quinta-feira, 31 de março de 2016

Lembranças de 'Mani Pulite'



*Retirado da coluna do Contador Calligaris. Folha, quinta-feira, 31/3/16.


No começo dos anos 1990, na Itália, um grupo de magistrados milaneses (o mais popular foi Antonio di Pietro) tentou acabar com os esquemas de corrupção (antigos e tradicionais) que ligavam empresários, financistas e políticos.
Esse sistema viciado enchia os bolsos dos políticos (pessoas físicas) e financiava os partidos com comissões que as empresas pagavam para ganhar contratos públicos.

Anos antes, Sandro Pertini, presidente da República (honesto), declarara que um político deveria sempre ter as mãos limpas ("le mani pulite"). A expressão ficou e voltou em 1992, para batizar a "operação" dos magistrados milaneses.
Naquela década, eu vivia entre o Brasil e os EUA, mas visitava regularmente meus pais e meu irmão em Milão —por isso mesmo, minhas impressões daqueles anos são sobretudo o reflexo dos anseios e dos medos de meus familiares, que estavam lá, na Itália.

Já nos anos 1980 e antes (pela podridão do "milagre italiano", que reconstruiu o país depois da Segunda Guerra Mundial), havia uma tremenda desconfiança dos italianos diante da política tradicional.

Salvavam-se só os comunistas. Mas isso talvez fosse uma ilusão de óptica produzida pela minha própria história de militância. Ou pelo fato de que os comunistas ficaram quase sempre longe do poder executivo nacional.

O fato é que, para o italiano médio, qualquer governo roubava e roubaria. Os brasileiros não pensariam (não pensam) muito diferente: o grito "Roma ladra" poderia facilmente ser traduzido, ainda hoje, como "Brasília ladra".

A partir de "Mani Pulite", em 1992, ganharam espaço um movimento antimáfia e anticorrupção (fato curioso: ele se chamava "La Rete", a rede), e um movimento de direita do qual Bolsonaro, Feliciano e companhia gostariam (a Liga Norte).
De qualquer forma, a opinião pública estava, forte e unida, com o Ministério Público e com os juízes.

Pipocavam escritas nos muros de Milão: "Di Pietro, não volte atrás! Não perdoe!". De uma, em particular, me lembro bem —a que eu li estava num muro de tijolos, talvez na parte externa da Universidade de Milão: "Di Pietro, facci sognare" (Di Pietro, faça a gente sonhar).

Era isso mesmo, os italianos sabiam que aquilo seria, ao menos em parte, um sonho.

Os inimigos naturais de "Mani Pulite" se oporiam de todas as maneiras possíveis. De 1992 a 1996, políticos tradicionais e empresários desonestos lutaram para sujar os magistrados milaneses —foi sem muito efeito. No meio de 1992, os juízes Giovanni Falcone e Paulo Borsellino foram assassinados pela Máfia (a relação entre a Máfia e a classe política era o pano de fundo sombrio da corrupção).
Mesmo assim, aos poucos, na Itália, o jeito de fazer política mudou para sempre. Sumiram os partidos que tinham se tornado instituições fisiológicas. Imagine o que isso poderia significar hoje no Brasil.

A política italiana de hoje (a própria figura do primeiro-ministro Renzi) seria impensável sem "Mani Pulite". E ela é infinitamente melhor do que ela era no passado.

Há quem diga, aqui no Brasil, que o resultado de "Mani Pulite" foi Berlusconi. Isso é historicamente falso: ao contrário, Berlusconi se instalou no poder por uma década a partir de 2001, justamente quando os italianos se cansaram de "Mani Pulite".

Porque, de fato, eles se cansaram. De quê? Do fedor da lama? Do clima paranoico? Será que o mesmo cansaço nos espreita?

Não sei, mas o fato é que, em geral, quando a corrupção é o sistema de governo, é porque ela é também a forma dominante da vida social, pública e privada.
Você dá R$ 20 a um colega para que ele faça seu dever de casa. Isso é possível porque os políticos, lá em cima, são corruptos? Ou é o contrário: os políticos, lá em cima, se permitem ser corruptos porque sabem que a corrupção é a regra aqui em baixo, na nossa vida cotidiana?

O cidadão médio vive de pequenas corrupções: venda e compra de pontos na carteira, notas fiscais não emitidas, colas numa prova, pequenas sonegações e fraudes...

Ele pede transparência e honestidade até se dar conta de que muitas de suas ações são filhas da mesma confusão que ele denuncia no político: uma incapacidade de distinguir os interesses públicos dos interesses privados.

Não basta que uma boa faxina seja pelas calçadas e pelas praças; ela precisa acontecer em casa. Isso seria uma verdadeira mudança cultural...

Vou continuar sobre público e privado. 

domingo, 27 de março de 2016

Jornalista do nada

Com a internet e a facilidade de acesso a novas tecnologias, qualquer cidadão pode ser um jornalista em potencial. Basta estar com um smartphone (celular inteligente) para a mágica acontecer. Cada vez mais pessoas presenciam acontecimentos relevantes e os registram, seja com fotos ou por meio de vídeos. Programas e noticiários de TV perceberam esse rico material e têm fomentado cada vez mais a sua utilização. É o jornalismo colaborativo. Em um momento em que as redações estão cada vez mais enxutas de jornalistas "formados", é a saída para a crise, dizem os gestores.

