sábado, 10 de setembro de 2011

Pesadelo

(Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Quando um muro separa, uma ponte une
Se a vingança encara, o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua, ela um dia é nossa

Olha o muro, olha o poste
Olha o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí...

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente...olha eu de novo
Pertubando a paz, exigindo o troco
Vamos por aí, eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí...

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo-horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sequestro do embaixador dos EUA no Brasil

Com o recrudescimento do regime, a ALN e o MR-8 (Movimento Revolucinário 8 de Outubro) arquitetam o sequestro, em setembro de 1969, do embaixador norte-americano Charles Elbrick. Em troca, exigiram a libertação de presos políticos. Quinze deles foram soltos e se dirigiram para o México.



Após conseguirem êxito, as duas organizações escrevem juntas uma carta-aberta "Ao povo brasileiro", comunicando o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick:

Cartaz da ALN (Aliança Libertadora Nacional)

A ALN foi criada em 67, após a morte de Che na Bolívia, por Carlos Marighella. Foi uma das primeiras organizações de luta armada durante o regime 64-85.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Saiu o último trabalho do jornalista Fernando Morais

O livro será lançado aqui em São Paulo na semana que vem, terça-feira, 18h30, na Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis.

Abaixo, vídeo feito pela sua editora, a Companhia das Letras, no qual ele próprio conta de que se trata e como se deu a concepção da obra.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Batismo de Sangue

Nem só de organizações políticas viveu a resistência. A Igreja, no caso com os Dominicanos, foi às ruas manisfetar repúdio ao regime e deu assistência a perseguidos políticos, ajudando-os, por exemplo, a cruzarem a fronteira brasileira pelo sul, rumo a países como Argentina e Uruguai.






A tortura personificada no delegado de SP Fleury (Cassio Gabus Mendes):

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Retomando as atividades

Venho por meio deste informar que o feérico está retomando as suas atividades - depois de meses em stand by.

Os principais assuntos devem ser referentes à meu TCC.


Isto logo abaixo, entretanto, não tem referência alguma com ele. Enfim...

Colei um trecho de um romance a ser lançado agora no fim de agosto pelo jornalista Edison Veiga, do Estadão.

O livro chama-se Mingutas: correndo da carranca do carimbo, caramba!


das coisas da vida e suas implicações teóricas

Pessoas são engraçadas. Quando nascem, choram. Quando morrem, fedem. Reclamam que a vida é curta, mas morrem de tédio e ficam inventando passatempos pra matar o tempo: suicidas.
Pessoas são engraçadas. Nunca, mas nunca mesmo, se satisfazem completamente e ficam reclamando da dureza da vida da chatice do trabalho da azia dos filhos do fracasso do time de futebol das dificuldades da trigonometria das pedras do meio do caminho. Mas gostam de viver abominam o desemprego têm filhos porque querem amam futebol estudam por opção fazem poesia.
Pessoas são engraçadas. Inentendíveis, mas engraçadas. Complicadas, mas engraçadas.
Não quero ser humano.

Edison Veiga

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônica muito boa do Prata

Comecei a me interessar ultimamente pelos escritos do Antonio Prata. Por enquanto só conheço suas crônicas publicadas em sua coluna no caderno Cotidiano da Folha.

Nesta, a apresentação de "sua" doutrina religiosa - ateísmo puro com filosofia do bem viver. Precisa de mais alguma coisa para ser viver, minha gente?


ANTONIO PRATA

Congregação Panteísta do Agora Mesmo


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Se buscarmos só o grande, o topo, a conta não fecha; a solução é apostar tudo nas pequenas felicidades
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POR TRÊS DÉCADAS, fui ateu e feliz. Nos últimos anos, contudo, além de uma dorzinha na lombar, comecei a sentir falta de uma religião: algo ou alguém a quem agradecer, nos dias de sol; ou contra quem blasfemar, diante das inevitáveis goteiras da vida.

Não encontrando entre os sistemas religiosos disponíveis algum que me agradasse, resolvi criar minha própria doutrina. Chama-se Congregação Panteísta do Agora Mesmo.

A CPAM não acredita em qualquer entidade ou força superior. Eu, você, a floração das cerejeiras, o vizinho que acertou na loteria: tudo fruto do acaso, sem comando ou metafísica.

Ora, se nada tem sentido ou propósito, o que ganha o leitor ao converter-se à Congregação Panteísta do Agora Mesmo? Muito! Pois minha religião sem Deus visa melhorar nossas vidas justamente pela divinização do terreno, pela devoção eterna ao tangível, pelo consciente alumbramento com o telúrico.

A CPAM nasceu da compreensão de que a felicidade não é um problema filosófico ou psicológico, mas matemático. Veja: se passarmos a vida perseguindo o grande, as glórias, o topo, a conta não fecha. Afinal, mesmo se atingidos esses áureos objetivos, a explosão de alegria por eles proporcionada dura pouco, não cobrindo nem de perto os custos da busca. A solução é apostar tudo nas pequenas felicidades, olhando apenas o presente, e a CPAM nada mais é do que um sistema destinado a organizar a fruição do comezinho.

Como toda religião precisa de rituais e termos estranhos, logo tratei de criar alguns. O espaço é curto, de modo que mencionarei apenas dois. "Blada", a manifestação do Bem, "Kruma", a do Mal, e os ritos correspondentes.

Digamos que você sentisse fome e, por acaso, encontrasse na cozinha sua fruta predileta, uma manga. Eis uma "Blada", uma pequena alegria que deve ser reconhecida e celebrada com um breve fechar de olhos, um suspiro e a pronúncia, em alto e bom som: "Blada!". Suponhamos que três "Bladas" se sucedam: você sente fome e acha a manga; recebe pelo correio o comprovante de um pagamento, vai ver um filme e encontra uma vaga bem em frente ao cinema: trata-se de uma "Tripleblada". Você deve comemorá-la fechando os olhos por dez segundos, mentalizando os três acontecimentos e repetindo: "Obrigado, oh nada, por me enviar uma Tripleblada!".

Já os pequenos infortúnios que, se acumulados, podem arruinar nosso dia, como dar uma topada, acabar a luz na hora do jogo, pedir uma empada de camarão e ouvir que só tem de palmito, são os "Krumas". Caso amargue um "Triplekruma", o fiel deve fechar os olhos e repetir, por dez segundos: "Causa alguma, causa alguma; a infelicidade é apenas um Triplekruma".

Acredito que, enaltecendo as pequenas alegrias e minimizando os percalços de todo dia, a Congregação Panteísta do Agora Mesmo poderá fazer mais por seu seguidor do que muitas religiões instituídas. E, se o fiel vier com problemas maiores, como a razão de existirmos ou a angústia com a morte, daremos a ele a sugestão de Fernando Pessoa: come chocolates, meu caro, que não há metafísica senão chocolates, e as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come chocolates!

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

FOLHA.com
Blog "Crônica e Outras Milongas"
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Professor de matemática será investigado por aula de apologia ao crime

Um pouco do meu trabalho na Secretaria da Segurança Pública de São Paulo:



Professor de matemática será investigado por aula de apologia ao crime


Um professor de uma escola estadual de Santos está sendo investigado pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) do município por ter dado uma aula a estudantes do primeiro ano do ensino médio exercícios de matemática que envolviam comportamentos delituosos, como tráfico de drogas, prostituição e roubo de veículos.

A escola fica no Morro do São Bento. A aula aconteceu na manhã de segunda-feira (14). A descoberta foi feita porque uma das alunas, de 14 anos, mostrou o caderno com as questões aos pais, pois não conseguira resolvê-las em sala. Os pais procuraram a direção da escola e foram posteriormente prestar queixa à delegacia, quarta-feira, às 11 horas.

Eram ao todo seis questões, que os alunos copiaram da lousa. Elas propunham aos alunos resolverem cálculos de mistura de cocaína com outra substância, obter a lucratividade da venda de um carro roubado, calcular o valor de remuneração que uma moça se prostituindo em uma praça receberia de seu cafetão.

