sexta-feira, 7 de maio de 2010

Conto verossímil

Todos os dias o bondoso professor enche o tanque de sua voadeira com gasolina para que ela possa decolar e transpor toda a selva amazônica rumo ao municípo de São Gabriel da Cachoeira. Se fosse de barco, às mergens do Rio Negro, só poderia dar suas aulas de oito em oito dias, posto que demoraria quatro para chegar e mais quatro mais voltar a Manaus, onde reside com sua mulher e sua pequena cria de um ano de idade.

De lá do alto do céu, enquanto toma vento na cara e sente o cheiro do combustível queimando no valente motor 60hp, ele busca na sua memória aquela imagem fotográfica de sua mulher com sua filha, como que para ter forças para enfrentar as cinco horas de vôo até o longínquo município, onde 90% da população é constituída de três tribos indígenas. Ele se contenta com esse fugaz pensamento; todos os dias o faz, como uma prece. Depois ele se esquece, quero dizer: não se esquece, mas deixa de pensar nisso para dar lugar a outros pensamentos. Agora se concentra na revisão da aula que preparou; será que não se esqueceu de nada? É essa a pergunta que logo faz. No resumo mental de sua aula, concluiu seguramente que não. Pensa em cada um de seus alunos; as dificuldades de cada um deles; a despedidada que deu - e que lhe deram - a cada um deles no fim da aula, ao lado da porta.

Sistemas agro-florestais, micro-pecuária, pesca sustetável, atividades que os indígenas desde os primórdios da raça conheciam por plantar, caçar e pescar agora ganham as designações da era tecnocrata. Mas eles não se queixam disso. Pelo contrário: eles têm apetite disso. Quanto mais palavras novas, mais integrados e menos excluídos eles se sentem.

Nao há mais vagas no campus do Instituo Federal do Amazonas. É a única instituição pública que oferece curso superior e profissionalizantes naquela região. Por enquanto o professor aterris com sua voadeira, mas espera, quem sabe num futuro próximo, ir para lá de hidroavião, fretado, claro, e carregado de jovens, brilhantes e corajosos professores como ele.

sábado, 24 de abril de 2010

Entrevista com o mito Sr. Monarco da Portela

Vai aqui uma entrevista cedida pelo Monarco da Portela, um dos grandes compositores da Azul e Branco, para a revista Aventuras na História (edição 42).


Compositor desde os anos 40, Monarco é uma enciclopédia. Coleciona histórias: limpou a mesa de bilhar de Villa-Lobos, guardou carros no Jornal do Brasil, dividiu (vários) conhaques com Cartola, compôs com Candeia, ouviu lamentos de Carlos Cachaça, grande companheiro de Noel Rosa.
Atualmente, ele se dedica às caminhadas matinais - “momentos de maior inspiração” -, à sua mulher - “minha pretinha de fé” -, a compor vez por outra e a exercitar a memória, lembrando-se de sambas que são verdadeiras relíquias, não escritos em lugar algum.

Hildemar Diniz é um homem alinhado. Veste camisa social impecável, calça de tergal bem passada, cinto combinando com o sapato branco. Toda quinta-feira ele sai do Riachuelo, bairro na zona norte do Rio de Janeiro, onde mora com a mulher Olinda, para almoçar um belo cozido na Cinelândia, no centro, acompanhado de pelo menos um de seus filhos. São dois: Mauro e Marcos.
Como o pai, compositor, a dupla tem canções nas vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte. “Eles já nasceram numa roda de samba”, diz o músico, alisando os cabelos finamente penteados.


Hildemar é o sambista Monarco da Portela, apelido que ganhou na infância em Nova Iguaçu. Aos 73 anos, ele é um dos compositores mais respeitados do chamado samba de morro, batida tocada pelas escolas que desfilam no Sambódromo. De sua caneta já saíram sucessos cantados por Martinho da Vila (”Tudo Menos Amor”), Clara Nunes (”Rancho da Primavera”), Paulinho da Viola (”Passado de Glória”) e muitos outros.

Sua memória rendeu a Marisa Monte o sucesso “Meu Canário”, de Jaime Silva, gravado no CD Universo ao Meu Redor. “Fui na casa dela, lembrei que o Jaime tinha feito essa música e cantei.” Monarco gosta mesmo é de cantar. Assim, a entrevista que você vai ler a seguir foi toda musicada - para cada história, uma canção.

Como você conheceu o Cartola?
Ele era meu ídolo. Um dia, ele foi na Portela com Carlos Cachaça e eu fiquei de longe admirando. Tempos depois, nos encontramos no Zicartola, bar que ele abriu com a Zica, na rua da Carioca. Ele comandava a roda de samba. Um belo dia, fui lá e quiseram me barrar na porta. Alguém me viu e foi falar com Cartola. Ele veio e perguntou: “Quem é o Monarco?” Eu disse: “Sou eu”. Então ele me mandou entrar. Fiquei no camarim vendo ele ensaiar. Daí pra frente, ficamos amigos. Eu ia de vez em quando procurar ele e o Carlos Cachaça na Mangueira. Fiquei mais próximo do Carlos, pois o Cartola se mudou pra Jacarepaguá. Na Mangueira, ficávamos papeando, eu ouvia as histórias e aprendia as lições do menestrel.

O Candeia falava que o negro era marginalizado, não importava o que fizesse. Você concorda?
Ele cantava: “O crioulo do morro está no miserê. Vai procurar trabalho, não encontra, vai jogar baralho”. Mas é verdade. O Candeia morreu batendo nessa tecla. O samba do morro continua marginalizado. Não é mais como antigamente, claro, mas sempre derrubam a gente. Dizem que nosso samba não é comercial, não vende, só se faz em barracão. Eles dão uma colherzinha de chá no Carnaval. Mas passa o Carnaval, esquecem a rapaziada do morro. A gente nem liga pra isso. Eu tenho samba que todo mundo canta e que nunca tocou no rádio.

História - A malandragem ainda faz parte do samba?
Monarco - Ah, não. Olha, para mulher não tem mais malandro, não. Tem que tratar a mulher bem. Eu já perdi uma grande mulher em minha vida por causa disso, por não conservar. Hoje tenho minha mulher e conservo com o maior carinho - a Olinda, minha pretinha de fé. Eu falo pretinha, mas ela é mulatinha. O malandro, minha filha, se aposentou, perdeu a viagem.
Vinícius de Moraes chegou a brincar uma vez, dizendo: “O que seria dos compositores sem a dor-de-cotovelo, as desilusões amorosas?” É assim mesmo?
Às vezes vejo alguém sofrendo e transporto para mim. E faço como se estivesse acontecendo comigo. Se eu for esperar brigar com a minha mulher para fazer música, estou ferrado… Eu tenho um amigo que foi largado pela mulher. Ele vivia triste, chateado. Eu o levava pro pagode, pra festa, mas não adiantava. Chegava lá, ele ficava jururu. Aí eu fiz algo assim (canta): “Já não vou mais às festas para me divertir, já não sei mais cantar nem sorrir. Os amigos do peito estão preocupados com meu padecer. Quem ontem esbanjava alegria hoje não sente prazer. Ela foi embora sem olhar para trás, é sinal que não volta mais”. O Zeca (Pagodinho) botou mais um pedacinho nessa música. O Ratinho (Alcino Ferreira, compositor) apareceu e botou outro.

Como vem a inspiração?
Do nada. Sem marcar hora. Não sei sentar para fazer uma música. Às vezes passo até um ano sem fazer nada. E, no estalo de um segundo, faço um samba. Tem que fazer direito e deixar fluir espontaneamente. Pode ser no ônibus, caminhando, não importa. Olha, eu não sabia de uma coisa: caminhar de manhã cedo me dá inspiração. Já fiz muita música andando. Sabe, eu faço caminhada porque o médico mandou.


E a cervejinha, o médico deixa?
Ah, mas não bebo mais. Há 30 anos. Já bebi minha cota. Bebi bem. Parei porque fiquei doente, estive internado, com tuberculose. Quando saí do hospital, conversei com o médico sobre minha cervejinha. Ele disse: “Bebe, mas bebe pouco”. Daí eu falei: “Não sei beber pouco”. Então, resolvi parar. Agora meu fígado está tão feliz… (risos).


Tem samba sem cervejinha?
Cartola bebia muito, mas acho que Noel bebia mais. Da turma toda, o Carlos Cachaça era o rei, por isso ganhou esse nome. O Noel ia sempre pro Buraco Quente (uma comunidade do Rio) procurar o Cartola. Chegava lá e enfiava o pé na jaca. Já o Cartola tomava conhaque. Várias vezes bebi com ele nas madrugadas. Ele dizia: “Vamos tomar um conhaque antes de ir pra casa”.


Como você conheceu o Cartola?
Ele era meu ídolo. Um dia, ele foi na Portela com Carlos Cachaça e eu fiquei de longe admirando. Tempos depois, nos encontramos no Zicartola, bar que ele abriu com a Zica, na rua da Carioca. Ele comandava a roda de samba. Um belo dia, fui lá e quiseram me barrar na porta. Alguém me viu e foi falar com Cartola. Ele veio e perguntou: “Quem é o Monarco?” Eu disse: “Sou eu”. Então ele me mandou entrar. Fiquei no camarim vendo ele ensaiar. Daí pra frente, ficamos amigos. Eu ia de vez em quando procurar ele e o Carlos Cachaça na Mangueira. Fiquei mais próximo do Carlos, pois o Cartola se mudou pra Jacarepaguá. Na Mangueira, ficávamos papeando, eu ouvia as histórias e aprendia as lições do menestrel.


Você se lembra de algum episódio?
São tantos! O Cachaça contava coisas engraçadas… Que o Cartola gostava de mulher gorda (risos). Outra vez, Cartola disse a ele: “Você tem que me batizar”. O Carlos: “Ué, tu já é batizado, rapá”. Ele: “Dá um jeito, então me crisma”. Então, o padre crismou o Cartola. Ele estava “pesado”, sabe, sendo injustiçado pela cultura do país. Chegou a lavar carro em Ipanema, imagine. Só foi descoberto pelo (jornalista) Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Um homem cheio de sucesso, parceiro de Noel Rosa, lavando carro para sobreviver, vê se pode.