Aí está o exemplo mais recente. Uma ativista, identificada apenas como Ana Claudia, reconheceu por acaso o ministro do STF Celso de Mello passeando em um shopping e o abordou. O ministro topou ser filmado e respondeu as suas perguntas. Bingo! O que é isso senão uma entrevista? Estar no lugar certa, na hora certa e ter em mente as perguntas certas. Ana Claudia preencheu todos esses requisitos e a entrevista repercutiu tanto nas redes sociais, num primeiro momento, como nos principais veículos de informação.

Todos, agora, são jornalistas em potencial. Abaixo, a notícia da Folha:

Ministro do Supremo diz que corrupção tomou conta do governo

Em vídeo na internet, Celso de Mello afirma que impeachment não e golpe






segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sexo nas cortes e pensões nebulosas para amantes e filhos: FHC, Lula, Collor, Renan...




Publicado por Luiz Flávio Gomes no Jusbrasil.

Introdução
Se já é difícil ter ciência das estrepolias que os donos do poder fazem em pé ou sentados, imaginem saber o que eles fazem deitados, debaixo dos lençóis[1], usando (indevidamente, claro) o dinheiro público (a soma de todos esses desvios cleptocratas, seguramente, gera danos sociais incomensuráveis).
Quando o gozo é deles (dos donos do poder) e a conta (sobretudo das pensões nebulosas) vai para nossos bolsos (de forma direta ou indireta), o assunto privado passa a ser de interesse público. Desnuda-se o manto da privacidade. Daí a série de artigos que segue (envolvendo FHC, Renan, Lula, Collor etc.).
FHC, depois das confissões de sua ex-amante Mirian Dutra[2] (nos anos 80/90), perguntou: “Por que discutir como se fosse pública uma questão privada”?
A questão deixa de ser privada quando há provas ou fundadas suspeitas de envolvimento do dinheiro público (no seu caso, uma concessionária das lojas duty freee dos aeroportos brasileiros, que fez um contrato fictício de emprego com a ex-amante de FHC, para complementar seus rendimentos).
Todo gozo alheio (gozo dos donos do poder) que tangencia os bolsos dos contribuintes passa a ser um gozo nacional, submetido à necessária transparência que a vida republicana exige (pouco importando o partido ou a ideologia do dono do poder – o povo tem direito de saber tudo sobre corrupção, independentemente da coloração partidária ou ideológica do corrupto).
Capítulo I – Renan Calheiros e Mendes Júnior
Renan Calheiros é um emblemático político do jeito antigo que deveria ser abolido do Brasil, que se tornou o paraíso da cleptocracia não por acaso: aqui o Estado é dominado e governado por agentes públicos e privados que fazem da corrupção endêmica e das pilhagens sistêmicas uma das fontes de acumulação indevida e impune de riqueza.
O medonho escândalo de 2007 do senador com a Mendes Júnior – que o levou a renunciar à presidência do Senado para salvar seu mandato – não teve resposta judicial até hoje. Seu processo foi tirado da pauta do STF (em fev/16). A presunção de impunidade dos barões ladrões, no seu caso, continua com todo vigor.
“Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado.
Ninguém respeita a constituição.
Mas todos acreditam no futuro da nação.
Que país é esse?” (Legião Urbana, composição de Renato Russo, 1987).
O senador Renan teve uma filha extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso. Até aqui, o lado privado da questão. A empreiteira Mendes Júnior, por interpostas pessoas, pagava à jornalista, em dinheiro corrente, o valor de uma pensão mensal da filha. Isso era feito em virtude das emendas que o senador fazia aprovar em benefício da empreiteira. O gozo do senador virou assunto público.
Em um país que é o paraíso da cleptocracia a regra é clara: faça filhos e mande a conta para todos. Tudo se tolera, até mesmo o pagamento de pensão de filho alheio com o dinheiro público. Mas isso não constitui motivo suficiente para sensibilizar o STF, a ponto de receber a denúncia contra o senador, excluindo-o da vida pública.
O ex-Procurador-Geral da República (Roberto Gurgel) só ofereceu denúncia contra Renan em 2013 (seis anos depois dos fatos), precisamente quando o senador foi reeleito para a presidência do Senado (como se ficha limpa fosse). Que país é esse?
A denúncia está no STF há mais de 1.100 dias. Imputam-se os crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. Mais do que corrupção endêmica (pública e notória), um país somente se transforma em paraíso da cleptocracia quando todas as instituições (políticas, econômicas, jurídicas e sociais) fracassam em suas funções (destacando-se aí as instituições jurídicas assim parte da sociedade civil, tolerante com a desfaçatez dos agentes públicos).
Sexo, poder e dinheiro
Sexo, poder e dinheiro, como objetos (inconscientes ou conscientes) do desejo, marcam o affaire Renan Calheiros-Mônica Veloso. O objeto do desejo, psicanaliticamente, é revelado pelo exibicionismo ou pelo voyeurismo. O par complementar do exibicionismo é o voyeurismo. Mônica pousou nua. Com ou sem publicidade, o nu gera enorme excitação.
O psicanalista Renato Mezan, na época dos fatos, explicou: “ao nos entregarmos ao deleite de a olhar, colocamo-nos na mesma posição daqueles com quem ela teve relações. Ora, Mônica Veloso certamente teve outros namorados, mas é com o senador Calheiros que se identifica quem compra a “Playboy” ou acessa o site da revista” (Folha de S. Paulo de 14.10.07, Mais, p. 4).