Procurada pelos pais da estudante, a diretora da escola se disse surpresa com o conteúdo das questões. O professor foi chamado à sala da diretora e confirmou a aplicação do exercício, porém não esclareceu o motivo.

O delegado responsável elaborou um boletim de ocorrência de “apologia ao crime ou criminoso” (art. 287) e instaurou inquérito policial para investigar o caso.

Ele informou que o professor já foi identificado e que ele deve comparecer à delegacia para prestar esclarecimentos.

BO 27/11
Natureza: Apologia ao crime ou criminoso (art. 287)
Delegado: Francisco Garrido Fernandes
Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"A que horas prefere escrever?"

"A que horas prefere escrever?"

12 de fevereiro de 2011 0h 00


SERGIO AUGUSTO* - O Estado de S.Paulo
Em breve nas livrarias mais um volume de entrevistas com escritores publicadas pela Paris Review, o terceiro ou quarto aqui traduzido nos últimos 43 anos. Insuperáveis no gênero, só perdem em longevidade para aquele questionário que Proust inventou, Bernard Pivot levou para a TV, James Lipton para o auditório do Actors" Studio e Graydon Carter para a última página da Vanity Fair. Têm vaga cativa nas estantes de romancistas, poetas e críticos, que as leem para saciar a curiosidade sobre os hábitos, preferências e esquisitices de autores do passado e da atualidade. Clarice Lispector tinha o seu exemplar de Escritores em Ação (título da primeira tradução, lançada pela Paz e Terra) todo marcado e anotado.


Recentemente a Universidade de Illinois patrocinou um estudo coletivo sobre a influência daquelas entrevistas no meio literário, com uma longa digressão sobre sua pergunta mais frequente: "A que horas prefere escrever?" A forma pode variar, mas não seu conteúdo. É pergunta irrelevante, típica de quem não tem dúvidas mais substantivas e consequentes a respeito do entrevistado e seu método de trabalho, avaliaram os autores da digressão. Só a biógrafos deveria interessar esse tipo de informação. Outros hábitos e preferências (como os entrevistados esquentam os motores, em que ambiente ficam mais à vontade, se escrevem à mão, datilografam ou digitam, se corrigem muito, etc.) afetam muito mais a confecção de uma obra literária do que a parte do dia em que ela foi escrita.

Segundo consta, quem inventou a indefectível pergunta foi o próprio criador da Paris Review, George Plimpton, na entrevista que fez com Ernest Hemingway, em maio de 1954, num café de Madri. Também Aldous Huxley, na mesma época, foi obrigado a revelar de cara o seu expediente: sempre de manhã e um pouco mais antes do jantar; à noite, apenas leituras.

De modo geral, os escritores "pegam cedo na repartição", uns até acordam com as galinhas ou nem tiram o pijama, como é o caso de Salman Rushdie, que só depois de "aproveitar a primeira energia do dia" lê os jornais, checa a correspondência e toma uma chuveirada. García Márquez só parou de escrever ficção à noite depois que se livrou do jornalismo diário. Ao virar romancista full time, adotou o horário padrão dos profissionais do ramo (de 9 da manhã às 2 da tarde), que Graham Greene, por exemplo, acabou substituindo por outra condicionante: a produção de um mínimo de 500 palavras por dia. Uma das exceções à regra, Italo Calvino tornou-se vespertino porque gastava a manhã inventado desculpas para não trabalhar, e sempre que tentou escrever à noite não conseguia dormir depois.

Respostas mais diversificadas e relevantes nos oferece a questão do ambiente ideal de trabalho. Ray Bradbury vangloria-se de escrever numa boa em qualquer lugar. John Cheever produziu alguns de seus melhores contos num cubículo do tamanho de uma solitária. García Márquez se recusa a trabalhar em hotéis, na casa dos outros ou em máquinas de escrever e computadores emprestados. Norman Mailer carecia de um lugar com vista ampla, de preferência para o mar: nada de janela dando para um pátio ou jardim. Jack Kerouac preferia escrever na escrivaninha do quarto, "perto da cama, com bastante luz, da meia-noite até o amanhecer", mas era capaz de transformar "em sua casa" qualquer quarto de hotel ou motel e até mesmo barracas de acampamento.

Apesar de acreditar que os artistas de verdade criam em qualquer lugar, William Faulkner considerava o bordel o lugar perfeito para dar asas à imaginação. Num bordel desfrutava de teto e comida, tinha as manhãs tranquilas para escrever e as noites plenas de animação, sem contar a presença constante de fornecedores de bebida alcoólica (Faulkner foi um tremendo bebum) e a proteção garantida da polícia. Essa talvez tenha sido a resposta mais inesperada e engraçada já publicada na Paris Review.

Cinco anos atrás, num encontro de escritores de língua espanhola em Cartagena (Colômbia), a jornalista mexicana Alma Guillermoprieto, colaboradora da New York Review of Books, resolveu fugir ao ramerrão perguntando aos autores presentes se por acaso vestiam alguma roupa especial para receber as musas. Bem-vinda gozação no perfunctório jornalístico. Se o hábito não faz o monge, por que faria o escritor? Para Victor Hugo e Benjamin Franklin não fazia mesmo, tanto que eles adoravam escrever inteiramente pelados, em frontal contraste com Disraeli, que antes de pegar na pena enfarpelava-se todo como se fosse jantar com a rainha.

No seu cubículo, Cheever ficava apenas de cuecas. João Ubaldo Ribeiro ao menos põe bermudas para receber as musas, mas se recusa a vestir uma camisa, e não apenas nisso é o oposto de sua colega de Academia Nélida Piñon, que o máximo de descontração a que se permite, quando escreve, é calçar um par de tênis, assim mesmo com meias.

O que Hemingway afinal respondeu ao Plimpton?

Que começava no batente à primeira luz do dia. Se engrenava, ia em frente, até a hora do almoço, só parando quando absolutamente seguro de como continuaria sua narrativa na manhã seguinte. Mais ousado, António Lobo Antunes tem o costume de deixar sempre uma frase inconclusa para completá-la no dia seguinte. "Deixo-a no meio do caminho porque assim é mais fácil continuá-la", ensina o autor de O Arquipélago da Insônia, que jura ser este o seu único truque literário. Experimentem.


*Sérgio Augusto (Rio de Janeiro, 1942) é um jornalista e escritor brasileiro.
Começou sua carreira como crítico de cinema do periódico Tribuna da Imprensa, em 1960. Trabalhou também nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nas revistas O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Veja e IstoÉ e nos semanários O Pasquim, Opinião e Bundas.
Foi repórter especial da Folha de São Paulo de 1981 a 1996 e, atualmente, escreve no Caderno 2 de O Estado de São Paulo e na revista Bravo!.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre as pessoas que se emplacam

Deixo abaixo, apenas como uma lembrança, a coluna do Marcelo Coelho para a Folha de hoje. Achei-a um primor. O Coelho tem uma sensibilidade jornalística para captar coisas da cidade grande que, aliada à sua formação sociológica, resultam sempre em um texto crítico e com uma ironia bem reveladora.

São Paulo, quarta-feira, 02 de fevereiro de 2011


MARCELO COELHO
Uma cena de verão

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Eis que surge numa esquina e em outras dez o homem-placa das novas incorporações imobiliárias
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O CALOR das últimas semanas acaba com o ânimo de qualquer um, mas em São Paulo há outro fator que o torna mais acachapante do ponto de vista psicológico. Sábado, domingo, no pico do calor da tarde, nas ruas desertas dos bairros residenciais, mal se segurando em pé, vejo uma mulher ou um homem, não sei bem, indigente com certeza.
Seria o retrato acabado da depressão de janeiro, da fossa sem fim de fevereiro, do desespero tropical de março -não fosse o pormenor circense, o toque de alegria que tentaram impor à figura do coitado.

