primeiro Mundo e queixosa de não morar lá, além de amargurada com a insegurança local, que azedou os seus privilégios” (Roberto Schwarz, Folha de S. Paulo de 11.08.07, p. E9). Aliás, também a operação Lava Jato está amargurando os barões ladrões ressentidos.
A que conclusão se chega? A luta de classes no Brasil foi substituída pela “desigualdade social degradada”. Ninguém mais está satisfeito. E o pior: não há “nenhuma perspectiva de progresso, que torne o país decente”, sem corrupção, delinquência econômica e violência.
A presunção de im (p) unidade penal está previamente garantida aos que podem (veja o triângulo amoroso formado pelo senador, pela jornalista e pela empreiteira, até hoje sem nenhuma resposta do Judiciário). Para os destituídos de poder a presunção é outra: de culpabilidade.
O Brasil é um país hierarquizado (DaMatta). Com isso, a posição e a origem social são fundamentais para se definir o que se pode e o que não se pode fazer; para saber se a pessoa está acima da lei ou se teria que cumpri-la (Alberto Carlos Almeida, A cabeça do brasileiro, São Paulo: Record, 2007, p. 16). Quem institui a ordem social, institui também a ordem jurídica e os castigos. Quem tem o poder de castigar tem também o poder de não castigar.
Como se vê, levando-se em conta a trilogia sexo, poder e dinheiro, dentro dos dois Brasis estão distribuídos dois tipos distintos de cidadãos: os que p (h) odem tudo impunemente e os que não p (h) odem impunemente.
CAROS internautas: sou do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) e recrimino todos os políticos comprovadamente desonestos assim como sou radicalmente contra a corrupção cleptocrata de todos os agentes públicos (mancomunados com agentes privados) que já governaram ou que governam o País, roubando o dinheiro público. Todos os partidos e agentes inequivocamenteenvolvidos com a corrupção (PT, PMDB, PSDB, PP, PTB, DEM, Solidariedade, PSB etc.), além de ladrões, foram ou são fisiológicos (toma lá dá ca) eultraconservadores não do bem da nação, sim, dos interesses das oligarquias bem posicionadas dentro da sociedade e do Estado. Mais: fraudam a confiançados tolos que cegamente confiam em corruptos e ainda imoralmente os defende.
[1] Ver GASPARI, Elio – http://oglobo.globo.com/opiniao/os-lencois-de-brasilia-18734983, consultado em 24/02/16.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015




LEONENCIO NOSSA, jornalista

Então, as crônicas de Rubem Braga sobre o Rio Doce tornaram-se imagens de um mundo longínquo no tempo, na geografia. Lembrei do livro antigo e também de seu Amâncio, doqueiro que relatava histórias fascinantes do gigante que cortava o Espírito Santo, vindo de longe...É preciso dizer, na autocrítica que corrói por dentro, que o rio há muito tempo já era um amigo distante, que deixamos de visitar. A nossa visão tornou-se um levantamento frio de dados e o que pensa o homem do governo encarregado de reunir números nos sites oficiais, o juiz, o procurador e o instituto de pesquisa. É uma visão turva e pesada como são agora as águas do rio da menina que colhia ingá e oferecia o fruto ao cronista. 
Alguma justiça seja feita: existiu e existe uma produção de narrativas sobre o rio e as mineradoras de repórteres e editores heróicos, que ainda dão um duro danado nas redações da vida. Agora, talvez seja necessário dizer que, na nossa companhia no mundo da indiferença, talvez estejam a academia, a literatura, o cinema, o Ministério Público, a Justiça. A escala para medir distâncias inexplicáveis talvez passe pela análise de notícias, assim como pela avaliação do que foi feito nos últimos anos pela UFMG, pela UFES, pela UFPA e pelo pessoal conceituado dos romances e dos filmes, sempre citado nos cadernos de cultura. Não é que gostaria de ler uma tese, assistir a um filme, ler um romance e folhear uma ação civil robusta sobre o drama das meninas dos rios Parauapebas que correm em Minas e no Pará, o desemprego em Itabira e o fuzilamento de trabalhadores pela polícia para atender a um pedido de desobstrução de uma ponte feito por executivos da mineração. Acho apenas importante uma crônica com a força de quem percorre a pé e não de forma virtual o Brasil.
É possível que um dia alguém escreverá um livro denso sobre milhares de homens pobres que, no começo dos anos 1980, forçaram a ditadura a tirar a Vale do garimpo - um dos maiores movimentos da história das lutas populares da Amazônia. Ou faça um trabalho que não seja no "calor da hora" sobre a esperteza de um grupo de executivos que, no processo de venda da mineradora, ficou com o controle das ações destinadas aos trabalhadores. 
Estou certo que um dia comprarei um documentário sobre a entrega, mais recentemente, da lendária Serra Pelada para um grupo de executivos ligados à mineradora, um esquema de lavagem de dinheiro. Numa sala de faculdade, alguém defenderá uma tese sobre a relação de autoridades públicas e mineradoras ao longo dos últimos 20 anos, sem interrupção. Um seminário discutirá a semiótica da propina. E, após passar nas provas de um concurso do Ministério Público, o futuro procurador terá uma súbita vontade de fazer carreira no interior, recusando-se a tratar um pedaço de seu país como um mero trampolim. 
O holofote estará em qualquer lugar, inclusive no universo dos lobistas de grupos que provocam essas grandes tragédias admitidos como filiados pelos dois maiores partidos que travam uma guerra exclusivamente de poder. O Caboclo Bernardo, um dos gigantes da história real, se revelará vivo na trajetória de muita gente hoje sem voz. Minas, o vizinho das cabeceiras, voltará a ser, pelo menos, um retrato na parede, pintado por algum admirador de Carlos Drummond de Andrade. Nesse dia, as almas dos intelectuais brasileiros - e a minha própria - terão, novamente, alguma porcentagem de ferro.