Todos gostaríamos, diz o psicanalista, “de poder exibir impunemente aquela postura arrogante do senador alagoano, de poder pisotear impunemente as regras do convívio civilizado e de impor nossa vontade aos outros com truculência. Ao comer com os olhos a mulher que foi dele, usufruímos por um instante dos prazeres que ele desfrutou” (Renato Mezan). O articulista conclui: “no nosso inconsciente não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói”. Muitas vezes, o herói sem caráter macunaímico.
Mas o brasileiro concorda que alguém eleito para cargo público possa usá-lo como se fosse propriedade particular, em benefício próprio [inclusive da própria libido]? 10% estão de acordo com isso (Alberto Carlos Almeida, A cabeça do brasileiro, São Paulo: Record, 2007, p. 20 e 30). Outro enorme percentual tolera isso (do contrário o senador não teria ficado impune até hoje).
Por meio da corrupção, é frequente a trilogia sexo, poder e dinheiro protagonizar engendrados triângulos amorosos: o dono do poder (no caso, um senador) satisfez seu objeto do desejo (sexo), a empreiteira Mendes Júnior também alcançou o seu (dinheiro conquistado por emendas parlamentares) e a jornalista queria um espaço no mundo das celebridades, como escreveu Eliane Robert Morais, na Folha de S. Paulo de 14.10.07, Mais, p. 5).
Os que podem (os donos do poder) conquistam seus objetos de desejo fraudulentamente (corrupção, fraude em licitações, superfaturamentos, dinheiro em paraísos fiscais, lavagem de dinheiro etc.). Os que não podem (os que não são os donos do poder), o fazem violentamente. Os consumidores platônicos, sem meios para consumir licitamente, se obrigam a algum tipo de ilegalidade (quando querem se apoderar de algum objeto de desejo).
Os que podem e mandam (os donos do poder) contam com a prerrogativa de abusar e transgredir (impunemente) as regras da civilização e da moralidade. As contas dos seus objetos de desejo, muitas vezes, são pagas pela população. A ilegalidade dos donos do poder (Foucault) acontece normalmente por meio da fraude. Os despossuídos, que são os chamados “sujeitos monetários sem dinheiro” (sujeitos que vivem sem salário, emprego etc., consoante Roberto Schwarz), alcançam a mesma ilegalidade mais comumente por outro caminho: pela violência.
Cada um usa a linguagem, os recursos e meios que conhece. A isso Roberto Schwartz deu o nome de “desigualdade social degradada”: os donos do poder cleptocratas assim como seus súditos criminosos se merecem mutuamente; nem existe a pureza popular, nem a elite nunca abandonou suas roubalheiras, que constituem uma das formas de se menosprezar os miseráveis. Não existe, portanto, nem a decantada pureza proletária nem tampouco a benevolência inculpável na opulência.
De um lado, “trabalhadores desmoralizados pelo desemprego e rendidos ao imaginário burguês; de outro, uma burguesia ressentida e lamentável, invejosa de suas congêneres do Primeiro Mundo e queixosa de não morar lá, além de amargurada com a insegurança local, que azedou os seus privilégios” (Roberto Schwarz, Folha de S. Paulo de 11.08.07, p. E9). Aliás, também a operação Lava Jato está amargurando os barões ladrões ressentidos.
A que conclusão se chega? A luta de classes no Brasil foi substituída pela “desigualdade social degradada”. Ninguém mais está satisfeito. E o pior: não há “nenhuma perspectiva de progresso, que torne o país decente”, sem corrupção, delinquência econômica e violência.
A presunção de im (p) unidade penal está previamente garantida aos que podem (veja o triângulo amoroso formado pelo senador, pela jornalista e pela empreiteira, até hoje sem nenhuma resposta do Judiciário). Para os destituídos de poder a presunção é outra: de culpabilidade.
O Brasil é um país hierarquizado (DaMatta). Com isso, a posição e a origem social são fundamentais para se definir o que se pode e o que não se pode fazer; para saber se a pessoa está acima da lei ou se teria que cumpri-la (Alberto Carlos Almeida, A cabeça do brasileiro, São Paulo: Record, 2007, p. 16). Quem institui a ordem social, institui também a ordem jurídica e os castigos. Quem tem o poder de castigar tem também o poder de não castigar.
Como se vê, levando-se em conta a trilogia sexo, poder e dinheiro, dentro dos dois Brasis estão distribuídos dois tipos distintos de cidadãos: os que p (h) odem tudo impunemente e os que não p (h) odem impunemente.
CAROS internautas: sou do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) e recrimino todos os políticos comprovadamente desonestos assim como sou radicalmente contra a corrupção cleptocrata de todos os agentes públicos (mancomunados com agentes privados) que já governaram ou que governam o País, roubando o dinheiro público. Todos os partidos e agentes inequivocamenteenvolvidos com a corrupção (PT, PMDB, PSDB, PP, PTB, DEM, Solidariedade, PSB etc.), além de ladrões, foram ou são fisiológicos (toma lá dá ca) eultraconservadores não do bem da nação, sim, dos interesses das oligarquias bem posicionadas dentro da sociedade e do Estado. Mais: fraudam a confiançados tolos que cegamente confiam em corruptos e ainda imoralmente os defende.
[1] Ver GASPARI, Elio – http://oglobo.globo.com/opiniao/os-lencois-de-brasilia-18734983, consultado em 24/02/16.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015