Uma cabeleira cor-de-rosa ou verde, um nariz de palhaço, luvas de Mickey gigantescas, pouco importa. Eis que surge numa esquina, e replica-se em outras dez, o personagem mais solitário do verão paulistano, o homem-placa das novas incorporações imobiliárias.
Digo homem-placa não porque ele seja vítima do velho sistema de ficar ensanduichado entre duas tábuas de madeira anunciando remédios ou espetáculos de teatro, nem porque, numa versão mais recente, amarrem-lhe ao corpo um meio colete de plástico amarelo para avisar que se compra ouro ali por perto.

Ele é homem-placa porque sua função é mostrar, a cada encruzilhada mais importante do caminho, a direção certa para o novo prédio que está sendo lançado.
Pelo que sei, estão proibidos os cartazes, mesmo temporários, do que quer que seja na cidade. Ao menos, não vejo mais as duas tábuas, com homem-sanduíche dentro, que indicavam nas calçadas os edifícios recém-construídos.

Durante uma época, a prática foi encostar carros velhíssimos, verdadeiras sucatas, numa vaga de esquina, colocando o anúncio do prédio em cima da capota. O efeito era ruim, sem dúvida.
Como acreditar no luxo e na distinção do edifício Duvalier, com seu espaço gourmet e seu depósito de vinho individual, se todo o sonho estava montado em cima de um Opala 74 cor de tijolo com dois pneus no chão?

Eliminaram-se os carros-placa, assim como já pertencem ao passado os grandes lançamentos performáticos do mercado imobiliário. A coisa tinha, cerca de dez anos atrás, proporções teatrais.
Determinado prédio homenageava a Nova York eterna: mocinhas eram contratadas para se fantasiar de Estátua da Liberdade, com o rosto pintado de verde, a tocha de plástico numa mão, o folheto colorido na outra. Ou então era o Tio Sam, eram Marilyns e Kennedys, que ocupavam a avenida Brasil, a Nove de Julho, as ruas do Itaim.

Passo agora pela Lapa, pela Vila Leopoldina. Há muitos prédios ainda a construir por ali; bairros ainda baixos, de ruas ortogonais e planas, sem nenhuma sombra por perto, vão ganhando seus edifícios.

Mas quanto cansaço! Talvez tenha ficado tão aquecido o mercado imobiliário que já não há mais imaginação para as grandes operações de marketing.

Talvez o delirante teatro imobiliário das ruas fosse consequência de uma época de vacas magras, em que era preciso chamar a atenção do cliente a todo custo.

Talvez a mão de obra para esse tipo de promoção tenha ficado cara demais; as mocinhas que distribuíam prospectos já se formaram em administração de empresas ou relações internacionais. Sobra o pessoal mais de baixo ainda, incapaz, provavelmente, de contato direto com o público, nem que seja para entregar um papel pela janela.

Esses homens e mulheres-placa não se comparam sequer ao guardador de carros, que precisa impor certa presença ao cliente incauto.

Estão ali graças à sua inexistência social. Só que sua função, paradoxalmente, é a de serem vistos; um cabelo azul, um gesto repetitivo apontando o caminho, já bastam.

Roupas especiais podem ser usadas num ou noutro lançamento, mas se tornam mais raras. Vi alguns moradores de rua (esse o termo mais exato) metidos num falso smoking, em que a gravata borboleta preta se pendurava mal e mal num pescoço sem camisa. A regra, contudo, é dispensar tal luxo.

Esse povo sai de onde estava -debaixo da ponte- para cozinhar ao sol, e apontar, a uma distância que não alcançam, o futuro lar da classe média. São porteiros que jamais aspiraram a ficar numa guarita.

O calor prossegue; o mercado está aquecido; a euforia não chegou até os homens-placa; o sol gostaria (é a minha impressão) de derretê-los, de esmagá-los, de reduzi-los a pó. Mas eles resistem.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Tas faz uso louvável do Twitter e ainda ganha dinheiro com isso

Marcelo Tas, no fim do mês de outubro, atingiu a marca de 1 milhão de seguidores na ferramenta


O twitter foi lançado em 2006 por Jack Dorsey, um empresário norte-americano desenvolvedor de softwares de St. Louis, Missouri. É, para quem não sabe, uma ferramenta micromensageira, na qual os usuários são convidados a responder "o que está acontecendo", em até 140 caracteres. As atualizações são exibidas no perfil de um usuário em tempo real e também enviadas a outros usuários seguidores que tenham assinado para recebê-las. O serviço é gratuito na versão web; já o recurso de atualizações via SMS, entretanto, tem cobrança pela operadora telefônica.

Outras apropriações da ferramenta, criado inicialmente com o objetivo de ser mais uma rede de interação social, surgiram com o tempo. Uma das primeiras foi para a conversação, com o uso do "@" como direcionador - @marcelotas direciona a mensagem ao perfil criado pelo jornalista Marcelo Tas. Em seguida, o Twitter também passou a ser utilizado para compartilhamento e repasse de informações, o que atualmente tem maior representação do que as atualizações pessoais.

Em pesquisa realizada por Raquel Recuero (jornalista, professora e pesquisadora do PPGL e do curso de Comunicação Social da UCPel) com usuários do Brasil - existem mais de 50 milhões de brasileiros no site -, 62% dos tweets coletados eram informativos ou continham algum tipo de informação, geralmente acompanhados por um link. É curioso notar que a pergunta-título original do Twitter não era “O que está acontecendo?”, mas sim “O que você está fazendo?”. A simples alteração reforça a constatação de que se trata de um ambiente propício para a disseminação de notícias e informações relevantes para os diversos grupos sociais ou “comunidades da web”.

Marcelo Tas, âncora do programa humorístico CQC, da TV Bandeirantes, é hoje em dia um dos campeões em seguidores na ferramenta. Depois que passou a utilizar o serviço de micromensageiro para fins jornalísticos (muito mais de modo opinativo e para repasse de informações), ganhou notoriedade e conseguiu um acordo publicitário com o Grupo Telefônica, maior conglomerado empresarial privado em atuação no Brasil, que estampou seu logotipo no plano de fundo de sua conta. A ação inédita chamou a atenção de influentes veículos de mídia, nacionais e estrangeiros, tais como O Globo, CNN, Wall Street Journal e New York Times, que noticiaram o inédito acordo.

Uma das grandes descobertas das pesquisas de Recuero é que existe uma competição no Twitter, mas não pelo número de seguidores, como se vinha alardeando, e sim pela atenção destes. O estudo mediu a quantidade de RTs (retweets) que os usuários davam (2,5 milhões de usuários era a amostra) e descobriu que a grande maioria dos usuários é passiva, ou seja, não se engaja ativamente na propagação de informações. Os autores, portanto, mostraram que há um imenso percentual de pessoas que apenas "consome" mídia. Esse perfil ou padrão de comportamento explica as investidas de empreendedores de grupos de telecomunicação, que passaram a firmar acordos – no caso com o jornalista Marcelo Tas – com comunicadores de expressão que emitem sinais de conteúdo midiático para seus seguidores, criando-se então a chamada central de jornalismo, aliada à divulgação da marca patrocinadora.

O sucesso consolidou-se recentemente. Durante todo o dia 22 de outubro, Tas provocou seus seguidores com a pergunta 'O que um milhão de corpos serelepes e mentes inquietas são capazes de fazer juntos?' e distribuiu livros para quem tuitasse respostas criativas com a hashtag #tas1milhao.

E assim, o jornalista tornou-se uma referência de informação e opinião, enquanto é invejado por políticos e ídolos nacionais, como Xuxa e o presidente Lula, que, somados, não atingem a marca de seguidores do carequinha da TV Bandeirantes.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Assunto de polícia

André Vicente/ Folhapress



O portão do CT (centro de treinamento) do São Paulo, na Barra Funda, apareceu danificado depois de mais uma amarga derrota do clube tricolor para o Corinthians, por 2 a 0, ontem (domingo, 7), no estádio do Morumbi.

A segurança do CT informou a policias militares da 1ª Companhia do 4º Batalhão - Lapa- , que às 19h30, de ontem, um homem em um Fiat Uno cinza derrubou um dos portões de acesso dando marcha à ré no veículo e, depois, quebrou o monitor de vídeo das câmeras de segurança -uma tela de 42 polegadas.