Isso já aconteceu com você?
Já. Eu guardei carro no estacionamento do Jornal do Brasil, nos anos 70. Antes, eu trabalhava no mercado de peixe, quando a maré estava brava. Aí um amigo arrumou para trabalhar no Jornal do Brasil. Ali era uma beleza. Estacionava o carro de todo mundo, dos jornalistas mais famosos. Foi nessa época que Martinho gravou uma música minha e comecei a fazer sucesso. Ele foi uma vez num ensaio da Portela, escutou um samba meu e gravou. Isso passou a ser meu cartão de visitas, outros artistas começaram a me pedir música, como Clara Nunes, João Nogueira. Então saí do jornal para fazer samba - acho que faço samba com mais perfeição, né? (risos)


Antes disso você também tinha trabalhado na ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Foi aí que você conheceu Villa-Lobos?
Ah, eu era menor de idade nessa época. Heitor Villa-Lobos jogava bilhar francês lá. E eu escovava as mesas. Quando eram 5 horas, 5 e meia, lá vinha ele. Eu escovava bem a mesa, passava flanela em volta e deixava prontinha. Ele chegava fumando aquele charuto que várias vezes eu fui comprar pra ele. Uma vez, eu cantei um samba do Manacéia (sambista da Portela) e o Nássara (cartunista e compositor) chamou ele para ouvir. O Nássara não jogava, ficava na galera assistindo. Eu cantei: “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil…” O Nássara disse: “Olha, esse samba é da Portela”. Villa-Lobos passou o giz no taco, ouviu e não disse nada, continuou a jogar.


Você sempre foi da Portela?
Desde menino. Nasci em Cavalcanti e me mudei para Nova Iguaçu. Lá eu já ouvia sambas da Aracy de Almeida, daquelas cantoras antigas. Ouvia Noel. Então, minha mãe se separou do meu pai e foi morar em Oswaldo Cruz - olha como o destino foi bom! Quando eu vi a placa com o nome, pensei: “É o lugar do samba do Noel Rosa!” (o bairro é citado na canção “Palpite Infeliz”, de 1935). Dali, já pulei para a Portela. Escutei falar o nome do Paulo da Portela (sambista que ajudou a fundar a escola) no rádio e fui descobrir onde ele morava. Como não tinha dinheiro para comprar fantasia, no começo, desfilava segurando a corda lateral. Fazia calo na mão, mas não largava. Depois, fui trabalhar, juntei dinheiro e saí numa ala, de terno e tudo. Isso foi em 1951. Em 1952, fiz meu primeiro samba e passei para a ala dos compositores. Tornei-me companheiro daqueles bambas que eu idolatrava. Eu e o Candeia. Acho que o homem lá de cima disse: “Não vou te dar dinheiro, mas vou te dar inspiração” (risos).


É verdade que há rivalidade entre Mangueira e Portela?
A Mangueira teve uma encrenca com a Portela, na década de 30. Logo depois, tudo foi contornado, principalmente por meio da amizade de Paulo da Portela com Cartola. Hoje as escolas são companheiras. Dizem que quando a Portela encostava na praça Onze, o Cartola falava: “Deixa eu ver o que o Paulo trouxe”. Ele vinha ver como estava, preocupava-se com a escola. E vice-versa. Eles faziam samba juntos. A amizade dos dois significava a amizade entre Mangueira e Portela. Tenho vários sambas que enaltecem a amizade das duas escolas (canta): “Por isso que Portela e Mangueira são as grandes pioneiras das escolas do Carnaval…” Este chama-se “Velhas Companheiras” e fala dessa amizade.


Você costuma dizer que seu samba é chamado de samba de terreiro, diferente do samba de asfalto. Como eles se diferem?
O de terreiro é aquele de escola de samba. É o que eu aprendi, o que faço até hoje. Nosso samba não tem agrotóxico, não… (risos). A turma do Estácio começou, a Portela e a Mangueira foram lá e continuaram. E inspiraram vários compositores do asfalto também, como Ary Barroso, Erivelton Martins, Ataulfo Alves, Noel.
O Candeia falava que o negro era marginalizado, não importava o que fizesse. Você concorda?
Ele cantava: “O crioulo do morro está no miserê. Vai procurar trabalho, não encontra, vai jogar baralho”. Mas é verdade. O Candeia morreu batendo nessa tecla. O samba do morro continua marginalizado. Não é mais como antigamente, claro, mas sempre derrubam a gente. Dizem que nosso samba não é comercial, não vende, só se faz em barracão. Eles dão uma colherzinha de chá no Carnaval. Mas passa o Carnaval, esquecem a rapaziada do morro. A gente nem liga pra isso. Eu tenho samba que todo mundo canta e que nunca tocou no rádio.


Como ficaram as escolas de samba depois que o jogo do bicho passou a ter uma participação mais retraída?
O pessoal da contravenção gosta do samba, foi criado perto. Veio para ajudar, organizar. A liga hoje é organizada. A Portela tem 5 mil pessoas e tinha 200. As escolas cresceram. Eles são muito bem-vindos ao nosso reduto. Não saíram, estão todos ali.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vozes da Informação - uma amostra


Vozes da Informação é um novo programa do Canal Brasil. Aliás, não posso deixar de comentar e parabenizar o sucesso do canal, graças às atitutes corajosas de jovens roteiristas que chegaram à casa.

O que antes era apenas um canal em que se passava filmes brasileiros esquecidos, agora abre as portas para artistas e jovens diretores desenvolverem ideias bem interessantes e com baixo orçamento. Alguns exemplos de programas que confirmam o que digo: O som do Vinil, do baterista do Titãs Charles Gavin; Larica Total, engraçadíssimo, sobre culinária a baixo custo para homens solteiros; O Estranho Mundo de Zé do Caixão, talk-show do cineasta José Mojica Marins. E os que ainda irão estrear, como uma mesa redonda de artistas com degustação de águas, e também um reality show de celebridades bem na hora em que vão dormir (acho que se chama Celebrity sono TV).

Neste post, um programa bem menos ousado que esses que acabo de citar, mas com nível de conhecimento elevado. Eis o perfil do programa:
"Os bastidores da imprensa ganham as telas do programa, um bate-papo sem censura com os mais renomados jornalistas brasileiros. Em pauta, histórias, curiosidades e os desafios de uma profissão que, matéria-a-matéria, precisa se reinventar todos os dias." - do site do Canal Brasil. A direção é de Jorge Brennand Jr.

Confira dois depoimentos de consagrados jornalistas para o Vozes:

Tárik de Souza
O jornalista fala sobre as ditaduras de ontem e hoje, a falta de melhora da imprensa nos últimos tempos e a relação entre crítica musical e venda de álbuns, entre outros temas.



Sérgio Cabral
O jornalista comenta a exigência de diploma para exercer a profissão, a atuação como crítico musical e a tradicional prática do "jabá".

Entrevista com o dono do Estante

A revista Língua Portuguesa (Editora Segmento) #53, do mês passado, fez uma entrevista com o criador do maior portal de sebos do Brasil, André Garcia, de 31 anos.


Segue:


A cultura dos sebos

Criador do portal Estante Virtual diz que os alfarrábios superaram as livrarias como estimuladores de leitura no Brasil e viraram reserva cultural da memória literária brasileira

Luiz Costa Pereira Junior


O administrador André Garcia tinha 26 anos quando abandonou uma promissora carreira na área de inteligência de mercado em operadoras de celular, no Rio. Estava farto do mundo corporativo. Na dúvida do rumo a seguir, buscou a vida acadêmica. Mas, ao procurar livros para um mestrado, notou uma lacuna no mercado que mudaria sua trajetória.

Garcia não achava os títulos que queria em bibliotecas e livrarias, perdia-se nos sebos e na falta de oferta de usados na internet. Veio então o estalo. Em um ano, lançou o Estante Virtual, portal de compra de livros usados, que completa quatro anos com 1.670 sebos, com 22 milhões de obras reunidas.

Aos 31 anos, Garcia comanda um negócio que vende 5 mil livros diários, em 300 mil buscas (12 buscas por segundo em horário de pico). Para ele, os sebos devem ser valorizados como agentes de democratização da leitura. "Ela tem de estimular a imaginação e a reflexão.

Qualquer leitura não é leitura", diz com a autoridade conquistada pelo sucesso da iniciativa inédita de intermediação. Garcia diz ser um erro achar que só à escola cabe estimular a leitura. É desafio do país, afirma, fazê-la vista como prazer. O Estante Virtual quer provar que até uma iniciativa de negócio pode fazer a sua parte.

O brasileiro não gosta de ler ou não compra livros por achar muito caro?Os dois. Há muita gente que poderia gostar e não gosta, mas há ainda mais gente disponível à leitura se o livro fosse barato. Para quem não gosta de ler, há a razão educacional: a escola ensina a não gostar, usa uma metodologia que tem êxito inverso. Temos uma base pedagógica em que ler é obrigatório e a biblioteca é vista como lugar de castigo. Mas leitura é subjetividade, é ver o que agrada à sensibilidade e se ajusta à sua forma de ser, ao seu momento. A escola nunca me deu esse espaço e duvido que, salvo exceção, garanta isso a muito aluno. Para os que driblam a escola e aprendem a gostar de ler, há um preço alto a ser encarado. Se você considerar só a lista dos dez mais vendidos, a média é de R$ 43 o exemplar. Lê esses livros quem tem mais recurso.

Muitos acham que best-seller estimula a leitura.Tudo bem, o cara lê 800 páginas de Harry Potter. Mas esse tipo de livro leva mesmo a outra leitura que não seja a mais coisa parecida com Harry Potter? Outro dia, um membro da Câmara Brasileira do Livro disse num evento que se o brasileiro ler bula de remédio, ou revista de fofoca, já está ótimo. Na minha opinião, isso é só tecnicamente leitura. A leitura tem de estimular a imaginação e a reflexão. Qualquer leitura não é leitura.

O livro pode virar fator de exclusão social?Sem estímulo à escolha, sim. Há essa segmentação, em que uma minoria de livros é bem mais apresentada que todo o resto. A leitura termina aberta a um universo restrito de não mais que uns vinte livros. Uma derrota para a cultura. As pessoas leem só isso? O.K., melhor que não ler. Mas é um quadro de pauperização preocupante. Não basta democratizar a leitura. É preciso democratizar os autores de qualidade.