LEONENCIO NOSSA, jornalista

Então, as crônicas de Rubem Braga sobre o Rio Doce tornaram-se imagens de um mundo longínquo no tempo, na geografia. Lembrei do livro antigo e também de seu Amâncio, doqueiro que relatava histórias fascinantes do gigante que cortava o Espírito Santo, vindo de longe...É preciso dizer, na autocrítica que corrói por dentro, que o rio há muito tempo já era um amigo distante, que deixamos de visitar. A nossa visão tornou-se um levantamento frio de dados e o que pensa o homem do governo encarregado de reunir números nos sites oficiais, o juiz, o procurador e o instituto de pesquisa. É uma visão turva e pesada como são agora as águas do rio da menina que colhia ingá e oferecia o fruto ao cronista. 
Alguma justiça seja feita: existiu e existe uma produção de narrativas sobre o rio e as mineradoras de repórteres e editores heróicos, que ainda dão um duro danado nas redações da vida. Agora, talvez seja necessário dizer que, na nossa companhia no mundo da indiferença, talvez estejam a academia, a literatura, o cinema, o Ministério Público, a Justiça. A escala para medir distâncias inexplicáveis talvez passe pela análise de notícias, assim como pela avaliação do que foi feito nos últimos anos pela UFMG, pela UFES, pela UFPA e pelo pessoal conceituado dos romances e dos filmes, sempre citado nos cadernos de cultura. Não é que gostaria de ler uma tese, assistir a um filme, ler um romance e folhear uma ação civil robusta sobre o drama das meninas dos rios Parauapebas que correm em Minas e no Pará, o desemprego em Itabira e o fuzilamento de trabalhadores pela polícia para atender a um pedido de desobstrução de uma ponte feito por executivos da mineração. Acho apenas importante uma crônica com a força de quem percorre a pé e não de forma virtual o Brasil.
É possível que um dia alguém escreverá um livro denso sobre milhares de homens pobres que, no começo dos anos 1980, forçaram a ditadura a tirar a Vale do garimpo - um dos maiores movimentos da história das lutas populares da Amazônia. Ou faça um trabalho que não seja no "calor da hora" sobre a esperteza de um grupo de executivos que, no processo de venda da mineradora, ficou com o controle das ações destinadas aos trabalhadores. 
Estou certo que um dia comprarei um documentário sobre a entrega, mais recentemente, da lendária Serra Pelada para um grupo de executivos ligados à mineradora, um esquema de lavagem de dinheiro. Numa sala de faculdade, alguém defenderá uma tese sobre a relação de autoridades públicas e mineradoras ao longo dos últimos 20 anos, sem interrupção. Um seminário discutirá a semiótica da propina. E, após passar nas provas de um concurso do Ministério Público, o futuro procurador terá uma súbita vontade de fazer carreira no interior, recusando-se a tratar um pedaço de seu país como um mero trampolim. 
O holofote estará em qualquer lugar, inclusive no universo dos lobistas de grupos que provocam essas grandes tragédias admitidos como filiados pelos dois maiores partidos que travam uma guerra exclusivamente de poder. O Caboclo Bernardo, um dos gigantes da história real, se revelará vivo na trajetória de muita gente hoje sem voz. Minas, o vizinho das cabeceiras, voltará a ser, pelo menos, um retrato na parede, pintado por algum admirador de Carlos Drummond de Andrade. Nesse dia, as almas dos intelectuais brasileiros - e a minha própria - terão, novamente, alguma porcentagem de ferro.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Pornocracia: faça você mesmo a capa da revista

Ou como o amadorismo do sexo na Internet faz corar de vergonha e prejuízo os profissionais do mercado




É, mr. Miele, chegou um futuro mais estranho que a ficção científica. Um tempo em que se consome café sem cafeína, cerveja sem álcool, bolo sem açúcar, moela gourmet, feijoada completa light e Playboysem mulher pelada. Até a couve, pasme, fugiu de alguns pratos típicos e virou suco detox... E a gente ainda não viu nada.
Repare que mesmo o final de relacionamento, amigo, não tem mais lágrimas, se acaba namoro até por uma lacônica mensagem de texto ou por um emoticon sem graça, uma carinha de bunda ruborizada usando os óculos escuros da covardia amorosa. Acontece, rola sim, mas antes que confundam este libelo em defesa da vida intensa com supostas ideias mofadas, vamos focar, meu velho Miele, apenas no caso da revista e da ideia atualíssima de erotismo.
Espere aí, obediente leitor(a), não mande nudes agora, reflita com a colega Milagros Pérez Oliva, que escreveu sobre o assunto neste El País: “Em tempos de Internet, o sexo já não é mais tabu. O erotismo, expresso em forma de nu feminino mais ou menos artístico, está em baixa, varrido por uma pornografia descaradamente explícita que está ao alcance de qualquer um”.
Pode ser. Não vejo, todavia, esse cenário como negativo ou nada apocalíptico. O nu agora é infinitamente mais democrático. A pornocracia, pelo menos nos campos virtuais, vingou de vez. Toda nudez será publicada e amostrada, tio Nelson. Não mais propriedade exclusiva da estrela na capa da revista. É, de certa forma, a vingança do amadorismo e a quebra do padrão da gostosa-celebridade.
Ousada a decisão da matriz norte-americana de fazer uma espécie de strip-tease ao contrário nas suas páginas
Palavra de um amante radical dePlayboy que viu suas próprias mãos ficarem peludas, qual o truque de espelhos da Monga, nestes 40 anos da edição brasileira. Agora mesmo folheio na memória as Moniques, Lumas, Isadoras, Ísis, Veras, Bárbaras, Closes, Maitês, Brondis, Julianas, Sônias, Sabrinas, Tiazinhas, Feiticeiras, Cléos, Negrinis, Xuxas, Ohanas, Brunets, Galisteus...