O boletim de ocorrência lavrado pela delegada Cláudia Patrícia Dalvia, do 7º Distrito Policial (Lapa), informa que um representante da empresa compareceu à delegacia informando que as câmeras do clube registraram toda a ação do vândalo. Porém, de acordo com o titular da delegacia, doutor Manoel Adamuz Neto, as imagens não chegarem ao conhecimento dos policiais civis - nem à imprensa, por conseguinte - porque o representante não quis fazer representação formal. Ou seja: não pediu para que fosse instaurado um Inquérito Policial.

"Ah, que isso? Elas estão descontroladas".
Diante dos fatos, imagino que o sujeito, uniformizado com as cores do clube dos pés à cabeça, acabou sendo preservado. Pois divulgar esse barraco à imprensa mancharia demais a imagem do time.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Boa notícia hoje para os garimpeiros da música popular brasileira

Reproduzo abaixo reportagem que saiu hoje na Ilustrada, da Folha.
Uma ótima notícia para os amantes da música popular do Brasil.

Rádio on-line reúne raridades brasileiras

Instituto Moreira Salles disponibiliza biblioteca musical com mais de 100 mil obras em programas a partir de amanhã
Documentários e programetes vão ajudar o ouvinte a conhecer o arquivo; na estreia, João Bosco fala sobre acervo

MARCELO BORTOLOTIDO, RIO: O primeiro disco lançado no Brasil pesava quase meio quilo. Produzido no Rio de Janeiro em 1902, feito de cera de carnaúba e raspa de casco de animais, suas cópias foram distribuídas de navio para outros Estados do país.Tudo isso para tocar uma única música, "Isto É Bom", do hoje obscuro Xisto Bahia -lundu recentemente gravado pelo sambista Monarco.

Um dos poucos exemplares desse fonograma histórico está guardado no acervo do Instituto Moreira Salles, no Rio. Além dele, o arquivo tem outras 100 mil canções, a maioria raridades em discos de 78 rotações da primeira metade do século passado.

Essa é uma das preciosidades que estarão na rádio on-line (no site www.ims.com.br) a ser lançada amanhã pelo instituto.É fácil para um conjunto assim, tão precioso quanto vasto, causar frustração ao leigo, sem experiência em navegar nas pilhas de discos e filtrar delas o que interessa.Daí a pertinência da rádio, que oferecerá raridades em programetes. Um deles trará sempre um compositor da MPB falando de sua formação musical por meio de canções do acervo.

O primeiro será João Bosco.SURPRESASA biblioteca musical do instituto começou a ser montada em 2000, com a aquisição do arquivo particular de Pixinguinha.Foi engrossada com as coleções do pesquisador Humberto Franceschi, formada ao longo de 50 anos, e de José Ramos Tinhorão, com mais de 6.000 discos.O passeio por esse conjunto revela surpresas. O pintor Di Cavalcanti, por exemplo, também foi compositor musical. Ele é o autor de "Rabo de Peixe", em parceria com Alcir Pires Vermelho, lançada em 1954.

A programação inclui variedades e documentários. O primeiro deles aborda curiosidades sobre Noel Rosa.Morto aos 26 anos de tuberculose, ele inspirava cuidados dos amigos, segundo o programa. Certa vez, um deles lhe chamou a atenção no bar por estar bebendo cerveja e conhaque.Noel argumentou que a cerveja era rica em nutrientes. "Mas para que o conhaque?", perguntou o amigo. "Não gosto de comer nada a seco", emendou o boêmio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A respeito de revistas customizadas

No começo do mês li coluna do Marcelo Coelho, na Folha, em que ele tece considerações das quais eu não discordo nem em uma linha, a respeito do mercado de revistas customizadas. Achei um baita artigo. Ou crônica, não sei como definir.

Abaixo:

São Paulo, quarta-feira, 04 de agosto de 2010
MARCELO COELHO

Gordura para todos


HÁ REVISTAS para tudo. Se você é criador de buldogues ou representante de vendas no setor de aparas de metal, certamente existe alguém pensando em publicar, todo mês, reportagens e artigos voltados para a sua área de interesse.

A imaginação "revisteira" nunca falha. Descobre-se uma celebridade que já teve um buldogue de estimação, ou cujo avô fez fortuna com resíduos de alumínio: já está pronta a entrevista da capa. Do cinema à gastronomia, existirá sempre uma coisa que se conecta com alguma outra e, quando menos se espera, o universo inteiro será revisto e interpretado do ângulo escolhido.Nada mais parecido com uma galáxia do que uma extensão de lascas de níquel, nada que nos aproxime tanto do budismo quanto os hábitos de um buldogue; o candidato ecologista tem algo a dizer sobre a reciclagem do chumbo, e determinado técnico de futebol se inspira, quem sabe, na moral canina.Já que tudo pode se transformar em "nicho de mercado", é apenas uma questão de tempo para que tudo se transforme em revista.

Pensando assim, até que demorou muito para o surgimento de uma revista de moda voltada para mulheres acima do peso. Recebo o primeiro número de "Beleza em Curvas" (editora Digicamp).Trata-se de uma "revista para quem ampliou o seu espaço para ser bonita", diz a capa. E só num desbragado esforço de eufemismo estamos falando de "gordinhas", de pessoas com "alguns quilinhos a mais".As fotos, as dicas de consumo e os discursos de autoestima se voltam para mulheres em estado de categórica obesidade. Existe "vida feliz acima do tamanho 46", diz o editorial. "Viemos para dar espaço para todas as mulheres reais deste gigantesco, miscigenado e plural país", continua o texto.Gigantesco? Difícil saber se há controle consciente sobre os jogos de palavras que, naturalmente, ficam de tocaia quando se escreve sobre um tema tabu, como o da gordura feminina.

Domínio de texto, de qualquer modo, não é o forte dos redatores da revista. Cada página traz quantidades imoderadas de erros gramaticais, e o leitor deve estar preparado para encontrar frases como esta: "O amor é uma palavra antiga, mas um conceito pouquíssimo utilizado no geral".Ou ainda esta: "Numa antiguidade quase presente, a mulher era vista pelos maridos como reprodutora feminina".Mas vamos em frente. São tantas as páginas de mulheres realmente gordas, jovens, bem maquiadas e afirmativas, que o principal objetivo psicológico de "Beleza em Curvas" acaba por ser alcançado: naturaliza-se um pouco a obesidade e reforça-se a sensação de como também é estranho o padrão da anorexia.

Uma vez posta em funcionamento, a lógica "revisteira" já não consegue parar: tudo pode ser entendido da ótica obesa. De Rubens a Botero, a pintura dará assunto para muitas edições. De Preta Gil a Marilyn Monroe, sempre se pode destacar alguma celebridade menos obcecada com a balança.Apesar disso, há limites para essa "ação afirmativa", ou melhor, "autoafirmativa".

Um assunto não pode deixar de ser tabu nas páginas de "Beleza em Curvas".Trata-se da comida. A única reportagem sobre o tema insiste na importância da alimentação saudável: cenouras, tomates, grãos de soja. A mulher gorda e bem resolvida parece ter, aqui, a curiosa característica de não se interessar por chocolate ou marzipã.É dinâmica, esportiva, sensual. Alimenta-se com moderação, veste-se bem, não tem complexos.Ou seja, é uma mulher magra -só que com mais peso.

A contradição vem à tona num só momento da revista: uma reportagem sobre cirurgias de redução do estômago. A afirmação da gordura convive com a sua negação.O "padrão anoréxico" pode ser criticado. Mas há outra ditadura, na verdade, a ser combatida -e uma revista para gordas não difere de qualquer outra revista nesse aspecto. Trata-se da ideia de que, por uma espécie de auto-hipnose regada a muito consumo, você pode ser feliz sendo como é."Ser como você é", nessa linguagem, equivale a ter um lugar definido no mercado consumidor. Sua identidade se afirma pelo que você consome -e assim se criam, em última análise, obesos de todos os tipos: os de comida e os de cosméticos, os de aparelhos eletrônicos e os de livros, os de buldogues e os de aparas de metal. coelhofsp@uol.com.br

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ruas de SP rendem microrroteiros

A coluna do Dimenstein para a Folha (caderno Cotidiano) hoje apresentou um interessante - e simples - trabalho que tem São Paulo como fonte de inspiração. Ele consiste basicamente de frases formuladas a partir do cotidiano, que Laura Guimarães formulou ao longo dos anos, desde que era pequenina.