Daí o papel dos sebos...
Drummond tem uma crônica, O Sebo, em que diz que o sebo é o verdadeiro templo da democracia literária. As livrarias se concentram nos 20% de produtos responsáveis por 80% das vendas. Fazem isso não porque são "malvadas", mas por não haver espaço para tudo. Não há como dar vazão a 1.500 títulos novos todo mês, 52 por dia, fora as reedições. Já o sebo virou uma reserva cultural. Nele, há os de agora, os de antes, os fora de catálogo. Estamos falando da história editorial do país, não só dos livros do momento.

Muitos evitam sebos pela poeira e desordem, não é?Quem vê o sebo como o lugar de obras raras ou esgotadas deixa de usufruir o que ele tem a oferecer, pois trabalha com livro novo, seminovo ou em edição. À medida que as livrarias priorizaram os mais vendidos, os sebos viram que a demanda por eles cresceu. Boa parte se modernizou, está organizada. Os sebos com bagunça, obras empilhadas, empoeiradas, hoje são minoria.

Mas esse "preconceito" não impediu o avanço...
Se livro não fosse tão caro, sebos não teriam o papel que têm no Brasil. Em Portugal, os alfarrábios são só para obras raras e esgotadas, mesmo. Não se vai a um sebo português para comprar um novo Lobo Antunes ou Saramago, pois a loja não terá. Terá o exemplar raro, o autografado, a edição há muito esgotada. Aqui não, o sebo tem tudo, e o que a livraria de novos não tem mais, pois se concentrou nos mais vendidos e nos lançamentos recentes.

Qual o tamanho real desse mercado?
O Brasil tem hoje 1.800 livrarias em meio a 2.300 pontos de venda de livros. A estimativa de sebos é de 2 mil pontos de livros usados no país, 1.670 dos quais estão no Estante Virtual. Deste número, metade é de lojas de rua e a outra metade, de virtuais.

Quem toca esses virtuais?
Em geral, ex-professores, intelectuais aposentados, com muitos livros em casa, que ampliam o acervo e vendem. A gênese desse mercado ocorreu conosco. Antes, ia-se ao Mercado Livre ou montavam um blog, mas sem movimentação, pois ficavam perdidos na rede.
E aí surgiu o Estante.

E aí surgiu o Estante.
Atuava na área de inteligência em operadoras de celular, mapeando mercados, mas cansei da hipercompetição, dos valores focados em maximizar lucros, das relações pessoais pouco saudáveis nas empresas e de brigar com concorrentes por um produto que era, de fato, igual ao deles. Chutei o balde, queria virar professor e me preparei para um mestrado em Psicologia Social na PUC-SP. Procurei livros para estudar quando veio o estalo.
Criar o lugar dos sebos...

Eu ia a bibliotecas e livrarias, e não achava o que queria. Nos sebos, vi uma forma de busca elementar. Olhava as lombadas, umas com as letras subindo; outras, descendo; mesmo com paciência, não achava. Vi, então, que o sebo era mais um lugar para deixar o livro encontrar você do que encontrar o livro que de antemão se deseja. É lugar de garimpagem, não busca. Fui à internet e só achei uns seis sites de sebos. Todos caros. Aquilo me chamou a atenção. Pelo desperdício de um acervo inalcançável - o cliente não conseguia uma mera busca. Eu me perguntei porque só uma elite de sebos estava na rede. Mas sabia a resposta: montar um site com acervo e sistema de busca não é barato, uns R$ 5 mil à época. Minha ideia era resolver a procura e criar uma vitrine para sebos sem visibilidade.

O início foi difícil?No um ano que levou para preparar o site, mapeei o mercado. No final de 2005, quando lancei o Estante, contávamos com 68 sebos. Hoje temos 600 mil clientes a quem vendemos 5 mil livros ao dia. É mais do que as lojas de rua da Travessa, rede tradicional do Rio, ou do serviço on-line da Cultura, de São Paulo. Não vendemos o livro diretamente, fazemos a intermediação entre o livreiro e o comprador. A cada mil livros on-line, cada sebo fatura em média R$ 600 mensais.

Que livro é procurado?
Literatura estrangeira e brasileira, uns 20% e uns 15% da procura cada, o resto é pulverizado. O livro mais vendido é Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que não chega a 900 cópias vendidos. É pouco, claro. No Estante, a venda é pulverizada, não há a discrepância das livrarias, em que um livro dispara milhares de cópias e o 50º mais vendido não passa de dezenas de exemplares. Nos sebos, não. O consumo é bem mais equilibrado. Considero isso uma vitória deles, que têm acervos diversificados e servem a todo gosto, não a um ou outro autor, editora ou tipo de leitura.

Tecnologias como kindle tornarão o sebo obsoleto?

Se livro impresso é caro, imagine depender de um intermediário de leitura que custa bem mais. Sebos atuam em nicho inverso, o de pessoas que querem uma leitura mais barata.

Para além da venda, a internet estimula a leitura?
Autores que não conseguem editora escoam sua produção em blogs. Nessa hora, a internet ajuda a ler e a criar. Mas o gênero mais lido da rede é o jornalístico, leitura informacional, utilitária, não uma ordem de leitura, digamos, mais preciosa. A internet atrapalha, de fato, quando a ênfase da leitura é nos simulacros de interação, como orkut, MSN, Twitter. Eu me pergunto se essas são reais formas de interação, se as comunidades interagem como comunidade. No Orkut, são muito usadas como decalque para a pessoa inserir em seu perfil. Não há convivência genuína.

Não é julgamento severo?
Não podemos apenas rejeitar essa interação, mas não se deve só endossá-la. Pois podemos virar a civilização dos simulacros de interação e dos protótipos de leitura. A escola precisa mostrar que ler dá prazer e nem tudo é interação genuína. Dizem que, como os tempos são dinâmicos, as pessoas não param para ler, daí ser preciso coisas mais dinâmicas, com jogos e tal. É desistir cedo demais. É preciso opor alguma resistência a essa temporalidade imediata.

O problema é a educação.
Não é só a educação. Há um grau de precarização da vida contemporânea, da mente ocupada o tempo inteiro, o dia todo tomado, sem tantas zonas de pausa, tudo se junta para o sujeito chegar em casa e não ter energia para ler. Exercitar a imaginação dá trabalho. O sistema de vida que levamos não facilita. A leitura está condicionada a fatores que talvez não consigamos de fato mudar. Não será só a escola a ser obstáculo, mas mudá-la é um começo.

Como estimular a leitura, nesse contexto?
De cara, a escolha do que ler, o processo da leitura, deve dizer algo ao leitor. Damos um sinal errado ao aluno ou filho quando o fazemos ler só para fazer prova. Quando perguntamos o que o personagem falou ou fez, só para saber se houve leitura por parte do garoto. Ler não é isso. Tem de haver prazer envolvido. Devemos nos opor a certos dogmas intelectuais, de que os clássicos devem ser venerados sem restrições, os livros precisam ser lidos até o final etc. Por mim, começaria as primeiras séries proibindo provas sobre não didáticos. Se o garoto não ler, pior pra ele. Mas não se deve puni-lo. Senão, começa a odiar. A ver o tempo na biblioteca como castigo. Isso não forma leitores, só os afasta.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Rio: Terra arrasada

A história pluviométrica da cidade do Rio de Janeiro nunca registrou algo parecido como essas chuvas dos últimos dias. Para se ter uma ideia, no mês de março do ano passado choveu 110 mm; a deste mesmo mês foi de 320 mm.

A tempestade recorde isolou áreas da capital, deixando diversos moradores ilhados em: escritórios, carros e ônibus, pontos de ônibus, escolas, comércios e demais lugares onde as pessoas estavam. Faltou luz em 13 bairros. 2.510 pessoas ficaram desalojadas. 120 pessoas já morreram - a maioria dessas ocupavam encostas com risco de desmoronar - até a conclusão deste post.

A área mais castigada foi decerto o Morro dos Prazeres, com 14 mortes. Mas outras comunidades e bairros como o Morro dos Macacos, Taquara São Cristóvão, Ladeira dos Guararapes, Borel, Olaria, São Gonçalo e Niterói também tiveram tragédias com feridos, mortes e muitos desabrigados.

Em Mangueira, a quadra da escola virou abrigo para os que perderam tudo. Repórteres do Jornal da Globo mostraram o pessoal da escola fazendo dos camarotes pequenas salas para guardar mantimentos, colchões e roupas que chegam de doação. Veja reportagem sobre e depois a coluna do Ruy Castro na Folha de hoje.

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RUY CASTRO

Dívida cruel

RIO DE JANEIRO - "O que teremos de pagar por tanta beleza?", perguntou o poeta Ezra Pound a respeito de Veneza. Pound, que morou e morreu por lá, sabia a resposta: há "acqua alta", a água que sobe um pouco todo ano, há séculos, e, um dia -até 2100, dizem os apocalípticos-, acabará por submergir a cidade. Nesse caso, Veneza estará pagando pela ousadia de seus arquitetos de construir uma cidade que, na sua imodéstia, podia competir com a inspiração divina.

Mas, no caso do Rio, a beleza se originou dessa própria inspiração dita divina. Ou terão sido os homens os responsáveis pelo recorte da baía, o gigante de pedra, o traçado das areias, a onipresença do verde? E, sendo assim, por que teríamos de pagar? A não ser que fosse por isso mesmo -porque, embora não soubéssemos, previa-se uma espécie de pedágio pelos séculos em que tivemos o Rio para nós.

Pode ser também que nosso crime seja o de não termos cuidado dessa beleza como deveríamos. Fomos soberbos com suas matas e imprevidentes com suas encostas, impermeabilizamos seu chão e aprisionamos suas águas. Por que o Rio, que, nos séculos 17 e 18, tomou brejos, pântanos e alagadiços, não consegue conter a água que cai do céu? Mas, também nesse caso, por que a culpa acumulada durante várias gerações teria de ser expiada justamente na nossa vez?

Há cem anos se sabe que inundações são inexoráveis na zona do Maracanã, na lagoa Rodrigo de Freitas, no Jardim Botânico. Em jovem, eu próprio já atravessei a praça da Bandeira e os largos da Lapa e do Machado com água pela cintura. E a cidade, que começou a subir os morros em 1565, não se preparou para quando os morros resolvessem deslizar em direção à ela.

Apenas no último meio século, tivemos 1966, 1967, 1988, 1996 e, agora, 2010. Chega de pagar.


quinta-feira, 25 de março de 2010

Crítica/"Clarice,"

Capa da mais nova biografia da escritora Clarice Lispector. Lançada pela Cosac Naify.