Vista a roupa, meu bem

Ousada a decisão da matriz norte-americana de fazer uma espécie de strip-tease ao contrário nas suas páginas. As mulheres aparecerão vestidas. Em meio a tanta fartura de erotismo e pornografia no cabaré da Internet, pode ser revolucionário –a Playboy gringa sempre foi muito tesuda também de conteúdo. A versão tupiniquim, que também enfrenta crise de disfunção eréctil-econômica, ainda não decidiu se tomará o mesmo destino gutenberguiano. Que nunca broche de vez.
Estamos perdendo o fio do enredo nesses momentos profanos e sagrados. A morte da punheta de autor ou autoral
Agora sim, pode soltar a primeira peça de roupa, leitor(a). Tenha cuidado, porém, para não vazar na rede a nudez. Sem julgamento moral, por favor, afinal de contas, a pornografia é o erotismo dos outros -quando se passa na nossa casa, chamamos de erotismo; na casa do vizinho, julgamos pornografia pura. Não é questão de estética ou gosto. É, para variar, a patrulha moral do bairro chamado mundo. Viver é uma ideia provinciana, esteja você em Nova York ou em Cajazeiras, Paraíba.

Viva a imaginação

A Playboy, nas suas versões multinacionais, poderia incentivar, na contramão da ansiedade pelo sexo explícito e imediato, o exercício da imaginação que estamos perdendo. Principalmente os homens. De todas as faixas etárias.
Creio, na minha teoria de Sigmund Freud de boteco, que a facilidade do acervo erótico diminuiu a nossa capacidade de criar historinhas, inclusive nas sessões masturbatórias.
Estamos perdendo o fio do enredo nesses momentos profanos e sagrados. A morte da punheta de autor ou autoral, como diria, em um delírio típico dele, o genialíssimo messiê Lacan.

Último pedido

Digamos que a Playboy brasileira, amigo(a), decidisse seguir a matriz. Pura viagem, nada baseada em fatos reais, caríssimo Sérgio Xavier, competente diretor de redação aqui nos trópicos. Divaguemos mais ainda: quem você escolheria, leitor, como a mulher dos sonhos -vale qualquer uma mesmo!- para ser a capa derradeira? Favor evitar repeteco. Vamos sonhar um sonho inédito e alto, como estivéssemos nos tempos dos cachês milionários. Quem?
A Vanessa Giácomo, a Tóia da novela “A regra do jogo”? A Bruna Linzmeyer, Nelita Stewart no mesmo folhetim televisivo? Quem sabe uma criatura da novela “Os dez mandamentos” –você sabia que a Bíblia é considerada um dos livros mais eróticos da humanidade? Por que não uma anônima rainha dos nudes de redes sociais? A sua própria garota, quem dera, como na profética música “Revista Proibida” de Odair José?
A utópica Fernanda Lima totalmente “Amor & Sexo”? A lolita de “Verdades Secretas”? Uma intelectual como apostou o último calendário Pirelli? Seja quem for a escolhida, o fotógrafo sou eu quem indico: J. R. Duran, óbvio, este sabe da arte de mirar uma fêmea.
Não se limite ao possível. Pode dizer de boca cheia Camila Pitanga, mesmo que ela esteja longe de topar a missão. A Tainá Müller? Sim, vale sonhar sempre. Taís Araújo? A Trip deu primeiro, gozaria, nabuena onda, o diretor Paulo Lima, revigorando um slogan clássico da sua revista.
Faça sua aposta, agora curta os nudes amadores à vontade e bom final de semana.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O entregador de pão

Fez uma semana que não recebemos mais pães aqui na casa de minha avó. O padeiro, já em idade avançada, disse que vai parar com as entregas porque "faltam clientes", de maneira que não é mais viável ele ter de se deslocar de sua casa para a nossa região a troco de duas ou três casas na rua.

Bachan (avó, em japonês) me contou que ele entregou pães aqui por mais de 30 anos. De segunda a sábado, ao amanhecer, ele parava o carro em frente a casa, subia o primeiro lance de escadas e deixava pendurado na maçaneta de dentro do portão a sacola com os pães fresquinhos. Nunca atrasou, nunca deixou de vir, nunca o pão veio diferente.

Antes, vinha embalado numa sacola maior, já que mais pessoas moravam aqui. Mas aí meu tio Cesar (o mais novo dos filhos) casou-se e saiu de casa. O tempo levou meu jichan e aí a meia-dúzia de pães foi reduzida a quatro.

Mas o pão francês que recebíamos era o pão mais fresquinho e crocante que já comi em vida. Ficamos muito chateados. Vai fazer muita falta esse pãozinho fresco de café da manhã.

Apenas uma única vez eu cruzei com o padeiro vindo deixar o nosso pão-de-cada-dia. Disse a ele que era um dos netos da dona Maria. Ele logo perguntou sobre minha avó, sobre sua saúde etc. Disse que ia tudo bem com ela e refiz a pergunta. Ele se queixava das dores na coluna (vi a dificuldade dele se apoiando no corre-mão para subir as escadas). Estava nervoso na semana porque comprara uma cama, mais alta, dessas lojas de varejo que nos aporrinham nos comerciais de TV, mas ainda aguardava que alguém fosse lá na casa dele montá-la.