Embora formada em teatro e cinema, ela pagou suas faculdades trabalhando como redatora em agências de publicidade. Para satisfazer seus anseios artísticos, ela escreveu em seu caderno vários pequenos roteiros, que tinham como principal fonte de inspiração o que ela via nas ruas.

Esses pequenos roteiros sintetizaram-se ainda mais, para se enquadrarem dentro dos 140 toques do twitter, e ganharam uma nova denominação: microrroteiros.

Por exemplo:

“Nunca Trairia Seu Marido
Faltava coragem. Mas não abria mão do ritual de pendurar as calcinhas pra fora da janela enquanto o vizinho a observava."

Ou:

“Platônicos
Atravessar a rua. Ele pega sua mao. Ela tira por reflexo. Queria ter deixado.”

Alguns desses microrroteiros viraram lambe-lambes, que ela espalhou, nesses dias e junto com alguns amigos, pelas redondezas da Rua Teodoro Sampaio.

O mais interessante é que agora os microrroteiros chegaram às mãos criadoras de desenhistas, cartunistas, e até músicos, que estão empenhados em ilustrar essas diminutas narrativas.

Veja que legais:

Marcelo e Magno Costa:

Mozart Fernandes:


Dá uma olhada no blog de Laura Guimarães. Ele se chama "No Passo do Roteiro".

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Minha primeira cobertura!


Hoje tem início o 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A cobertura do evento, realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), será feita pelos estudantes do projeto Repórter do Futuro -equipe da qual participo -, orientados pela jornalista Luciana Kraemer.

A programação se estende até o dia 31 de julho. Hoje, quinta, serão ministradas oficinas durante o dia e, à noite, será realizada a solenidade de abertura em homenagem à jornalista Dorrit Harazim, co-fundadora da revista Piauí e também de Veja. Nos dias 30 e 31 acontecerão palestras com jornalistas de diferentes áreas.

A programação completa do evento, com nome dos palestrantes, horário e tema das palestras, pode ser conferida aqui.

O quê
A Abraji foi criada em 2002, em resposta a um dos crimes mais bárbaros contra jornalistas durante o período democrático, a execução do repórter Tim Lopes por traficantes de drogas da Vila Cruzeiro, quando ele fazia a série de reportagens "Feira das drogas" para o JN, da Gobo. A reportagem levou o prêmio Esso de jornalismo do ano seguinte.
A instituição é uma das apoiadoras do projeto Repórter do Futuro.

A cobertura
Dois grupos compostos por sete integrantes cada, se revezarão na cobertura das palestras. Após o término da primeira rodada de palestras, o grupo A alimentará o blog do evento, em uma redação montada exclusivamente para a equipe de cobertura, enquanto o grupo B fará a cobertura da próxima rodada.

Uma terceira equipe atuará na cobertura dos corredores e ficará responsável por realizar entrevistas curtas com jornalistas participantes do evento e alimentar o twitter.

Minha parte
Sexta entro às 9h para cobrir a mesa "Processos contra jornalistas depois do fim da Lei de Impresa". Às 14h, fico com "Os problemas que as cidades enfrentam para sediar uma Copa do Mundo". Sábado, entro um pouco mais tarde: às 11h, e cubro "Caso Zoghbi (sobre o qual ainda não me informei) e mensalão do DEM"; e, por fim, às 16h cubro a mesa "como realizar a cobertura de políticas sociais", ministrada pela Adriana Carranca, uma competente jornalista do Estadão que já foi correspondente no Afeganistão.

É possível que saia um livro proveniente do resultado dessa nossa cobertura - com os devidos créditos. Será gratificante ver, pela primeira vez, meu nome registrado em uma publicação de grande abrangência.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A Copa finalmente começou

Hoje aconteceu o show de abertura da Copa do mundo 2010 na África, que não irá eliminar a cerimônia de abertura amanhã antes do jogo entre a seleção anfitriã e o México.

Quero comentar apenas a perfomance de uma das atrações do longo show, que teve participações de diversas atrações internacionais bem como de artistas do continente. A estonteante Alicia Keys. Que mulher, que voz, que corpo, que postura em palco.

Não saberia dizer se ela é uma popstar, uma gangstar woman, uma diva ou simplesmente uma cantora norte-americana de ascendência negra. O que sei apenas é que ela faz simplesmente o que sabe fazer: cantar, tocar - e encantar. Não precisa de mega-produção, de super-dançarinos com coreografias as mais espantosas, não veste roupas super-decotadas e sensuais que conferem a quem a usa o estatuto de uma heroína ou algo próximo disso. Alicia, como todo mundo sabe e viu nesse show, somente cantou (às vezes tocando seu piano) e dançou discretamente, à sua maneira. E por isso foi, na minha opinião, quem roubou a cena.

Shakira, legal... mas está muito magrinha. Ela esteve muito melhor no show que fez na final da Copa da Alemanha. Fergie, muita produção em estúdio para pouca voz.

Não sei quais atributos definem uma popstar. Alicia Keys, para mim, é o modelo perfeito de uma. Quando menos é muuuito mais.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Há dois posts atrás escrevi um miniconto sobre um professor que lecionava para índios de comunidades próximas ao município de São Gabriel da Cachoeira, nos confins do Amazonas.
Uma repórter do caderno Mais! , da Folha, realizou uma reportagem bem similar ao que escrevi. Isso talvez seja uma prova de que meu conto é verossímil mesmo...
Ei-la:


São Paulo, domingo, 09 de maio de 2010. Caderno Mais! FOLHA DE SÃO PAULO.

A exceção e a regra
Projeto educacional no Amazonas adapta ensino médio aos idiomas e práticas indígenas, mas enfrenta dificuldade para ser aceito por autoridades do setor

A língua tuiuca, antes à beira da extinção, agora é falada por todos, dentro e fora da sala de aula


MARCELO LEITE
ENVIADO ESPECIAL AO ALTO TIQUIÉ (AM)

No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é", diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. "Só é índio quem se garante."
Está na cara que Aloisio Cabalzar, 41, antropólogo de ascendência suíça que viaja à minha frente na voadeira (lancha de alumínio), não é índio. Protetor solar e o romance policial "Alerta Negro", de Patricia Cornwell, são seus companheiros fluviais mais constantes. Mas ele fala a língua tuiuca com fluência após duas décadas de andança pela mandíbula da região da Cabeça do Cachorro.
Cabalzar, do Instituto Socioambiental (ISA), de São Paulo, é o paciente cicerone da reportagem da Folha na viagem de dez dias e várias "cachoeiras" (corredeiras) pelo extremo noroeste do Estado do Amazonas. Objetivo: conhecer as excepcionais escolas tuiuca e tucano das comunidades ao longo do rio Tiquié, afluente do Uaupés, por sua vez um tributário do rio Negro.
Metade desses dias foi padecida em voadeira, a maior parte com motor de popa de 40 HP. Menos potência, e a viagem pode se estender por uma semana -só na ida.
Já no final da primeira jornada, o antropólogo conversa com o jovem carona Marcos Resende, habitante de São Pedro (ou Pikorõaburo, em tuiuca, nome de uma larva de besouro que come o miolo do tronco do buriti), nosso destino final. O jovem tampouco parece índio. Cabelos encaracolados, boné de hip-hop virado para trás, camiseta Racionais MC's -de quem nunca ouviu uma música, aliás.
A aparência engana. Na primeira refeição em São Pedro, na casa de seu padrasto, Adão Barbosa, Marcos fala tuiuca. Serve-se com as mãos, como todos, das maniuaras (saúvas) torradas, da cutia e do beiju. Não reage com lacrimejo e espirros ao excesso de pimenta, como os convidados.
Quatro dias depois, no caxiri de despedida para os visitantes, festa na maloca regada à bebida de mesmo nome fermentada da mandioca, Marcos tocaria flauta e dançaria com outros moços e moças. Sem o boné, mas tampouco havia adorno de penas à vista -só bermudas e camisetas de muitas cores. Seu pé direito socaria o chão de terra, mantendo o ritmo e a tradição. Ex-aluno do ensino médio, Marcos já é professor.