Não acabou de sair do forno, mas é um lançamento relativamente recente - do final do ano passado. Eu ainda não li essa biografia. Que (como verão) para o Ruy é, na verdade, um ensaio biográfico.


Obra sobre Lispector não é biografia, mas ensaio biográfico
Benjamin Moser se afasta da narrativa factual e faz radiografia da alma da autora

RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

"Clarice,", o livro do americano Benjamin Moser sobre Clarice Lispector (1920-1977), está sendo apresentado por sua editora como "uma biografia como você nunca viu". E não viu mesmo porque, tecnicamente, "Clarice," não é uma biografia.

Ou, pelo menos, não se enquadra nos parâmetros que poderiam defini-la como uma história ou descrição da vida de um personagem, tanto nas suas grandes linhas como nos detalhes mais significantes, contra um pano de fundo de cenário e época. Esse personagem não é um ectoplasma, mas um ser ativo, material, que faz coisas concretas, em casa, na rua ou no escritório, e vive cercado de pessoas tão ativas e materiais quanto ele. Ao biógrafo compete ouvir o máximo de fontes para levantar os fatos de sua vida e dispô-los numa narrativa lógica, abrangente e o mais próximo possível da verdade.

No decorrer das 648 páginas do livro de Moser, Clarice Lispector não dá um beijo, não troca uma lâmpada, não frita um ovo. Às vezes, escreve um livro. É como se sua vida fosse toda voltada para dentro, e o biógrafo só se dispusesse a enxergá-la por meio de uma radiografia. E, no entanto, sabemos que a vida de Clarice foi cheia de peripécias.

Apenas pelo fato de ter nascido de uma família judia, na Ucrânia, logo depois da Primeira Guerra, Clarice já estaria condenada a elas. Sua mãe foi estuprada pelos russos num pogrom; o pai, arruinado; o avô, assassinado. Fugindo à miséria e a mais pogroms, os Lispector vieram dar no Brasil, onde já tinham parentes, em 1922, trazendo as três filhas (Clarice, a caçula, com 1 ano e meio) -primeiro, Maceió; depois, Recife; finalmente, o Rio.

Começou a escrever muito cedo, casou-se com um diplomata, passou 15 anos no exterior e, separada do marido, voltou com os dois filhos para o Rio, onde, a duras penas, consolidou sua obra literária. Siderou um sem número de homens pela inteligência e pela beleza, mas teve uma vida amorosa das mais pobres.

Escapou de um incêndio em seu apartamento, em que só seu rosto foi poupado das queimaduras. No fim, reduzida a uma acompanhante, morreu de câncer, aos 57 anos. Esses fatos estão no livro vagos, dispersos, sem paixão, como amostras de sangue numa lâmina de laboratório.
"Fatos e pormenores me aborrecem", Clarice costumava dizer. Coerente com a biografada, Moser afastou qualquer possibilidade de narrativa física, factual na verdade, a espinha de qualquer biografia. É uma opção respeitável.

Pena que, com isso, o leitor às vezes se perca no livro, sem saber onde ou quando está se passando a ação, a pouca ação que ele se permite descrever.

Como o autor não se obriga a narrar os fatos, o leitor é surpreendido com informações que parecem cair das nuvens.

De repente, por exemplo, Clarice se vê direto no nono mês de gravidez. Muito depois, sem aviso prévio, está se separando do marido. E, a folhas tantas, de supetão, descobrimos que tem um longo histórico psiquiátrico e é, há anos, pesada dependente de soníferos e antidepressivos.

O marido, por sinal, é uma sombra -não se consegue visualizá-lo, nem entender seu papel na vida de Clarice. Quanto aos comprimidos de venda "controlada", que ela tomava às mancheias, em nenhum momento Moser suspeita que pudessem ser a causa das ansiedades, angústias e insônias que, no fim, tornaram Clarice quase insuportável para os amigos e para si mesma. Nem poderia suspeitar: seu "approach" ao íntimo do personagem é decididamente psicanalítico -e, se este livro é uma biografia, sê-lo-á apenas da alma da escritora.

Na verdade, "Clarice," pertence a outro gênero, paralelo à biografia e perfeitamente válido: o ensaio biográfico -e como tal deve ser lido. No ensaio biográfico, o autor tem liberdade para comentar a trajetória do biografado, explorar sua cabeça, ignorar o que lhe parece supérfluo e, sendo o personagem um escritor, valer-se de citações do próprio e permitir-se toda sorte de interpretações, inferências e aproximações.

É o que Moser faz, quase sempre esbanjando inteligência. A identidade judaica de Clarice; sua consciência de ser uma esfinge, um "enigma"; sua natureza animal (que ela tanto prezava); a busca de um Deus "neutro", inumano, e do significado oculto das palavras -grandes temas claricianos que Moser analisa com brilho, dialogando a cada passo com trechos dos romances, contos e crônicas da escritora-, tudo serve para iluminar a obra de Clarice Lispector. E é isso que separa os ensaios biográficos das biografias: aqueles iluminam a obra; estas, a vida.

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CLARICE,

Autor: Benjamin Moser
Tradução: José Geraldo Couto
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 79 (648 págs.)
Avaliação: bom

quinta-feira, 18 de março de 2010

Fotógrafa inglesa é coisa nossa

Nascida na Inglaterra, em 1931, a fotógrafa Maureen Bisilliat veio para o Brasil com 21 anos, quando se casou com um negociante de algodão. Aqui fixou suas raízes, apaixonou-se por nossa cultura e, então, resolveu naturalizar-se brasileira.

Como fotojornalista, contribuiu em reportagens da revista Realidade (hoje extinta) e Quatro rodas, ambas da Editora Abril. Com formação em pintura, Maureen faz belo uso da luz e é rigorosa na composição das cenas.
Guimarães Rosa chamava-a de "irlandesa cigana", devido ao estilo hippie de se vestir, com saias e cabelos longos. Aliás, foi com a ajuda do poliglota que Maureen localizou e fotografou personagens das veredas de Minas Gerais. Como se não bastasse ter conhecido um grande literato, ela também conviveu com outro: Jorge Amado. Após uma inspiradora temporada na casa do baiano, fez ensaios do litoral e dos pescadores da região.
Algumas fotos da fotógrafa, que está com galeria no SESI da Paulista:

O jagunço Manuelzão, que inspirou o personagem de Guimarães Rosa.

Caranguejeiras. 1968.

Foi capa da Revista da Cultura.


Índio Xingu e um dos irmãos Villas-Boas.
Desde 2003 o acervo de mais de 16.000 imagens de Maureen Bisilliat pertence ao Instituto Moreira Salles.
Para vê-lo, clique aqui.
A Galeria de Arte do Sesi está com uma retrospectiva dela em cartaz desde a semana retrasada aqui em São Paulo.
Serviço:
Local - Galeria de Arte do SESI - Centro Cultural Fiesp -Ruth Cardoso. Av. Paulista 1313. Metrô Brigadeiro/Trianon-Masp.
Data - de 2 de março a 4 de julho de 2010.
Horário - Seg. das 11h às 20h.
Ter. a Sáb. das 10h às 20h.
Dom. das 10h às 19h.
Entrada Franca
Indicação Livre
Telefone - 3146-7405

quarta-feira, 17 de março de 2010

É pela coisa ou pelo nome da coisa?

Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso - ufa!
Ou, simplesmente, Picasso.

Garçon à la Pipe. 1905. Fase rosa do pintor espanhol, considerada mais 'alegre' com predomínios das cores rosa e laranja.

Este é um quadro dele. Em 2004 pagaram (quem foi o maluco eu não sei; se souber, por favor, me diga) a estratosférica quantia de US$ 100 milhões por ele - foi o primeiro quadro a ultrapassar a casa das dezenas de milhões.
Fala sério: um sujeito sentado, trajando algo semelhante a um macacão azul, com uma coroa de rosas, e segurando um cachimbo sem charme nenhum, vale tanto assim???

segunda-feira, 15 de março de 2010

Estadão de cara nova

Primeira página de hoje, segunda-feira 15 de março de 2010.
O jornal O Estado de São Paulo está de cara nova! Desde sábado ele circula por todo o país com tipografia, cromagem e novos cadernos para conquistar mais leitores e também tornar a leitura mais confortável aos leitores veteranos do jornal - que tem um ranso conservador, como o jornal, que tem mais de 130 anos de existência.

Desde 2004 não passava por mudanças - já estava na hora. A mudança não ficou só na versão impressa: o portal estadão (http://www.estadão.com.br/) também foi modificado; agora encontramos mais facilmente o que estamos procurando; a TV Estadão agora passará a ter mais conteúdo.

As mudanças mais significativas do jornal são as seguintes: o ex-libris (que é um homem em cima de um cavalo com uma corneta anunciando que o jornal chegou) ficou mais moderno; a primeira página deixa de ter seis colunas e passa a ter cinco, o que prioriza muito mais a importância do que está ali; novo cardeno de cultura no sábado, o Sabático, que trata de literatura e ensaios; assim o caderno 2 de sábado tratará somente de música; o antigo Cultura de domingo virou o Caderno 2 Domingo; um cardeno sobre meio ambiente, chamado Planeta; uma nova seção chamada Visão Global, na qual terá somente artigos de especialistas estrangeiros sobre determinado tema; Webesfera será uma outra seção em que nela o leitor encontrará o melhor da internet; o caderno Metrópole será escrito sob o princípio de "ajudar o leitor a sobreviver nessa imensa cidade de São Paulo".

Essas são as mudanças mais importantes. Se quiser saber a opinião de toda a equipe do Estadão sobre o Planejamento 2010 do grupo, veja o vídeo aqui.

Como leitor diário do periódico, eu aprovei a mudança!




sábado, 13 de março de 2010

Encontro das Velhas-Guardas

Aqui vai um vídeo de um encontro entre as Velhas-Guardas do Império Serrano - a anfitriã, no caso -, Padre Miguel, Salgueiro, Portela e Mangueira. O inédito encontro foi realizado em 2001 para homenagear a morte de Silas de Oliveira, maior compositor de samba-enredo do Império. Foi registrado - para nossa sorte! - e virou documentário, dirigido por José Maurício de Oliveira, produzido pela argumento Programas de TV e exibido pela TV Cultura e Arte, do Ministério da Cultura. Esta é a 4ª parte dele.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Luiz Ernesto Kaval, o colecionador de vozes

O jornalista e sua coleção.