"Hoje não há mais respeito com você. Ninguém mais lhe respeita. Você entra na loja e ficam lhe tratando bem até você fazer a compra. Depois que você passa pela porta, o respeito acaba. Precisa ver como fui maltratado ao telefone. Estou com a cama lá em casa desmontada há duas semanas. Ninguém vem montar. Comprei-a justamente porque tenho um problema sério de coluna, preciso até operar", ele me revelou.

Eu lamentei com ele essas coisas. A cidade cresceu. Os serviços mudaram. É muita gente num mesmo lugar precisando das mesmas coisas. Ao mesmo tempo, já não há mais aquela paixão pelo comércio, aquela coisa herdada de família que passa de geração para geração. Para fazer uma reclamação hoje, você não vai mais direito na pessoa que lhe vendeu; vai falar por telefone com um departamento específico que só lida com isso o dia inteiro. As relações humanas estão estremecidas e ninguém mais tem respeito e interesse pela vida do outro.

Nos despedimos, lamentei seu litígio, desejei-lhe melhoras e nunca mais o vi. Espero que tenha conseguido montar sua nova cama. Espero que tenha melhorado de saúde. Minha avó veio me contar que ele havia avisado que pararia de entregar pães aqui. Pedi a ela que lhe desse um dinheiro para demonstrar nossa gratidão.

Na última vez que veio, ela ficou o esperando no quintal. Na despedida, ela disse que a meu pedido estava dando a ele um dinheirinho em sinal de retribuição. Minha avó disse que ele não conseguiu disfarçar a emoção e foi embora.

Fiz o que tinha de ser feito. Uma pessoa que por 30 anos entregou os melhores pães em sua casa mereceria muito mais. Estou errado? Sei que ele estava deixando o serviço com muita tristeza. Só queria que saísse daqui sabendo que reconhecemos o seu trabalho e que sentiríamos - muito! - a falta de seus pães.

Fico triste em perceber que São Paulo vai perdendo o padeiro, o tintureiro, o jornaleiro... Aos poucos, vamos perdendo contato com as pessoas e vamos comprando tudo pelo computador. Assim somos uma massa comum para redes de varejo, empresas de telefonia, operadores de TV e o que mais nos cerca.

Minha avó também perdeu o farmacêutico dela. Ele sabia de cor os remédios que ela tomava, aplicava-lhe injeção quando adoecia e lhe tirava a pressão frequentemente. Teve que fechar pois não aguentou a concorrência de três gigantes redes que abriram praticamente no mesmo lugar na Heitor Penteado.

E assim minha avó vai perdendo suas referências e eu fico com medo de também perder a minha.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

"Mad Men": Costumes, Comportamento e Valores de uma Sociedade



Aderi recentemente à prática de assistir conteúdo on demand, essa nova maneira de consumo televisivo. Como não disponho de muito tempo livre, só consigo acompanhar uma série por vez. Ouvi de muitos amigos e me chegou muita propaganda de séries premiadas que estão em evidência, como "Breaking Bad" e "The Walking Dead". Comecei as duas, mas acabei não dando continuidade.
Estou agora acompanhando "Man Men". Entrei na terceira temporada, e, se tivesse mais tempo, com certeza estaria assistindo a mais de um episódio por dia.



 Crítica pertinente de Maurício Stycer a respeito da produção:

Retrato de época

terça-feira, 6 de maio de 2014

O gesto bananizado



O futuro chegou e transformou tudo em lata de sopa Campbell’s – até a banana de Daniel Alves