Língua ameaçada
"Antigamente, sábio era quem obedecia às regras", pondera Higino Pimentel Tenório, 55, a autoridade reconhecida em São Pedro. Professor há 35 anos, Poani -seu nome cerimonial em tuiuca- lamenta que os jovens tenham abandonado muitos costumes.
Uma das interdições importantes, explica Poani, é a abstinência sexual de 15 dias antes de beber o caapi (bebida alucinógena similar à ayahuasca). "Quem obedece às regras tem mais poder, progride mais", afirma o professor sobre a sabedoria veiculada pelas "mirações" desencadeadas pela bebida. "[A gente vê] muita cobra colorida no vômito, entende a música e as palavras da cachoeira."
Seu orgulho é ter revertido o "êxodo rural", como se refere à saída de jovens para as antigas missões salesianas da região, Pari-Cachoeira e Taracuá, ou para a sede do município, São Gabriel da Cachoeira. A regra era abandonarem as aldeias em busca de educação.
São Pedro ficou reduzida a 14 famílias, em 2000. Hoje são 23. A língua tuiuca, antes à beira da extinção, agora é falada por todos, dentro e fora da sala de aula. Inclusive pelos alunos tucanos, desanas, yebamasãs, barás ou miriti-tapuias vindos de aldeias vizinhas para os módulos de 15 dias, intercalados com 15 dias passados na comunidade de origem, para trabalhar com os pais na roça e na pesca.
Os moços não precisam mais mudar-se para São Gabriel, 700 quilômetros rio abaixo, para cursar o ensino médio. A primeira turma do secundário da escola Utapinopona -"Filhos da Cobra de Pedra"- formou-se no ano passado, Marcos Resende entre eles (hoje dá aulas para a nova turma da escola comunitária).
Agora só lhes falta o reconhecimento de um diploma oficial. E já discutem como poderia ser um ensino superior indígena.

Paisagem como projeto
A casa de apoio construída em São Pedro pelo ISA, que auxilia a escola na localidade desde 1994, tem três ambientes. O telhado sem forro é de caraná (Mauritia carana), palmeira aparentada com o buriti (M. flexuosa). Não deixa a desejar numa região em que pode chover até 3.600 mm/ano. Resistiu, sem muitas goteiras, a vários temporais.
O quarto sem porta abriga as redes dos visitantes. A cozinha diminuta é território de Jorge Gabriel da Silva, 52, piloto de voadeira e cozinheiro da etnia desana. O cômodo maior pode ser sala de aula ou de refeição e dormitório extra, dependendo do horário.
Das paredes pendem cartazes com desenhos elaborados de perfis de vegetação em capoeiras: plantas vermelhas são as cultivadas, verdes, as pioneiras (primeiras a se instalar) e azuis, as de floresta madura.
Às 14h do dia 30 de março, excepcionalmente, é hora de aula expositiva. As tardes são em geral dedicadas a atividades como desenho de perfis de vegetação e compilação de dados em tabelas, não à exposição.
A rotina foi alterada para acomodar a agenda da reportagem, que pela manhã acompanhou uma atividade de campo dos alunos (coleta de mel e reprodução de colmeias de meliponicultura -criação de abelhas sem ferrão).
São 19 alunos na sala, 15 homens e 4 mulheres na faixa de 15 a 19 anos. Há dois computadores laptop, além daquele em que Pieter-Jan van der Veld, 46, agrônomo holandês contratado pelo ISA, lê o tema do dia: "Apresentar uma pesquisa sobre paisagem florestal". Os três aparelhos e a única lâmpada do recinto são alimentados por energia acumulada em baterias de caminhão por um painel solar fotovoltaico.
O português sai com um acento lusitano e palavras esparsas em espanhol, mas Wisõka -Esquilo, apelido do professor em tuiuca, por causa dos cabelos avermelhados- garante que os jovens entendem.
Todos ali falam pelo menos três idiomas (português, tuiuca e tucano, a língua franca do Tiquié) e escrevem as duas primeiras. Recebem visitantes do Brasil todo e do exterior, interessados na experiência peculiar de educação indígena. "O meu é só mais um sotaque do português para eles", tranquiliza Van der Veld.
A aula difere muito do ensino médio tradicional nas redes públicas de outros Estados e das grandes cidades amazonenses. Além dos módulos em blocos intercalados de 15 dias, dura quatro e não três anos, divididos em ciclos de dois. Em lugar de um currículo segmentado em disciplinas, os alunos aprendem com base em pesquisas e projetos temáticos.
O projeto atual é um levantamento de "paisagens", ou fisionomias vegetais, eleitas pela comunidade -alunos, pais e professores. O estudo se concentra nas quatro principais: floresta ("makaruku"), capoeira ("wiariro", roça abandonada), igapó ("boareko", floresta de inundação sazonal) e campinarana ("tataboa", uma espécie de caatinga amazônica que viceja em solos arenosos e encharcados, origem da "água preta" dos igarapés e rios da bacia do Negro).
Há dezenas de subdivisões para registrar concentrações de recursos importantes. "Netahta" é buritizal; "mihpitahta", açaizal. Em foco, na pesquisa, estão os caranazais ("mui boa"), onde folhas para renovar telhados são colhidas. Se o estoque natural não for bem manejado, a matéria-prima escasseia, o que pode forçar a mudança de local da aldeia.
Na semana anterior, o grupo passara quatro dias acampado, identificando, contando e medindo árvores e arvoretas com mais de um dedo de espessura num transecto (área delimitada) de mil metros quadrados. Os dados coletados são organizados em listas (todos os tipos de árvores encontradas), depois em tabelas (com as quantidades de cada tipo).
Listas e tabelas são necessárias para produzir gráficos, explica Van der Veld. A tradução para o tuiuca fica a cargo do professor habitual da classe, José Barreto Ramos, 50. Ele também se chama Poani, um dos nove nomes de homem disponíveis na língua tuiuca; para as mulheres, há seis.
Nesse idioma, a entonação modifica o significado das palavras. Tudo soa incompreensível para o forasteiro, mas a tradução vem entremeada de palavras portuguesas: "gráfico", "tabela", "lista"...
Conceitos inexistentes numa cultura em que, poucas décadas atrás, só se contava até 20 (soma de todos os dedos e artelhos). "O próprio conhecimento quem manifesta é a língua", teoriza o outro Poani (Higino Tenório).
A aula evolui para a confecção de um gráfico comparando as quantidades de três árvores em dois transectos. Todos os alunos têm pranchetas, cadernos e réguas. Anotam tudo que o professor escreve no quadro, em português, com letras de forma e caligrafia bem desenhada. O silêncio e a atenção são dignos de nota, para quem conhece a atmosfera do ensino médio nas capitais, retratada no filme "As Melhores Coisas do Mundo", de Laís Bodanzky.
Terminada a explicação da tarefa, a dificuldade se torna visível: raros são os que começam de imediato a traçar o gráfico de barras. Os alunos empacam na correspondência entre número de árvores e centímetros do eixo y e na escolha da escala para a figura caber na página. Só então começam a falar entre si, e o observador conclui que ajudam uns aos outros. Van der Veld dá a tarefa por completa após uma hora e meia de aula.
"A parte difícil é a matemática", diz o holandês. "Enfrentam problemas com coisas técnicas e abstratas, mas não com a parte prática." Na sua avaliação, os alunos da escola tuiuca têm nível melhor que os técnicos de Rondônia com quem trabalhou por um ano em 1998, para fazer amostragens de solo no macrozoneamento do Estado. "Os problemas são os mesmos da educação do Brasil [todo]."