Ele é um velho jornalista de 82 anos que há mais de 40 vem coletando depoimentos, canções, narrações de gols antológicas, entrevistas de cantores, shows e assim por diante. Seu acervo contempla um registro de cerca de 4.000 vozes.

Kaval, que teve um coluna de artes plásticas na Folha de São Paulo, e não é egoísta, agora quer doar sua valiosa coleção - mas não tem, ainda, sequer uma instituição que tenha manifestado interesse em se apossar da vozoteca, dar o devido tratatemento e torná-lo acessível a todos.

Enquanto nada acontece, fique com dois depoimentos. O primeiro é do político Tancredo Neves, discursando, dois dias depois de ser eleito no colégio eleitoral - como todos sabem, não chegou a assumir o cargo de Presidente da República, pois morreu. O outro é uma curiosa declaração do escritor Monteiro Lobato versando sobre a exploração do petróleo brasileiro.




Tancredo Neves dois dias depois de ser eleito.




Monteiro Lobato nacionalista.

Espero que a vozoteca LEK encontre logo uma hospedagem para termos a oportunidade de ouvir TODO esse tesouro sonoro da nossa história.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Adeus a Walter Alfaite


O sambista em sua alfaiataria em Botafogo, RJ.

Sábado passado morreu o portelense Walter Alfaiate, que integrava a ala dos compositores da Escola de Samba Portela desde 1980. Walter já estava internado em hospitais do Rio havia dois meses, e, neste último, seu quadro piorou muito. O sambista morreu de falência múltipla dos órgãos, mas sofria de enfisema pulmonar, insuficiência cardíaca, arritmia, insuficiência renal, gastrite e esofagite.

O corpo foi velado na manhã de domingo na sede do Botafogo, seu clube do coração, na zona sul do Rio. Sobre o caixão a bandeira azul e branca da Portela, a do Botafogo de Futebol e Regatas e seu elegante chapéu panamá.
Walter Alfaiate, ao longo de seus 50 anos de carreira, compôs mais de 200 sambas. Foi descoberto pelo grande público somente na década de 1970, quando o companheiro de escola Paulinho da Viola gravou três de seus sambas - "Coração Oprimido", "A.M.O.R. Amor" e "Cuidado, teu orgulho te mata".

Nas telonas
Em 2009 foi produzido um documentário sobre ele: Walter Alfaiate - A elegância do samba, que mostra a interação de Walter com seu ofício de alfaiate, suas andanças pelo bairro de Botafogo e depoimentos de amigos e artistas - dentre eles Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Regina Casé e Sérgio Cabral. Foi dirigido por um quinteto: Vital Filho, Emiliano Leal, Paulo Roscio, Vitor Fraga e Rommel Prata.

Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui.
Para baixar discos dele, clique aqui.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Drummond por Autran

Aqui vai um poema do Drummond, poeta do qual gosto muito, recitado pelo grande Paulo Autran. Uma singela homenagem a esses dois grandes expoentes da nossa cultura brasileira, um na dramaturgia e o outro na literatura, e que já se foram.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"O Haiti não é aqui" - ainda bem!...

Estava lendo o jornal e, ao mesmo tempo, ouvindo um belo disco da Elza Soares: "Do cóccix até o pescoço, de 2002, selo Maianga Discos e produção do José Miguel Wisnick (não sabia que ele produzia discos também).

Coincidentemente, comecei a ler a coluna do Ruy Castro de hoje, intitulada "Terror sob os escombros", que fala sobre a tragédia em Porto Príncipe, capital do Haiti, quando a faixa 3 do disco da Elza comecou a tocar; era justamente a canção"Haiti".

Ouça-a:

"Haiti" - Elza Soares.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

1 minuto de silêncio para J. D. Salinger



Morreu hoje o escritor norte-amerincao Jerome David Salinger, segundo comunicado da família. Conhecido pelo enorme sucesso de "O Apanhador no Campo de Centeio" (The Catcher in The Rye) publicado em 1951 - com 65 milhões de livros vendidos, em mais de 40 línguas -, o autor negou toda a fama que conquistara e resolveu se isolar em sua casa em Cornish, New Hampshire. Desde 1953 não saiu mais de lá. Não conversava com jornalistas, atrás de uma entrevista; tampouco recebia fãs querendo autógrafos ou coisa que o valha. Salinger resolveu não aparecer mais para o público desde então. Ninguém sabe exatamente por quê ele se isolou tanto. Os vizinhos não o viam, a família não o visitava. Mistério.


De sua casa, construída sobre uma colina cercada de bosques, longe de tudo, Salinger escreveu a vida inteira, porém quase tudo foi só para si. O escritor publicou somente alguns livros e coletâneas de contos. Seu último livro foi lançado em 1965.


Aos 91 anos de idade, faleceu de causas naturais. Espero que tenha alcançado a sua paz durante todos esses anos de reclusão. Também espero que a família abra o baú de Salinger e torne público todos os seus escritos.


É esperar pra ver. Enquanto isso nos contentemos relendo "O Apanhador no Campo de Centeio".


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Histórias curiosas da Imprensa








X



Em 1983, o jornalista Paulo Francis, então correspondente da Folha em Nova Iorque, e o cantor e compositor Caetano Veloso, trocaram palavras nada elogiosas. Francis escreveu um artigo criticando o comportamento e quase toda a entrevista que Caetano fizera com o astro dos Rolling Stones, Mick Jagger, em um programa da TV Manchete. Chamou-o de "despreparado, submisso" e de outros adjetivos infames. Caetano não silenciou, embora demorasse três meses para responder: xingou Francis de "bixa amarga" em uma coletiva para um show que estava fazendo. O que rendeu ainda uma réplica de Francis.

A discussão rendeu uma pauta para o pessoal da Ilustrada. Ruy Castro então decidiu fazer uma enquente: perguntar a 40 pessoas influentes do país, dos diversos campos da arte e do conhecimento, a quem dos dois preferiam. Há quem respondeu um ou outro, nenhum ou ambos.

Confira a matéria aqui.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A carta de Candeia, Paulinho da Viola e outros sambistas à PORTELA


Aqui vai uma carta feita por Candeia, Paulinho e outros portelenses alertando sobre os rumos que o GRES PORTELA vinha tomando pelos anos de 1975. Defendem, nela, o carnaval como livre manifestação do povo, e as escolas de samba como entidades responsáveis por isso.

Neste mesmo assunto, no programa Ensaio, da TV Cultura, que era dirigido por Fernando Faro, um dos maiores diretores de programas musicais da televisão, Paulinho da Viola em um dos programas recebe o grupo Os Quatro Crioulos (Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Élton Medeiros e Anescarzinho do Salgueiro, se não me falha a memória), e discutem em dado momento sobre a mercadologização do carnaval do Rio. Élton Medeiros fundamenta que hoje (naquele tempo) as escolas são comandadas por presidentes que não têm vínculo algum com a escola, a não ser o financeiro; que um bom tamborinista hoje está varrendo a quadra da escola, enquanto outros - que nem são tão bom assim - tomam o lugar dele na bateria porque conhecem o diretor, o presidente etc. Paulinho da Viola é mais saudosista, e relembra aqueles tempos áureos dos ensaios nas quadras em que se começava um samba na roda - como por exemplo "Esta Melodia" (Bubú/Jamelão), "Senhora Tentação" (Cartola) - e todos da escola cantavam alegremente. Hoje ninguém mais conhece esses sambas; quando muito, sabem os sambas campeões dos últimos anos...

É... são tempos que nunca mais vão voltar. Este programa está na rica coleção "A Música brasileira desse século por seus autores e intérpretes", organizada pelo Sesc, que contém diversas pastinhas com CDs e um livro sobre os autores e suas letras, em cada uma delas.

Se há quase três décadas atrás a situação das escolas e do carnaval já era ruim, imagine o que estes bambas não diriam hoje... em que a cobertura da imprensa no carnaval se resume apenas à nudez das rainhas de bateria.

Segue a carta:





Candeia escreveu esta carta junto de outros portelenses, como Paulinho da Viola, para mostrar suas insatisfações em torno das transformações que a estrutura da Portela vinha sofrendo, o que se pode resumir na perda gradativa da tradição e do padrão de qualidade.Na verdade, Candeia e os outros previram o que seria a realidade das escolas de samba nos dias de hoje: cada vez mais empresas, mais vendidas, menos raíz. Leiam!



"ÀDiretoria do GRES PORTELA




Rua Arruda Câmara, 81Madureira –


GBAt.: Sr. Carlos Teixeira Martins


Prezados Senhores:




Com o intuito de prestar uma colaboração efetiva à Portela e, de acordo com a solicitação feita pela Presidência, vêm os signatários desta apresentar suas considerações, que julgam válidas, para o necessário aperfeiçoamento das atividades e desempenho de nossa Escola. O que expomos, no documento anexo, não é o pensamento isolado de qualquer um de nós. É, precisamente, a opinião do grupo que, em discussão franca e aberta, predominou sobre eventual ponto de vista particular. Assumimos, pois, inteira responsabilidade pelas opiniões emitidas. Em nosso documento procuramos focalizar os aspectos que, pela sua importância dentro da Escola e pelas implicações que possuem com os desfiles de carnaval, devem merecer prioridade no conjunto de providências que, acreditamos, deverão ser tomadas a fim de que a Portela reassuma a posição de liderança que sempre foi sua, por direito e tradição, no cenário do samba e da nossa cultura popular.


Cada um de nós possui uma experiência no trato dos problemas da Portela, muito através do convívio direto com os componentes da Escola. Foi exatamente essa experiência que, aliada aos conceitos, de que comungamos, de respeito ao samba e às nossas tradições que, de uma forma geral, conduziu nossas opiniões. Acreditamos que os insucessos que vêm ocorrendo com a nossa Portela têm suas razões principais dentro da própria Escola.Acreditamos que a solução dos nossos problemas depende exclusivamente de nós.