RUTH DE AQUINO
06/05/2014 07h00 - Atualizado em 06/05/2014 08h59

No primeiro dia, foi o gesto genial. Era um domingo. Ao se curvar no campo do estádio espanhol, descascar a banana, comê-la de uma abocanhada e cobrar o escanteio, Daniel Alves assombrou o mundo. Não só o mundo do futebol, esse que chama juiz de “veado” e negro de “macaco”. O baiano Daniel, mestiço de pele escura e olhos claros, assombrou o mundo inteiro extracampo. Vimos e revimos a cena várias vezes. “Foi natural e intuitivo”, disse Daniel, o lateral direito responsável pelo início da virada do Barcelona no jogo contra o Vilarreal. Por isso mesmo, por um gesto mudo, simples, rápido e aparentemente sem raiva, Daniel foi pop, simbólico, político e eficaz.
Só que, hoje, ninguém, nem Daniel Alves, consegue ser original por mais de 15 segundos. Andy Warhol previa, na década de 1960, que no futuro todos seríamos famosos por 15 minutos. Pois o futuro chegou e banalizou os atos geniais, transformando tudo numa lata de sopa de tomate Campbell’s. A banana do Daniel primeiro reapareceu na mão de Neymar, também vítima de episódios de racismo em estádios. Neymar escreveu na rede em defesa do colega e dele próprio: “Tomaaaaa bando de racistas, #somostodosmacacos e daí?”. Uma reação legítima, mas sem a maturidade de Daniel. Natural. Há quase dez anos de estrada de vida entre um e outro.
Imediatamente a banana passou a ser triturada por milhares de “selfies”. O casal Luciano Huck-Angélica lançou uma camiseta #somostodosmacacos. Branco, o casal que jamais correu o risco de ser chamado de macaco apropriou-se do gesto genial, por isso foi bombardeado por ovos e tomates na rede, chamado de oportunista. A presidente Dilma Rousseff, em seu perfil no Twitter, também pegou carona no gesto de Daniel “contra o racismo” e chamou de “ousada” a atitude dele. Depois de ler muitas manifestações, acho que #somostodosbobos, a não ser, claro, quem sente na pele o peso do preconceito.
“Estou há 11 anos na Espanha, e há 11 anos é igual... Tem de rir desses atrasados”, disse Daniel ao sair do gramado no domingo. Depois precisou explicar que não quis generalizar. “Não quis dizer que a Espanha seja racista. Mas sim que há racismo na Espanha, porque sofro isso em campos (de futebol) diferentes. Não foi um caso isolado. Não sou vítima, nem estou abatido. Isso só me fortalece, e continuarei denunciando atitudes racistas.”
Tudo o que se seguiu àquele centésimo de segundo em que Daniel pegou a fruta e a comeu, com a mesma naturalidade do espanhol Rafael Nadal em intervalo técnico de torneios mundiais de tênis, como se fizesse parte do script, tudo o que se seguiu àquele gesto é banal. Os “selfies”, a camiseta do casal 1.000, o tuíte de Dilma, as explicações de Daniel após o jogo, esta coluna. Até a nota oficial do Villareal, dizendo que identificou o torcedor racista e o baniu do estádio El Madrigal “para o resto da vida”. Daniel continuou a evitar as cascas de banana. Disse que o ideal, para conscientizar sobre o racismo, seria fazer o torcedor “pagar o mal com o bem”.
De toda a “bananização” do gesto de Daniel, a mais ironizada foi de Huck e sua mulher. Ele já explicou que não lucra nada com a camiseta. Huck não se emenda e escorrega na fama. Acha que é unanimidade no Brasil, mas ninguém é. Poucos podem ser brilhantes ao agir sem pensar. Em 2009, Huck foi vítima de assalto. Levaram seu Rolex em São Paulo. Contando com uma onda de solidariedade, Huck publicou um artigo no jornal Folha de S.Paulo. Escreveu que, caso morresse com um tiro de 38, deixaria “uma pobre criança órfã e uma jovem viúva”, “uma multidão bastante triste”, “um governador envergonhado” e “um presidente em silêncio”. Sua morte, escreveu Huck, seria “a manchete principal no Jornal Nacional”. Provavelmente verdade.
As banalidades, os plágios e as mentiras proliferaram com o Facebook. Redes sociais são bastante úteis, especialmente em ditaduras, democratizam o acesso à informação, ajudam os solitários a se conectar, mas são excelentes ferramentas para perder amigos. Tornaram-se também palco de intolerância e exibicionismo. O Facebook começa a afugentar muitos, pela quantidade de bobagens e pela perda de tempo de leitura e outros hábitos prazerosos.
De chorar de rir são as traduções automáticas, do português para o inglês, das manifestações na rede. Quando alguém sensato protestou, na semana passada, ao escrever que “pegar carona no gesto do Daniel Alves, uma bela sacada contra o racismo, é dose pra leão”, o Facebook explicou aos gringos : “Hitchhiking in the gesture of Daniel Alves, a beautiful balcony against racism, is dose to Lion”. Imagina na Copa...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt 2013

Do Estadão.com.br:

Em seu discurso de abertura na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato fez uma pesada crítica às desigualdades sociais brasileiras. Entre outras questões, falou do passado escravagista, de violência, da população carcerária e de homofobia. Leia a íntegra do discurso a seguir:

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O escritor Luiz Ruffato  - Divulgação
Divulgação

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dia internacional do Surfe







Ela anda sem destino ao nosso redor, envolta em preto, em sua vestimenta sagrada, seus olhos penetram profundamente e nós desviamos o olhar.

Ela controla a besta amarela e a impulsiona a uma velocidade impressionante. Através da areia, do vento e das pedras, ela se aproxima. Então o silêncio. Então as nuvens. Então a escuridão. 

Nos braços abertos de uma grande montanha reside arte eterna em descanso. Ela nos guia e nós a seguimos. Ela é um raio negro. Suas mãos se juntam e ela nos dá o presente.

Girando. Ondulando. Dançando. Eletric Blue Heaven.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pânico no salão


Contra arrastões em restaurantes e bares, o Governo do Estado de São Paulo anunciou que irá aumentar as patrulhas policiais em dias festivos, uma medida que soa ridícula, pois é óbvio que não haverá assaltos quando as ruas estiverem abarrotadas de gente. Desde o começo do ano até agora, segundo a contagem da Folha, foram 22 os casos de roubos a esses estabelecimentos, todos localizados nos pólos gastronômicos de São Paulo, e 18 desses praticados entre 22h e 1h da madrugada. Os dias com maior incidência são às terças e quartas-feiras.

A mídia prefere inflamar o clima de insegurança provocado por esses arrastões: dá voz exagerada a clientes, vítimas indignadas com o fato de terem seus bens subtraídos de um local em que foram para deleitarem-se ("Sempre achei que aqui fosse seguro. Jamais esperava por isso." E por aí vai...). Os comerciantes, mais racionais, buscam analisar o fato com frieza para não espantarem sua clientela: "Iremos providenciar botões antipânico, instalaremos também câmeras de segurança nas partes interna e externa." Não sem também responsabilizarem a polícia, que vem classificando a onda delituosa como um "modismo" adotado por bandidos que, em geral, são quadrilhas de jovens menores de idade. Segundo a polícia, 14 bandidos de uma mesma quadrilha já foram pegos. Eles moravam no Glicério, bairro violento próximo à Sé e Avenida do Estado.

Discutindo o assunto com meu pai, ele lançou uma questão que até agora não vi ser debatida: será que a ousadia dos bandidos de invadirem estabelecimentos cheios, em regiões nobres da capital, não está ocorrendo porque os mesmos sabem que a população está desarmada?