Caranazal abusado
Dois dias depois, a reportagem entra na mata com Van der Veld e cinco estudantes, para uma demonstração de levantamento num caranazal. Há dificuldade para acompanhar a marcha, firme e aplicada como a caligrafia exibida em sala de aula. São 45 minutos para cobrir cerca de dois quilômetros desde a margem do Tiquié, segundo o GPS. O jornalista e o repórter-fotográfico aprendem rápida e dolorosamente o significado da palavra "caba" (marimbondo).
Chegamos ao caranazal pouco depois das 10h. Embora a palmeira não componha mais que 3% das 139 plantas inventariadas pelos tuiucas nessa paisagem vegetal, suas folhas em leque estão por toda parte.
Visível, também, é a decepção do agrônomo professor: só há indivíduos juvenis de Mauritia carana, nenhum adulto com tronco, muito menos com os 15 metros que pode alcançar na fase reprodutiva. A maioria dos caranás é "pu" (criança).
"Um caranazal abusado", decreta o holandês. Nem mesmo a regra tradicional de deixar pelo menos três folhas em cada pé parece ter sido observada pelos últimos coletores. O manejo inadequado implica que a área precisará de muitos anos para voltar a ser explorada, porque não sobraram plantas-mãe para lançar sementes e recompor a população.
Não deixa de ser didático para os tuiucas Jorge Rochas Gutierrez, Josival Azevedo Rezende e Walter Marques Tenório, além de Jodair de Jesus (tucano) e Angel Maria Sanches (bará), os estudantes de ensino médio encarregados da demonstração.
Sua tarefa é demarcar um transecto, a área para levantamento da paisagem. Começam por assinalar uma árvore de porte facilmente identificável na mata rala e fixar nela uma plaquinha de metal. É o ponto de referência, marcado no GPS.
A partir dele se estende a trena por 20 m (numa pesquisa real são 100 m), iniciando a demarcação do polígono com 10 m de largura. Fincam-se estacas a cada 5 m, para fixar barbantes perpendiculares que dividirão a área em quatro setores, para facilitar a contagem.
O ângulo é definido com auxílio de bússolas de fundo transparente, que permitem enxergar o fio por baixo e alinhá-lo. Van der Veld pergunta quanto é um ângulo reto, para marcar o canto do retângulo do transecto. A primeira resposta é 50, logo corrigida para 90 -não sem algum debate.
Os alunos têm então de somar ou subtrair os 90 da orientação registrada para a trena (230), e a barreira da abstração volta a materializar-se. Fazem e refazem contas a caneta na palma das mãos, até chegar às respostas corretas (320 e 140). Quando surgem quantidades negativas, então, a dificuldade cresce de forma exponencial, conta o professor holandês.

De volta à tanga
Juntos, os rapazes acabam resolvendo todos os problemas que Van der Veld propõe. No processo, ganham ferramentas e habilidades para entender melhor e manejar a dinâmica natural de um recurso decisivo para os tuiucas e seus vizinhos. Já se foi o tempo em que os jovens tinham de aprender com livros -dos padres salesianos ou do MEC- que falavam de maçãs e uvas, frutas que nunca chegam ali.
"Abrimos opção para cada jovem buscar qual tipo de conhecimento vai buscar fora para solucionar os problemas da comunidade", afirma o líder Higino Tenório. Os projetos de pesquisa sempre têm relação com o sustento material e cultural dos tuiucas e dos povos vizinhos (entre os quais buscam mulheres para casar): a palha do caraná, peixes e piscicultura, meliponicultura, roça -mas também mitos, cantos, adornos e benzimentos.
A ideia por trás da nova escola sempre foi casar a "ciência dos brancos" com a valorização do conhecimento indígena. E, no caminho, aproximar moços e velhos, revivendo regras cujo cumprimento estava se tornando exceção. "Nossos antepassados [homens] passavam três meses acampados na mata, aprendiam a fazer cestaria", conta Tenório. "[Eram] regras para dotá-los de conhecimento, força e espírito."
Na própria comunidade de São Pedro houve resistência à proposta de educação indígena e alfabetização em língua tuiuca. Fiéis ao ensino rígido dos salesianos, que os ensinaram a ler, escrever e contar até mais que 20 e os ajudaram a libertar-se das dívidas com os patrões da borracha e comerciantes dos regatões, muitos pais acharam que seria um retrocesso.
"Nossos próprios parentes não chegavam a entender", rememora o professor José Ramos. "[Achavam que] atrapalharia, traria atraso, os filhos não poderiam aprender português, voltariam para trás e a usar tanga como nossos antepassados", diz o outro Poani, sempre de calça comprida, cinto e camisa polo.
"Os padres mandavam bater nas crianças. Isso acabou", comemora. "A escola agora tem computador, tecnologia, oficinas, bússola e GPS. Nossos filhos só falavam tucano, custou dois, três anos para voltarem a falar tuiuca. Quando um aluno está doente, manda carta [para o professor] escrita em tuiuca."

Ensino superior indígena

As resistências comunitárias foram pouco a pouco vencidas. Hoje, a língua tuiuca ganhou algo que nunca teve: uma literatura própria. Fruto de duas décadas de trabalho do casal Flora Dias Cabalzar e Aloisio, o "Arusu" (arroz).
Eles foram "peças fundamentais", segundo Higino Tenório. "Eu penso várias ideias, mas não sei colocar as palavras certas", diz o coautor tuiuca. "Eles sabem escrever, ouvindo nossas ideias."
Já são oito livros publicados no idioma em uma década. Um ainda está no prelo: "Utapinopona Kuye Poseminiã Niromakaraye" (Adornos Cerimoniais dos Tuiucas). Resultou de um projeto temático da escola em que alunos recolheram entre os mais velhos descrições, usos e explicações sobre a origem dos ornamentos.
A experiência "sui generis" de educação indígena na região da Cabeça do Cachorro, que inclui os tucanos do Tiquié e os baniuas do rio Içana, gerou também várias teses e publicações em português. O livro mais recente é "Manejo do Mundo - Conhecimentos e Práticas dos Povos Indígenas do Rio Negro, Noroeste Amazônico" (organizado por Cabalzar, do ISA), lançado num seminário com o mesmo título, que se realizou de 8 a 13 de abril em São Gabriel da Cachoeira.
O seminário reuniu representantes dos vários povos da região, inclusive da Colômbia, para trocar experiências de educação baseadas em projetos de pesquisa sobre a natureza e delinear como poderia ser um ensino superior indígena. Trata-se de formar professores de ensino básico com nível universitário, como exige a lei, mas com currículo que vá além da formalização muitas vezes medíocre oferecida por universidades da Amazônia.
O encontro resultou numa lista com 13 desejos para um ensino superior indígena. Coisas como ser inovador, ter relação com o território da bacia do rio Negro e conexão direta com as comunidades. "Qual seria o conhecimento mesmo, de nível superior, para o jovem conseguir viver aqui?", pergunta Higino Tenório. "É inviável querer transformar o índio em intelectual. Quem faz curso superior quer ir para a capital."
Mais sintomática é a lista do que os índios não querem que ele seja: só uma licenciatura intercultural, numa única língua, com predominância do conhecimento científico ocidental e estruturas burocratizadas. A burocracia estatal, aliás, é no momento a grande pedra no caminho das experiências educacionais do rio Negro.
Enquanto se limitavam ao ensino fundamental, as peculiaridades da educação comunitária foram sendo acomodadas com as regras municipais de São Gabriel da Cachoeira, onde cerca de 90% da população de 42 mil habitantes e até o prefeito são indígenas. Ao alcançar o nível médio, porém, passaram para a alçada da Secretaria Estadual de Educação amazonense, e o reconhecimento oficial das turmas já formadas ainda não saiu.
Da duração -quatro e não três anos- à inexistência de avaliação com notas ou de conteúdo curricular padronizado, pouca coisa se enquadra nas normas do Conselho Estadual de Educação do Amazonas.
"[O ensino médio tuiuca] é um projeto avançado, até para a educação indígena", afirma o professor de física e matemática Inafran da Silva Bastos, técnico da Gerência de Educação Escolar Indígena da secretaria estadual. "Na hora de reconhecer, a própria Seduc não estava preparada. É só uma questão de tempo e de se adequar -no mínimo dois a três meses."
A nova gerente da área, Alva Rosa, da etnia tucano, tomou posse em 19 de abril, Dia do Índio. Bastos informa que a gerência trabalha na adaptação do currículo estadual para a educação indígena, mas que o processo ainda está "no início".