Atenciosamente,
André Motta Lima
Antônio Candeia Filho
Carlos Sabóia Monte
Cláudio Pinheiro
Paulo César Batista de Faria




1 - INTRODUÇÃO


Escola de samba é Povo em sua manifestação mais autêntica! Quando se submete às influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura do nosso povo.Se hoje em dia são unânimes opinião e posição contrárias da imprensa em relação à Portela, é porque a Portela, apesar de sua tradição de glória, se deixou descaracterizar pelas interferências de fora. Aceitou passivamente as idéias de um movimento que, sob o pretexto de buscar a evolução, acabou submetendo o samba aos desejos e anseios das pessoas que nada tinham a ver com o samba. Durante a década de sessenta, o que se viu foi a passagem de pessoas de fora, sem identificação com o samba, para dentro das escolas. O sambista, a princípio, entendeu isso como uma vitória do samba, antes desprezado e até perseguido. O sambista não notou que essas pessoas não estavam na escola para prestigiar o samba. E aí as escolas de samba começaram a mudar. Dentro da escola, o sambista passou a fazer tudo para agradar essas pessoas que chegavam. Com o tempo, o sambista acabou fazendo a mesma coisa com o desfile.Essas influências externas sobre as escolas de samba provêm de pessoas que não estão integradas no dia-a-dia das escolas. E por não serem partes integrantes dessa cultura popular, que evolui naturalmente, são capazes de se deixar envolver pelo desejo de rápidas e contínuas modificações, que atendam a sua expectativa de sempre ver ‘novidades’. A despeito de algumas boas contribuições deixadas por pessoas que agiam sem interesses pessoais, e pensando no samba, a maior parte dos palpites tratava de submeter as escolas ao capricho dos intrusos. Começou a existir um clima de mudanças baseado no que as pessoas gostariam de ver e isso tudo levou às deturpações e defeitos que tanto atrapalham as escolas de samba, em todos os seus setores. Atualmente já se notam reações generalizadas contra as apresentações de escolas afastadas da autenticidade. Essas reações estão concentradas, em grande parte, em pessoas capazes de conduzir a opinião pública. São as mesmas que anteriormente divulgavam a ‘novidade’ de cada ano; e o que fosse divulgado e falado como certo, fosse o que fosse, era aceito por todos. Pois essas pessoas esperam agora uma reação contra as deturpações do samba.Consideramos que este é o momento de fazer a única evolução possível, com o pensamento voltado para a própria escola. Ou seja, corrigindo o que vem atrapalhando os desfiles da Portela, que tem confundido simples modificações com evolução. É preciso ficar claro que nem tudo que vemos pela primeira vez é novo.E que o novo, que pode servir a uma escola, num determinado momento, pode não servir a outra. A Portela adotou a Águia porque era o símbolo do que voa mais alto, acima de todos. E, inatingível, a Portela nunca imitava nada dos outros. Sempre criava. Hoje, o que a Portela está fazendo é procurar copiar o que se pensa que está dando certo em outras escolas.Voltando a olhar o samba por si mesma, a Portela voltará a ter os valores imprescindíveis, que tanto serviram para afirmar sua glória. Enganam-se os que pensam ser impossível recobrar esses valores.Esses valores foram capazes de fazer com que todos aguardassem a nossa escola com a expectativa de que veriam alguma coisa original. E o original, no momento, é ser fiel às origens. A Portela é a mais acusada quando se criticam deturpações no samba. É necessário ouvir toda a escola.




CRÍTICAS QUE JULGAMOS CONSTRUTIVAS


2.1 - A centralização se tornou demasiada na Portela. As diretorias, de algum tempo para cá, passaram a não mais ouvir as solicitações do componente, nem procurar explicar a ele suas decisões. A organização do Carnaval passou a ficar a cargo de poucas pessoas. Muita gente fica sem saber o que fazer. No desfile, isso se reflete no grande número de diretores responsáveis, que não sabem como agir.


2.2 - O gigantismo, sem dúvida, atrapalha a escola. Todos os setores são prejudicados por ele. É unânime a opinião de que a Portela cansa, porque ninguém agüenta ver um desfile arrastado. No entanto, o gigantismo é uma falha que decorre da própria escola e das influências externas que agem nefastamente sobre ela. Donos de alas conquistam seus figurantes, procurando agariá-los sem atender os verdadeiros interesses da Portela. Faltam medidas administrativas corajosas capazes de eliminar esse problema...


2.3 - O figurinista, ainda que famoso, precisa conhecer a Portela profundamente. Não adianta imaginar figurinos sem levar em conta os componentes da escola. Como resultante, as fantasias têm sido confeccionadas em total desacordo com os figurinos apresentados. Algumas alas tomam a si a iniciativa de escolher suas próprias roupas, sem levar em conta o enredo e o figurino recebido e nenhuma medida punitiva ou preventiva é tomada pela diretoria.


2.4 - Há anos gasta-se dinheiro para construir alegorias grandiosas. O resultado nunca é o esperado, porque o responsável pelo barracão não está integrado na escola. Os carros são pesados, difíceis de conduzir, quebram e prejudicam a escola. A partir de uma determinada época, generalizou-se a idéia de que a alegoria de mão era uma solução visual que emprestaria leveza e facilidade ao desfile. Na realidade, o que se vê é um obstáculo que não deixa sambar e tira a liberdade de expressão dos sambistas. As alegorias de mão, atualmente, atualmente, se constituem num recurso ilícito para valorizar a participação de alas que não sabem sambar. E, além disso, as alegorias, de mão ou de carro, não podem ser olhadas separadamente como um simples conjunto de julgamento. São antes de mais nada partes integrantes que devem ajudar a contar o enredo e valorizar o desfile da escola.


2.5 - Sob o pretexto de buscar uma comunicação mais imediata, a Portela vem restringindo a liberdade de criação de seus compositores. Além disso, os sambas de enredo vêm sendo escolhidos ao sabor de gostos pessoais e pressões comerciais.


2.6 - Os destaques, quando não constituem parte integrante do enredo, representam um obstáculo ao correto desfile da escola. Eles atrapalham na armação, dimensão e harmonia da escola, pois, invariavelmente, não cantam, separam e quebram a evolução da Portela. Alem disso, a Portela está cheia de destaques intrusos. O número excessivo de destaques na escola só faz prejudicar o bom desempenho da Portela na avenida.


2.7 - Não é possível continuarem os integrantes da escola sem acompanhar de perto tudo o que se passa na Portela. Não é possível que muitos saiam sem saber ao menos como se armar e se portar no desfile, e o que representam no enredo. Sem saber o quanto é importante a sua participação. Os componentes não têm consciência de que são eles a própria escola.


2.8 - A Portela tem deixado de lado seu papel de liderança no samba. A escola vem aceitando todas as contingências do regulamento, sem levar em conta não só seu papel inovador como a sua posição de contribuinte para a própria evolução do samba. Não podemos e nem devemos ficar a reboque de outras escolas, sem assumirmos nossa posição quanto ao destino das escolas de samba, independente de vantagens momentâneas que possamos aferir.




3 - NOSSAS SUGESTÕES


3.1 - Direção A direção da escola precisa urgentemente separar suas atividades em dois setores: administrativo e carnavalesco.O setor ‘administrativo’ funcionará na atual foram da diretoria, compreendendo seus atuais encargos acrescidos das tarefas de fortalecimento da organização e do patrimônio da escola, promovendo todas as demais atividades paralelas voltadas para o melhor atendimento dos portelenses (atividades culturais, recreativas e sociais).O setor ‘carnavalesco’ englobará todas as atividades ligadas ao carnaval, sob a responsabilidade exclusiva de uma ‘comissão de carnaval’, formada com poderes efetivos para a elaboração de todo o planejamento e execução do Carnaval, seguindo um orçamento financeiro aprovado pelo setor administrativo.A ligação entre o setor administrativo e a comissão de Carnaval será feita por um sistema de representação oficial que garantirá o vínculo e a uniformidade de ação dos dois setores.O trabalho da comissão de Carnaval só terá efetivo valor para a Portela, se for realizado com a máxima liberdade, dentro de um relacionamento respeitoso e democrático com o setor administrativo da direção de escola.Assim sendo, todos os encargos relacionados com o Carnaval só poderão ser desempenhados pela comissão, inclusive a divulgação do enredo.Os componentes da comissão de Carnaval deverão ser selecionados dentre os elementos mais representativos e conhecedores da escola e suas características. Caberá à comissão de Carnaval indicar os diretores que terão responsabilidade direta sobre o desfile, que serão os únicos investidos de autoridade para agir junto à escola. Não serão permitidos diretores de alas que não estejam integrados em suas próprias alas.


3.2 - Gigantismo Este problema será combatido com a adoção das seguintes medidas: proibição sumária de inscrição de novas alas na Portela; limitação do número de componentes em cada ala; eliminação de alas sem representatividade na Portela; estímulo à fusão de alas de pequeno contigente; criação de um regulamento para as alas que estabeleça, entre outras obrigações, o cadastramento das alas, o ingresso dos componentes no quadro social da Portela e a presença das alas nos ensaios com a bateria, segundo um programa a ser elaborado.Estas medidas visam limitar o efetivo da escola a 2500 figurantes distribuídos por, no máximo, cinqüenta alas.No processo de redução do efetivo da escola serão levados em consideração: antiguidade, obediência ao figurino e desempenho nos últimos anos.


3.3 - FantasiasO figurinista escolhido pela comissão de Carnaval deverá ser obrigado a realizar um sério trabalho de pesquisa em torno do enredo, procurando adaptar a execução dos figurinos aos anseios dos componentes da Portela.Se possível deverão ser recrutados auxiliares diretos do figurinista entre pessoas que pertençam á escola e que já tenham participado anteriormente de trabalhos desse gênero, capazes de refletir os gostos e desejos dos portelenses.Para facilitar a fiel execução do figurino por parte das alas, será preparada uma fantasia modelo para cada ala, com indicação de tipos de tecido a serem usados, preços dos materiais e local onde poderão ser adquiridos.A comissão de Carnaval ficará encarregada da fiscalização direta da confecção por parte das alas.Deverá ser criado um grupo sob o comando de um representante da comissão de Carnaval, que disponha de amplos poderes para retirar da concentração pessoas estranhas à Portela vestindo fantasias não aprovadas pela comissão de Carnaval.Esse grupo teria autoridade para controlar também as alas que desobedeçam ao critério de redução.