Sei que a Lei do Desarmamento contribuiu muito para reduzir os índices de criminalidade, principalmente a taxa de homicídios, que era acima de 30 por grupo de 100 mil habitantes em São Paulo dez anos atrás. No entanto, ao desarmar a população, também abriu-se precedente para os criminosos agirem mais confiantes, pois sabem que dificilmente suas vítimas agirão.

Creio que os arrastões em bares e restaurantes têm sido noticiados semanalmente porque as quadrilhas sabem que os comerciantes não possuem porte de arma, tampouco os clientes que ali estão. Preferiram deixar de atuar nos semáforos, individualmente, para, em grupo, invadirem um local com alta concentração de cartões de crédito, dinheiro, celulares, jóias e notebooks.

Nosso país deveria flexibilizar o porte de arma. Oferecer a quem não tenha antecedentes criminais e possua diploma de nível superior, um curso completo de tiro, desde a prática até submeter a pessoa a exames psicoténicos etc.

Antigamente, meu pai me disse, os comerciantes guardavam suas armas em baixo do balcão e ladrão nenhum roubava seu comércio com tanta facilidade como hoje em dia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma revolução tal qual a Leica

A segunda edição da revista Zum (Instituto Moreira Sales) traz neste semestre interessante material de guerra. Tratam-se de fotos do coletivo Basetrack, composto por dois fotógrafos húngaros, uma canadense e mais um inglês, que foi criado em 2010 para, juntos, acompanharem o cotidiano de um grupo de fuzileiros navais norte-americanos no Afeganistão.

O inovador desse projeto é que, no lugar de câmeras profissionais, os quatro viajantes foram munidos apenas com seus Iphones para fazerem o material de guerra. A ideia de acompanharem o dia a dia dos militares americanos somente com smartphones surgiu por conta da carência que as famílias desses vinham sentido.

A aproximação quase que irrestrita ao batalhão durou sete meses e foi acompanhada pelos familiares através das redes sociais. Dessa forma, nasceu um álbum que é um importante registro histórico, ao mesmo tempo em que não deixa de ser intimista e familiar. Coisa bem bacana mesmo (veja fotos mais abaixo).

Mas uma hora, é claro, a invasão de intimidade incomodou o governo norte-americano, e, aí, o coletivo teve que regressar do deserto.

Não é a primeira vez que se usa celular para registrar uma guerra. É cada vez mais recorrente o uso dessa ferramenta, principalmente devido à sua mobilidade, funcionalidade e sua facildade de compartilhamento de fotos. Praça Tahir no Cairo, Wall Street, na captura do ditador líbio Muammar Kadafi. Tal qual a portátil Leica do começo do século passado, os celulares de hoje tornaram-se importantes instrumentos de registro da História.




















Agora, coloco também aqui em baixo a coluna do Luis Fernando Veríssimo publicada hoje no Estadão. Achei que ela tem bastante a ver com o assunto. Pura coincidência.

Como imaginar uma orgia

26 de abril de 2012 | 3h 10
Verissimo - O Estado de S.Paulo
 
A minicâmera e o grampo telefônico ainda podem fazer mais pela moral na política do que toda a fiscalização e todos os mandamentos cristãos juntos. Supõe-se que depois dos escândalos recentemente grampeados as pessoas fiquem mais cautelosas, ou mais reticentes. Corruptos e corruptores continuarão a existir mas não agirão nem falarão mais tão livremente, pelo menos não antes de procurar a câmera e o microfone escondidos. O que deve no mínimo dificultar os negócios.

Os avanços da técnica revolucionaram o registro histórico. Imagine se quando o Kennedy foi assassinado já existissem os gravadores e os celulares que hoje substituem as câmeras fotográficas até no aniversário do cachorro. Em vez daquele precário filme em 8 mm do atentado, estudado e reestudado quadro a quadro na busca de vestígios de uma conspiração, haveriam teipes e fotos de todos os ângulos e com todas as respostas, como a cara, o nome e o CIC dos possíveis conspiradores.

Mas a técnica, ao mesmo tempo que desestimula a falcatrua, comprova a denúncia, desmancha o mistério e enriquece a notícia, pode empobrecer nossa percepção dos fatos. As grandes batalhas e os grandes eventos da era pré-fotográfica foram registrados em quadros épicos em que o artista ordenava a cena em função do efeito, não do fato, ou não exatamente do fato. A Primeira Guerra Mundial não foi mais terrível do que muitas guerras anteriores, só foi a primeira guerra filmada, a primeira com a imagem tremida e sem cor, e por isso parece tão mais feia do que as guerras heroicamente pintadas. A guerra do Vietnã foi a primeira transmitida pela tevê, a primeira em que o sangue respingou no tapete da sala. Por isso deu nojo. Os americanos aprenderam a lição e transformaram sua invasão do Iraque num videogame.

Até surgir a possibilidade de ser tecnicamente denunciado, o político corrupto podia contar com a condescendência do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia sempre a suspeita de que não era bem assim. Sua culpa - até se ouvir sua voz gravada combinando a divisão dos milhões, ou ver sua imagem forrando os sapatos com dinheiro - era sempre uma conjetura. Imaginávamos o que acontecia nos bastidores do poder corrupto mas era um pouco como imaginar uma orgia romana, ou visualizar uma orgia romana através da imaginação de um artista. Agora não. Com a banalização do grampo telefônico e da minicâmera escondida, temos o que faltava no quadro. Temos todos os sórdidos detalhes e a orgia às claras. Temos o que enoja.