Aracu, acará e araripirá
No último dia de março, a reportagem desce o Tiquié até a comunidade tucano em Cachoeira do Caruru, menos de meia hora de voadeira com o motorzinho de popa de 15 HP. Vamos conhecer a estação de piscicultura montada em 1999 por uma associação de 12 comunidades tucanas e tuiucas no Alto Tiquié.
O guia da visita é o coordenador-gerente do projeto, Lucas Alves Bastos. A escola, em paralelo ao projeto de piscicultura, desenvolveu uma pesquisa relacionando enchentes e vazantes, chuvas, piracema (desova dos peixes) e constelações que "caem" do céu no poente, como a da Jararaca (em novembro).
O projeto tem por meta reproduzir e distribuir para as comunidades espécimes das espécies nativas aracu-riscado (Leporinus agassizii), aracu-três-pintas (L. friderici), acará-trovão (Satanoperca jurupari) e araripirá (Chalceus macrolepidotus). Machos e fêmeas maduros são capturados e têm a hipófise retirada para extração de hormônio, depois injetado debaixo da nadadeira peitoral de outros peixes para estimular a produção de gametas (espermatozoides e óvulos).
Controlando a temperatura dos animais, os técnicos indígenas definem o momento de espremer os peixes e colher o material para fertilização em bacias, que exigem trocas de água de dez em dez minutos. Transfere-se o material para incubadoras com água corrente, durante sete dias, para que os embriões eclodam e se desenvolvam. Eles são depois contados e transferidos para os viveiros, tanques de 10 m x 20 m x 1,5 m escavados no terreno.
No momento, as incubadoras estão vazias. Uma semana antes, 34.300 pós-larvas de araripirás, com três milímetros, foram produzidas em Caruru. Cerca de 2.000 sobreviverão nos tanques e alcançarão dez centímetros, quando serão enviadas para engorda nos viveiros comunitários e familiares, como os de São Pedro.
O dia anterior fora de mutirão para cavar um terceiro viveiro na vizinha aldeia tuiuca, parceira dos tucanos de Caruru. Meia centena de homens, mulheres e crianças trabalhavam juntos, sob o sol a pino. Já há dois lagos, mas um está vazando. É preciso abrir outro, trabalho para cinco dias.

Palavra de índio
"Nossa ideia é fazer criação para o rio descansar", explica Higino Tenório, líder dos trabalhos. "Com tecnologia -pilha, zagaia, malhadeira- a pesca deixou de ser seletiva e inteligente, como era feita com pari [armadilha de varas], e se tornou predatória."
Tuiucas e tucanos do Tiquié entendem que foram gente-peixe, antes de se transformarem em gente-verdadeira, e assim escolheram permanecer. Para isso, precisam de flautas do jurupari (que mulheres e crianças só podem ouvir, não ver), de folhas do caraná, aracus, acarás e araripirás -além de uma tecnologia que fuja à norma da superexploração.
Em duas palavras, buscam na prática as tão faladas "inovação" e "sustentabilidade" e elegeram o ensino como canoa para realizar a travessia. "[A escola] é a instituição externa que eles conseguiram manejar", resume Aloisio Cabalzar.
A regra do senso comum vale também para os índios: educação é a garantia de algum futuro. Um futuro índio.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A primeira vez a gente nunca esquece

Um texto que fiz recentemente no qual conto como foi a experiência da minha primeira redacao:


A primeira vez a gente nunca esquece

por Thiago Fuzihara Crepaldi

Meu batismo com a língua portuguesa se deu quando eu estava no segundo ano do Ensino Médio do Colégio Palmares. Era um garoto como outro qualquer, que vivia lá os seus dezesseis anos. Ou seja: achava que tudo o que saía da boca dos meus pais era piegas ou careta; que, mesmo sendo menor de idade, já tinha autonomia e resistência para poder beber como um sujeito maior de idade; que sabia como ninguém seduzir as pessoas do sexo oposto;e que minhas ideias eram capazes de revolucionar o mundo.

Redações já havia feito uma penca delas, mas todas sempre naquela linha “minhas férias...". Acontece que a professora de língua portuguesa daquele segundo ano era uma professora diferente - uma baita professora. Éramos inundados por textos filosóficos, literários, existenciais (ou mesmo os três ao mesmo tempo: filosófico-literário-existencial), humanos, enfim, e posteriormente forçados ou, melhor, estimulados a refletir em grupo sobre as questões que aqueles belos textos suscitavam. Foi o meu primeiro contanto com o desespero da condição humana, através de Saramago. Depois de uma dessas acaloradas discussões fiquei com um pensamento fixo matutando na cabeça e fui viajar para o meu sítio, como de costume, com o dever de entregar uma redação na aula da semana seguinte.

Naquele final de semana foi a primeira vez que eu realmente sentei com o propósito de escrever alguma coisa decente. Fiquei horas para esboçar um ponto de vista claro, seguido de eixo-argumentativo e uma conclusão, como preconizou a professora. Não obstante a demora, a redação saiu. Com o pueril título: “Ciência vs Literatura”. Basicamente, o que tentei sustentar era que a ciência não era eterna porque era, antes, temporal; e que a literatura o era porque era atemporal, transcendia a linearidade dos séculos.

Na aula seguinte a da entrega, a professora separou três redações para ler em sala, a minha dentre elas. Julia, a magnífica professora de quem sempre guardarei lembranças, elogiou bastante o potencial temático-reflexivo de minha redação. Com todo o seu repertório ela afirmou que eu, mesmo sem saber, havia definido a dualidade do homem. E, para meu orgulho e espanto, citou um trabalho de Edgar Morin, eminente pensador contemporâneo, exatamente sobre essa tal dualidade humana: “Sapiens Demens”. Desde então, o garoto, que achava que tudo podia dentro da sua alienada bolha adolescente, tomou gosto pela coisa. E, vez ou outra, aventura-se na especulação do universo.

Conheça o cara:
Conferência "Pensar o Sul", no SESC, quando veio ao Brasil.

domingo, 16 de maio de 2010

Cliques do fotógrafo Bob Wolfenson

Bob Wolfenson é um fotógrafo paulistano famoso. Do seu vasto trabalho, o que mais me chama atenção é o retrato das celebridades. Nos ''encontros efêmeros'' - como ele define os ensaios fotográficos - busca sempre registrar o extraordinário desses notórios.


A atriz Fernanda Montenegro


Os poetas Augusto e Haroldo de Campos


A modelo Raquel Zimmermann


O ator Wagner Moura

O poeta João Cabral de Melo Neto

Os grafiteiros OsGêmeos

O cantor Caetano Veloso


A modelo Gisele Bundchen

A jornalista e escritora Fernanda Young

A atriz Juliana Paes


O cineasta Fernando Meireles

O ator Reinado Giannechini e a modelo e apresentadora Giane Albertoni

A cantora Rita Lee

O músico Ermeto Pascoal

Bob Wolfenson, fotógrafo

CV*:Paulistano do Bom Retiro, começou a fotografar aos 16 anos, quando ganhou uma câmera do pai. Cursou ciências sociais na USP, começou a trabalhar como fotógrafo na Editora Abril e, em 1982, foi ser assistente em Nova York. Com 35 anos de carreira, já trabalhou para as principais publicações brasileiras, fotografa para moda e publicidade, faz retratos, tem cinco livros publicados e edita a revista semestral S/N. Sua última exposição foi A Caminho do Mar, sobre as paisagens sombrias do pólo petroquímico de Cubatão, passagem habitual de sua infância.

*Fonte: Bravoonline.