3.4 - Alegorias É muito importante a escolha de um artista capaz de dar confecção leve, com material moderno, à concepção dos carros. O artista precisa estar integrado à escola, não criando isoladamente. E deve também formar um grupo egresso da própria escola, que irá ajudá-lo e será aprimorado por ele.Os carros devem contar o enredo e terão seu número determinado de acordo com as reais necessidades do mesmo. Também as alegorias de mão terão seu número reduzido apenas ao imprescindível à ilustração do enredo.Vale deixar clara nossa posição: alegorias como fantasias só têm razão de ser enquanto arte popular.Como existe, por força de regulamento, o caráter de competição, a escola é obrigada a contratar artistas mas, deve, dentro do possível, limitar a criação dessas pessoas ao âmbito da cultura popular, que caracteriza a escola de samba. E lutar para quer, no futuro, integrantes da escola reúnam condições de fazer, eles mesmos, as alegorias e fantasias.


3.5 - Samba enredo É preciso urgentemente rever os conceitos criados a partir da idéia de que o samba curto é o mais comunicativo. É preciso dar total liberdade de criação ao compositor, quanto ao número de versos.A escolha do samba de enredo será feita pela comissão de Carnaval, levando em consideração a opinião geral dos compositores e, também a opinião dos componentes da escola. Terá de ser definitivamente afastada a hipótese de se levar em conta torcidas e interesses na escolha do samba de enredo. A colocação em quadra deve ser útil para mostrar o andamento do samba e a sua adaptação à escola. E, em nenhuma hipótese, deve ser aceita a interferência de pessoas de fora da escola.A responsabilidade da escolha e da definição dos sambas de enredo que irão para a quadra será exclusiva da comissão de Carnaval. Como norma que facilita e aprimora o contato entre os compositores, será obrigatório o mínimo de dois compositores para cada samba de enredo.Mas nem só de samba de enredo vive uma escola. A atenção ao trabalho dos compositores anima e eleva a própria escola. Por isso, consideramos de grande valia a abertura de um concurso interno de sambas de terreiro interno, só de compositores filiados à Portela. O samba de terreiro deverá voltar a ser ensaiado no meio da quadra, com prospectos e sem bateria, para dar chance ao compositor de avaliar a reação de seu próprio samba.Ainda para fortalecimento e levantamento de valores da escola, sugerimos um festival de partido alto (olha só que interessante!), organizado pela Velha Guarda, com todas as implicações de desafio e samba no pé. Será também importante proibir a entrada de novos compositores, condicionando a filiação á abertura de vagas na ala dos compositores.Com sentido de melhor representar a escola, os compositores deverão organizar coros masculinos e feminino, com respectivos solistas, a fim de representar a escola em gravações e exibições. Os solistas serão também puxadores oficiais de samba da escola. Além dos coros, será formado um regional oficial.


3.6 - DestaquesO número de destaques precisa ser determinado a cada ano, para atender exclusivamente às reais necessidades do enredo, de acordo com critério da comissão de Carnaval. as pessoas que estão saindo de destaque, se não forem julgadas convenientes á escola, serão convidadas a sair em alas, exceção feita, naturalmente, aos destaques tradicionais da escola. Não deverão ser mais admitidos os destaques de ala.


3.7 - Participação de componentesAs alas, por força de regulamento acima citado, têm de se reunir com maior freqüência com a diretoria. Não só para resolver problemas de estrutura, como também para melhor entender o Carnaval que a escola quer mostrar.Os diretores responsáveis pelas alas, além do aspecto de trabalho mais íntimo com os componentes, precisam se interessar pelo trabalho de orientação da escola a respeito da maneira mais correta de desfilar.Para que sejam definidas as atitudes durante o desfile, sugerimos a efetivação de ensaios com alas, nos moldes do desfile (Ex.: sair pelas ruas com a bateria).Também é importante a volta do autêntico ensaio geral, com a formação das alas em sua ordem de desfile.Em ambos os casos, as alas precisam ser orientadas sobre a maneira de armar na avenida, evitando a postura do bloco – um vício que vem dos ‘bailes de Carnaval’ em que se transformaram os ensaios da escola.Além da divulgação referente ao Carnaval, é preciso fortalecer os vínculos entre diretoria e componentes. Os componentes precisam participar mais de todas as atividades da escola. E para ajudar este processo sugerimos a imediata criação de um jornal interno da Portela, de um quadro de avisos na sede e também uma caixa de sugestões e críticas. O importante é que todos, sem distinção, tenham liberdade de opinião e possam se manifestar.


3.8 - Posição externaA Portela precisa assumir posição em defesa do samba autêntico. Isso não significa um retorno à década de 1930, mas uma posição de autonomia e grandeza suficientes para só aceitar as evoluções coerentes com o engrandecimento da cultura popular. É preciso olhar o regulamento de desfile sob o ponto de vista do samba. É necessário que a Portela lidere um movimento que obrigue a existência de um critério de julgamento autêntico e preestabelecido pelas escolas de samba. A Portela, e as escolas de samba em geral, não podem mais ficar sujeitas ás vontades dos que vivem fora do dia-a-dia do samba.




4 - CONCLUSÃO


Estamos certos de que as sugestões indicadas constituem a correta solução para os problemas da Portela.Não nos movem intenções de cargos ou de prestígio pessoal.Cremos ser necessárias mudanças de estrutura profunda, a cargo de pessoas certas para isso, que terão nosso irrestrito apoio.Estamos dispostos a apoiar os que se proponham a realizar essas mudanças, que julgamos inadiáveis, e a colaborar na medida de nossas possibilidades, discutindo e aplicando as proposições.Os signatários desse documento concordam inteiramente com os seus termos e se propõem à sua defesa em qualquer momento, em qualquer condição, a qualquer tempo.Estamos dispostos à discussão e ao debate que resultem numa posição comum em defesa da autenticidade do samba e da nossa Portela.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Da morte do CD

Infelizmente, pertenço a uma geração de transição -não só secular, mas também cultural-comportamental-, e isso me preocupa. Lê-se, ouve-se, fala-se em todos os lugares sobre novas mídias ou convergências de mídias. Conceitos como interatividade, web2.0 (por mais abstrato que me pareça ser), software livre... são, inevitavelmente, incorporados ao vocabulário de qualquer um que faz usufruto da Internet.
Me sinto meio deslocado no tempo, porque não sei me dar muito bem com essa ideia inexorável de morte das coisas -não falo de morte de pessoas, porque isto é difícil para todos, naturalmente-, de objetos com os quais você é/era muito apegado e que, querendo ou não, começam a extinguir-se.
A minha geração, por exemplo, que é a de quem nasceu no final de 80, presenciou a morte de uma porção de coisas com que éramos muito apegados. Os desenhos de super-heróis japoneses, como Giraia, Flashman e Jaspion; o walk-man; o BIP (quem efetivamente o usava?); sem dizer as guloseimas, como o biscoitinho de ursinhos fofis.

Para falar da morte de mais um objeto com o qual nos identifica(va)mos muito e que, curiosamente, morre como carrasco de seu antecessor, o LP, publico um texto do grande jornalista e biógrafo Ruy Castro, um cara que tenho muita adimiração pelo que escreve e pelas obras que fez.

Aqui vai um dos capítulos do livro "Tempestade de Ritmos - jazz e música popular no século XX", Companhia das Letras, organizado por Heloisa Seixas, mulher de Ruy. Ele é grande testemunha dessas mortes de que venho falando, por isso ninguém melhor do que ele para falar da morte do CD, já que tem um vasto conhecimento da música do Brasil e do mundo.



A música que surge do nada


Você se distraiu e o CD sumiu – já reparou? Aconteceu o que se previa desde fins do século passado (e só dizer isto já impregna a cena com um certo aroma de remédio de barata): o desaparecimento do último suporte material para se ouvir música. O disco, não importa em qual formato, estava condenado a desaparecer, sendo substituído pelos sons que viriam do espaço – também não importando onde este estivesse e, como diria o Woody Allen, até que horas ficasse aberto. Pois as previsões se confirmaram. A música hoje se espreme em aparelhinhos menores que uma caixa de fósforos, os quais tendem a diminuir ainda mais para caber, quem sabe, num ponto grampeado ao lóbulo, ou talvez num piercing espetado ao tímpano. A idéia é a de que, em breve, o ato de ouvir música dispense qualquer objeto físico – inclusive as orelhas.Isso significa que, em apenas cem anos, o som gravado terá passado do suporte mecânico mais grosseiro para o incorpóreo quase absoluto – das chapas primitivas, tocadas em gramofones do tamanho dos antigos orelhões, para a música que hoje surge de qualquer lugar. Portanto, preencha com livros ou com vasos de cerâmica marajoara as lindas estantes novas com que você presenteou sua coleção de CDs. Para acomodar sua futura e imensa discoteca virtual, um espaço vazio no meio do nada será suficiente. E, se você pensa que passaremos incólumes por isto, engana-se. Esta revolução não afeta apenas as gravadoras, os fabricantes de CDs e a indústria do plástico (usado para fabricar as caixinhas e aqueles infernais invólucros). Afeta também as gráficas, os designers de capas, os fotógrafos, os ilustradores, os autores dos textos dos encartes, as lojas de discos e, por fim, mas não menos importante, o próprio consumidor de música. Este, subitamente órfão de um objeto que contivesse o disco, já está se perguntando: Para onde foi o prazer visual que sempre se ligou ao ato de ouvir música?Bem, para ser justo, devo dizer que esse prazer visual não nasceu com a música, mas foi algo que se incorporou a ela na medida que a indústria do som gravado se desenvolveu. Do rolo mecânico de fins do século XIX ao disco de dez ou doze polegadas, feito de goma-laca e cera de carnaúba, e rodando a 78 r.p.m., o salto foi rápido – cerca de dez anos. Mas, a partir daí, esse objeto reinou sobre nós por quase cinqüenta anos, até 1948. E seu apelo visual era pobre. O disco vinha dentro de um envelope de papel pardo, trazendo as insígnias do fabricante, as quais podiam estar cercadas de todo o rococó possível, mas só isto. Um buraco no meio do envelope permitia ler o selo colado no disco com as informações básicas: o nome da canção, do compositor e do intérprete, e o logotipo da gravadora. Cada face comportava de três a cinco minutos de música, o que era suficiente para a música popular, e, por isso, esse disco vinha num envelope individual. Já uma sinfonia, que era mais longa, obrigava a que vários discos fossem gravados em série e acomodados num álbum, mas este também não trazia nenhum apelo gráfico – suas capas, de couro ou papelão marrom ou verde-escuro, serviam apenas para dar as informações essenciais. As coisas só começaram a mudar quando, em 1939, um artista gráfico americano chamado Alan Steinweiss descobriu que as capas dos álbuns podiam comportar grafismos variados, como letras e desenhos coloridos, para torná-las mais atraentes e visíveis nas lojas.Em 1948, uma nova técnica de gravação em microssulco fez com que os álbuns de 78s fossem compactados num único disco fabricado com vinilite, rodando a 33 r.p.m. e contendo de quinze a vinte minutos de música por face. Por rodar mais devagar e conter mais tempo de música, esse disco foi chamado de long playing – longa duração. Mas, no começo, apenas sua criadora, a gravadora Columbia (a mesma, aliás, que introduzira os desenhos e grafismos nas capas dos álbuns de 78s), podia usar essa marca. O mesmo quanto à abreviatura com que, na intimidade, os long playings passaram a ser chamados – LPs. E supunha-se também que esses novos discos de microssulco fossem inquebráveis, daí a orgulhosa classificação que eles traziam na contracapa: unbreakable microgroove. Na verdade, não eram tão inquebráveis assim – se caíssem de quina, costumavam quebrar –, e o comprador ainda corria o risco de destroncar a língua ao tentar pronunciar a expressão em inglês.Os LPs vinham no tamanho de dez polegadas (25 cm de diâmetro), para os discos de música popular, e de doze polegadas (33 cm), para os de música clássica. Mas, rapidamente, essa divisão acabou, e os dois formatos, aplicados a todo tipo de música, conviveram até 1954, quando o 12 polegadas se impôs e o formato menor foi abandonado. (No Brasil, que foi o terceiro país do mundo a adotar o LP, em 1951, atrás apenas dos Estados Unidos e da França, os LPs de dez polegadas só foram tirados de linha em 1958.) E, depois desse longo intróito, chegamos ao ponto que nos interessa: o LP de doze polegadas, finalmente estabelecido como um veículo perfeito para o design aplicado à música. É só pensarmos nos seus invólucros – as capas.Um LP simples era composto de um único disco, ensanduichado num envelope de cartolina, composto de uma capa e de uma contracapa, esta geralmente reservada para a lista das músicas ou para uma breve biografia do artista. Durante muitos anos foi assim, e éramos felizes com tal arranjo. Mas, em certo momento, os LPs começaram a publicar as letras das músicas e a exigir capas duplas ou triplas – as possibilidades gráficas também se multiplicaram, com fotos que se abriam em gloriosos spreads. E quando os LPs propriamente ditos duplicaram ou triplicaram dentro das capas, qual foi a solução? Acomodá-los em caixas, permitindo que o material gráfico também se expandisse num alentado encarte, cheio de fotos e textos. E não ficou nisso. Vários outros formatos revolucionários foram experimentados, como as capas de plástico costurado (adotadas apenas no Brasil, pela antiga Odeon, de 1958 a 1970) ou as de papelão muito grosso, quase indestrutíveis, inventadas nos Estados Unidos pela gravadora Command e usadas no Brasil com exclusividade pela Musidisc.E o projeto visual propriamente dito das capas? Não há fã de jazz ou de música popular que desconheça nomes de artistas gráficos como David Stone Martin, capista do produtor Norman Granz na gravadora Verve, ou do independente Burt Goldblatt, autor de algumas das capas mais loucas e bem achadas de discos de Carmen McRae ou de Stephen Sondheim. No Brasil, também tivemos grandes artistas do gênero, nenhum deles maior do que Cesar Villela, mais famoso hoje pelas inconfundíveis capas do selo Elenco, de Aloysio de Oliveira, entre 1962 e 1965 – objeto de não sei quantos estudos e teses universitárias nos últimos anos. Mas outros capistas, como Paulo Brèves, Paez Torres, Joselito e Eddie Moyna, tinham igualmente um trabalho de nível internacional.Tudo isso aconteceu nos anos 50 e 60, as maiores décadas na história do LP em matéria de artes gráficas. Nos últimos tempos, o universo das capas tem sido reconhecido como uma categoria à parte entre essas artes e rendido uma quantidade de livros espetaculares – quase todos no próprio formato quadrado dos LPs, de 33x33cm, o único a fazer justiça à grandeza e beleza das capas. É quase um gênero em si. Pois, depois de babarmos com tantos livros do gênero produzidos nos Estados Unidos e na Europa, finalmente, em 2005, tivemos o nosso, o monumental Bossa Nova, organizado por Caetano Augusto Rodrigues e Charles Gavin e editado pela Petrobrás – pena que numa edição fora do comércio.Por que a arte do LP se tornou de repente uma coisa tão nobre? Porque, desde meados dos anos 80, o LP foi ferido de morte e, logo depois, transformado em defunto pela instauração do CD. E, como sempre, quando um veículo é alijado do mercado, é hora de conferir-lhe status de “arte”. Na verdade, foi preciso que os CDs, lançados pela holandesa Philips por volta de 1985, dominassem esmagadoramente o mercado para que se começasse a enxergar todas as qualidades dos LPs. Comparados a estes, os CDs eram mesquinhos nas suas dimensões de 12x14cm – insignificantes para se expor dignamente uma fotografia e exigindo óculos ou lupa para que se lessem os textos. E os primeiros a sofrer com essa mesquinhez foram os LPs cujas capas foram apenas reduzidas, em vez de adaptadas para o novo formato: sua arte original sofreu para continuar visível e os textos de contracapa ficaram impossíveis de ler. E, para completar, a palavra LP foi banida do vocabulário. Por causa do CD, que era feito de metal, o LP passou a ser chamado de “vinil” – e é assim que, hoje, até os veteranos que se julgam esclarecidos passaram a se referir a ele. Mas chamar um LP de vinil é tão bobo quanto chamar um CD de metal.Como era de se esperar, o CD só precisou de alguns anos depois de implantado para também se adaptar a um design mais criativo. Surgiram os estojos de CDs duplos e triplos, permitindo encartes numa grande folha única, com doze, dezesseis ou quantas dobras se quisesse; criaram-se os estojos em formato de caixa de sabonete, com amplos encartes verticais; vieram as caixas em formato de LP, contendo quatro ou mais CDs e um generoso encarte de 33x33cm; e várias outras soluções que permitiam expandir a parte gráfica e torná-la menos mixuruca. Para não falar no formato digipack, que praticamente eliminou o plástico e possibilitou aquelas edições charmosas, tipo caderninho, que, no Brasil, a Biscoito Fino adotou como norma.Pois, enfim, exatamente quando estávamos começando a nos entusiasmar e a explorar todas as possibilidades gráficas do CD, eis que, agora, ele também pode ser considerado tão peça de museu quanto uma vitrola de corda. No Japão, há garotos de quinze anos que, se um CD lhes cair às mãos, não saberão para o que serve. E isso não demorará a acontecer entre nós.É como se a música devesse vir de um planeta impessoal, etéreo, feito só de sons, sem textos nem figuras – sem nada que denote a mão, a razão ou o coração do homem.

terça-feira, 19 de maio de 2009

resenha/"Gran Torino"

Gênero: Drama
Tempo: 117 min.
Lançamento: 20 de Mar, 2009
Classificação: 14 anos
Distribuidora: Warner Bros.
Estrelando: Clint Eastwood, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch, Cory Hardrict, Dreama Walker, Brian Haley.
Direção: Clint Eastwood
Produzido por: Clint Eastwood, Bill Gerber, Robert Lorenz
Orçamento estimado: US$35.000.000



Em “Gran Torino”, um Clint Eastwood sútil:ao criticar a família, o preconceito e a segregação de raças nos Estados Unidos

O filme, que estreou aqui no Brasil na terceira sexta de março deste ano, trata da vida de Walt Kowalski (Clint Eastwood), um ex-combatente da Guerra da Coréia (50-53) e funcionário aposentando de uma montadora de carros de Detroit, que acaba de ficar viúvo. Rabugento, ranzinza, mau-humorado são algumas das qualificações desse homem, que agora vive só - apenas com a companhia de sua cadela labradora -, em sua pequena casa em um bairro que sofre processo de “desamericanização”.

A morte de sua mulher faz com que o padre da região, Padre Janovich (Christopher Carley), se aproxime de Walt para convencê-lo a se confessar - o último desejo de sua mulher. Walt, sempre ríspido e arrogante, trata muito mal o padre, mas este não desiste tão fácil, tentando, em pequenas conversas sobre o que é vida e o que é a morte, descobrir os pecados do viúvo. Como se não bastasse esse tormento na vida do ex-montador de carros, ao seu lado mora uma família inteira de imigrantes refugiados do Laos. Esses seus vizinhos não lhe dão sossego: falam alto; discutem o tempo todo em língua desconhecida; vivem em uma tremenda bagunça; e, o pior, invadem a sua propriedade, pisando no seu tão bem cuidado gramado.
Na falta de companhia, aceita a amizade da garota da família, em certa discussão por causa da invasão de seu bem cuidado gramado, e vai percebendo que é muito mais parecido com essa família que vive ao seu lado do que com a sua própria, que mal o visita; e quando o faz, tem a cara de pau de perguntar quais bens irão receber do velho. Uma gangue que quer aliciar o bondoso Tao, irmão da garota, faz Walt ser considerado um herói para a família ao expulsá-los de lá com seu rifle, outrora companheiro de guerra. A partir daí o filme concentra-se nesse dilema: da gangue tentar pegar Tao, e Walt tentar protegê-lo porque sabe que ele é um bom rapaz. Assim vai até o desfecho, surpreendente, épico, por sinal.

Reflexão
Clint, como diretor, nunca produz filmes gratuitamente, apenas para o bel-prazer do público; há sempre algum pensamento, algum valor que ele quer nos passar por trás das criações de seus roteiros. Desta vez , o experiente diretor chama atenção para a estrutura da sociedade norte-americana, que está em tempo de rever seus conceitos, tanto os referentes à sua tradição familiar – que, como se viu no filme, não dá os merecidos cuidados aos mais velhos -, como também a dificuldade de saber lidar com os estrangeiros – principalmente mexicanos,caribenhos,orientais -, que não são poucos no país e não podem ser ignorados.

É ao mesmo tempo engraçado e bonito ver Walt ensinando Tao a ser aquele modelo de homem americano, seja na busca por emprego em uma construção, seja na barbearia ou nas investidas com uma garota. Clint protagonizou um anti-herói (ou um herói decadente, pessimista) para abrir as feridas da sociedade estado-unidense.




Aprovado.